Caminhos para uma maior visibilidade da arte criada por mulheres na cena eletrônica

É fato: em pleno 2020, a cena eletrônica ainda é dominada pelos homens. É só abrir os sites especializados que verão imagens deles: brancos, cisgêneros, heterossexuais e ricos. Para quem é leigo, o estereótipo do DJ é o “playboy”. De vez em quando, lemos uma matéria ou outra sobre uma mulher, quase sempre se destacando simplesmente pelo fato de ser mulher. Mas, quem vive a cena sabe que a realidade é outra, e que existem cada vez mais mulheres produzindo. Por que o cliché persiste no imaginário popular e nossos trabalhos ainda não ganharam o devido destaque na mídia? 

Em 2010, quando comecei a tocar minhas primeiras gigs em São Paulo, a cena era mais desigual que hoje. Eu era uma das únicas mulheres no país a me apresentar como live act e me via constantemente sendo a única mulher nos line-ups. Eu me indignava com a desigualdade do meio, mas não tinha a força nem a coragem de confrontar sozinha esse sistema, com medo de perder oportunidades de trabalho e prejudicar minha subsistência. 

De lá pra cá, uma virada feminista tomou o mundo de assalto. Na cena de música eletrônica brasileira, um importante marco foi a residência Pulso na Red Bull Station São Paulo em 2015. Nessa ocasião, eu e mais nove mulheres, dentre elas Cláudia Assef, Monique Dardenne, Amanda Mussi e Karen Cunha, depois de um mês convivendo e produzindo, fundamos o grupo Mulheres na Música. Passamos a nos articular com mulheres profissionais de todo o país, dos palcos aos bastidores, em prol de dar mais visibilidade às nossas produções. O próprio Women’s Music Event, que hoje é referência nacional, influenciando não só a cena eletrônica, mas toda a cena musical brasileira, nasceu desse grupo.

Essa injeção de ânimo me ajudou a me enxergar como agente de mudança. Eu não conseguia mais ficar passiva, esperando que o mundo acordasse feminista um dia para que meu trabalho e das minhas colegas ganhassem a mesma visibilidade e remuneração dos nossos comparsas homens. Em consequência disso, resolvi me arriscar mais, lançando um álbum solo e tomando um posicionamento mais combativo nas redes sociais e nos meios de comunicação. Comecei a formar mulheres com minhas oficinas de sintetizadores, Synth Gênero. A busca pela igualdade me propulsionou a empreender no meio, para que eu pudesse abrir espaços para nossa arte, tanto nos line-ups dos meus eventos, quanto no alunado da minha escola de produção musical com João Pinaud, WAVE Live Act e na curadoria do meu selo, Baphyphyna

Encontrar as mulheres que vem fazendo história e trazê-las para um público mais amplo requer que quem esteja em posição de poder queira dar visibilidade para elas – é uma questão de vontade. Todo mundo ganha com isso, pois estamos na ativa e na vanguarda, principalmente as mulheres trans, não-binárias, negras, indígenas, periféricas e divergentes. Estão criando sonoridades refrescantes e inovadoras, diferentes desses sons padronizados que seguem a fórmula da indústria. Elas nos mostram o caminho para o futuro. 

O fato que os meios mais comerciais ainda não estão refletindo isso nos mostra que o avanço coexiste com o retrocesso, e que o progresso não é uma questão de tempo, mas de conquista de espaço. A única forma de manter o mercado se abrindo para nossa arte é nos tornarmos também as empreendedoras, as jornalistas, as educadoras, as curadoras, nos mantermos presentes em todas as etapas, continuarmos a fomentar arte produzida por mulheres, criar espaços seguros para combater a violência de gênero em todas as esferas da vida e produzir, produzir, produzir!

A música conecta.