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AWC Preview | O futuro dos Clubbers

Você participou de alguma festa virtual no último um ano e meio? A imersão numa experiência remota relacionada à festa parecia algo impossível para maioria daqueles que frequentavam pistas em 2019. Poucos meses de isolamento em 2020, contudo, foram suficientes para desmistificar o que parecia não fazer sentido.  Apresentações de artistas tocando sozinhos – nos quartos, salas ou varandas das próprias casas, em estúdios ou em locações especialmente preparadas para receber uma transmissão, e não pessoas – com o público espalhado literalmente pelo mundo se tornaram uma das únicas alternativas para o cenário eletrônico com a pandemia. Acompanhando pela tela do celular ou do computador, com fones de ouvido ou sistemas de som com desempenho bem inferior daquele encontrado em clubs e festas, todos tiveram “em seu benefício” o conforto de casa à disposição –  se é que curtir de pijama, sem filas pra bar e banheiro e literalmente a um passo da cama pode ser considerado algo bom. 

Recomendo esta jornada pra quem ainda não a desfrutou – ainda dá tempo – por vários motivos. Os principais deles são: constatar que uma divertida, inusitada e genuína opção de se divertir pra valer em casa nasceu, assim como nasceu também uma compreensão cristalina do quão insubstituível é a experiência presencial. Enxergando um pouco além das sedutoras polêmicas fica cla​​ro que as duas não competem entre si: são complementares. Se há muito pouco tempo os clubbers não imaginavam como era uma experiência remota, alguns clubbers do futuro provavelmente não imaginarão como era uma experiência meramente presencial.  

Falar do futuro dos clubbers passa pelo seu presente e passado. Se muitos têm em mente aquela “tribo urbana” dos anos 90 (usando o vocabulário da época) trajando roupas fluorescentes, chocando o conservadorismo de então com seus piercings embalada pelo​​s ideais do PLUR, pode ser saudável voltar algumas décadas e entender melhor o fenômeno. Durante a AWC 2021, inclusive, teremos alguns dos pioneiros do cenário brasileiro participando, e abertos a explicar as diferenças entre o ontem e hoje (inscrições aqui). 

Desde o momento em que foi possível reproduzir música sem a necessidade de uma banda completa se apresentar concomitantemente no mesmo espaço, as audiências musicais cresceram num ritmo acelerado. Rádios, gramofones, vitrolas, toca-discos e (fitas), CDs e pen-drives espalham a poderosa mensagem musical há quase um século, mudando constante e intensamente a forma como nos relacionamos com a música. Não só com ela na verdade: tanto a relação com nós mesmos como a com os outros é capaz de sofrer uma transformação profunda quando estamos ouvindo uma composição. Consequentemente e sem nenhum exagero, pode-se afirmar que a relação do homem com a vida e o universo muda quando existe uma trilha sonora. 

O fenômeno da audição musical coletiva nos remonta a algumas tradições ancestrais e tribais muitas vezes catárticas – inúmeras vezes reprimidas, consideradas um perigo às ordens estabelecidas pouco afeitas à liberdade. Dançar sozinho, acompanhado ou em grupo foi (e ainda é) proibido em incontáveis episódios da história. A força do vínculo criado pela música e pela dança em uma coletividade é tamanha que há quem defenda que foi um dos pilares da própria evolução humana.

Foi durante a Segunda Guerra Mundial que surgiram alguns dos movimentos seminais que desembocariam nos clubbers atuais. Os “Zazous” franceses e os “Swingheines” alemães eram grupos similares: fãs de Jazz, compostos majoritariamente por jovens que se reuniam em locais fechados para ouvir música, dançar e se divertir com liberdade. Este segundo grupo foi perseguido e alguns membros assassinados pelo regime nazista, já que ouvir e dançar Jazz chegou a ser proibido em 1942. Já o primeiro, reza a lenda que inventou a primeira Discoteca do mundo na Paris ocupada em 1941.

À medida que se observa mais detidamente, década depois de década, desde então o fenômeno do encontro de pessoas (já não necessariamente jovens) unidas em espaços em torno da música só ficou mais forte. Foi com o fim da Segunda Guerra  que a aura em torno da juventude ganhou o brilho que vemos até hoje, e os locais noturnos de interação rapidamente se transformaram em espaços de questionamento e acolhimento, catalisando contraculturas. Nesta época que a expressão DJ foi cunhada e a figura do seletor musical nasceu, pra hoje se tornar peça central na cultura Pop.

Em todos os grupos e momentos históricos, uma coisa sempre esteve presente: o contato físico e presencial do qual estamos privados há um ano e meio. Este obstáculo, entretanto, pode ser transposto pela primeira vez na história graças à tecnologia de ferramentas como o Zoom e à criatividade dos produtores de evento, que conseguiram ressignificar a experiência remota. A quebra de paradigma que um convívio virtual pode trazer já se vive, mas as consequências práticas disso requerem mais tempo pra se assentarem. Entretanto, uma experiência virtual de qualidade em espaços antes inacessíveis pela distância é uma possibilidade real e já cria novos comportamentos que se hoje são individuais logo podem se tornar coletivos, talvez dando vazão a novos movimentos que antes eram calcados somente em decorrências de trocas presenciais.

Uma das poucas certezas que se têm é a de que o clubber é uma figura que circula entre nós há muito mais tempo do que parece. Ele apenas não era chamado assim, e muito provavelmente estará entre nós – em número cada vez maior e com mais ferramentas para se divertir.

A música conecta.