Pensar no b2b entre RHR e Skrillex no Dekmantel exige partir de uma afinidade que já ultrapassou o campo das suposições. Os dois dividiram o estúdio em SYRINX, faixa que encerra GÍRIA, EP lançado por RHR em março deste ano. A questão, portanto, não está em descobrir se seus repertórios podem conversar, mas em observar como uma relação já testada na produção musical pode ganhar outra dinâmica quando passa a depender de escolhas feitas diante da pista.
RHR se tornou uma figura de referência da cena eletrônica de São Paulo ao desenvolver uma pesquisa que enxerga o funk brasileiro como um campo aberto de experimentação. Em seu trabalho, os ritmos do gênero aparecem ligados a dancehall, electro, techno, dubstep e outras vertentes da bass music como partes de uma mesma construção. Ele preserva o caráter desses estilos enquanto reconfigura suas estruturas, reorganiza suas percussões e leva elementos familiares para lugares menos previsíveis.
Além disso, RHR consegue dialogar com a música eletrônica produzida em diversos cantos do mundo, levando sua origem como parte ativa de seu processo criativo. Na Rinse France, RHR apresenta o programa Som Sistema, onde a música brasileira é colocada em conexão com a tradição de bass music difundida pela rádio. Em 2025, a Resident Advisor o escolheu para a série Breaking Through, descrevendo seu trabalho como parte de uma transformação da música eletrônica brasileira e de um movimento que projeta o Baile Funk para novos territórios. Essa presença em diferentes cenas vem de uma curadoria que parte de um lugar específico e encontra pontos de contato com artistas e contextos que também formam suas identidades a partir de diferentes formas de construção sonora.
Skrillex chega por um caminho diferente. Sua projeção global começou com o Dubstep do início de 2010, período em que suas produções ajudaram a levar o gênero a uma escala comercial inédita. Mas sua trajetória não ficou limitada à sonoridade que marcou aquele momento. Ao longo dos anos, ele passou a colaborar com artistas de diferentes cenas e a incorporar pop, rap, jungle, techno, miami bass e funk brasileiro ao seu repertório, mantendo uma assinatura reconhecível mesmo quando alterna a direção, algo que se tornou uma das características mais importantes do seu trabalho: Skrillex não apenas transita entre referências, mas procura entender o que pode produzir a partir do encontro com elas.
Cada um chega a esse ponto por uma experiência própria. RHR parte de uma relação direta com a cena underground e com os movimentos que fazem parte de sua formação. Skrillex atua por meio de uma rede internacional de colaborações e leva para cada parceria uma experiência formada em diferentes escalas da música eletrônica global. Essa diferença pode favorecer o b2b, porque coloca lado a lado um artista capaz de aprofundar relações entre vertentes mais densas e outro com grande habilidade para reconhecer o potencial de uma ideia e expandir seus efeitos.
No mais, embora tenham construído suas trajetórias em cenas e proporções muito diferentes, RHR e Skrillex demonstram uma forma semelhante de pensamento criativo. Os dois testam combinações pouco óbvias e transformam essa abertura em trabalhos autênticos. Além disso, há uma personalidade enérgica em comum na maneira como apresentam essas escolhas.
SYRINX é a primeira demonstração concreta do que pode surgir quando essas duas pesquisas se encontram em condição de igualdade. Ambos compartilham um interesse por percussões quebradas, graves e combinações que escapam das divisões mais previsíveis entre gêneros. A tendência é que o set percorra funk brasileiro, techno, dubstep, electro, dancehall, jungle e outras vertentes mais quebradas por meio de cortes rápidos, contrastes fortes e mudanças capazes de reformular constantemente o que vinha sendo construído. O desafio estará em fazer com que essa quantidade de informações produza uma narrativa coesa e não somente uma sequência de momentos explosivos. Caso encontrem esse equilíbrio de forma bem articulada, o set pode preservar a imprevisibilidade sem perder o sentido.
No Dekmantel, esse encontro ganha ainda mais força porque se conecta diretamente à identidade curatorial do festival. Ao reunir RHR e Skrillex entre os headliners, a programação coloca a abertura à experimentação no centro da edição e reforça a ideia de que a música eletrônica contemporânea se constrói a partir de combinações difíceis de profetizar. O b2b representa essa disposição de aproximar linguagens e trajetórias distintas sem exigir que elas se encaixem em uma fórmula já conhecida. Nesse sentido, a importância da apresentação está tanto no resultado do set quanto na escolha de um festival dessa magnitude transformar o risco, a curiosidade e a criação compartilhada em um de seus principais argumentos.