Quando se fala em colaboração dentro da música eletrônica, existe um consenso quase automático de que ela representa avanço, maturidade, inteligência estratégica e até generosidade, o que costuma aparecer como um valor inquestionável. A ideia de fazer algo junto carrega a promessa de crescimento mútuo, troca justa e expansão de possibilidades. Contudo, assim como acontece com outros discursos naturalizados no mercado cultural, essa movimentação raramente dá conta das assimetrias que permeiam as colaborações na prática.
Isto é um ponto que merece atenção quando lembramos que a produção artística nunca é completamente individual. Em Art Worlds, o sociólogo Howard S. Becker propõe que o mundo da arte depende de uma rede extensa de participantes, sejam eles artistas, técnicos, produtores, críticos, fornecedores, público, instituições, que tornam sua existência possível — ou seja, uma rede de cooperação. Ao aplicar sua perspectiva interacionista ao campo artístico, Becker desafia a noção do “gênio isolado” e demonstra que se manter criativo e relevante dentro da esfera cultural — e não só ela — depende sim das colaborações que você alimenta.
No entanto, reconhecer que o fortalecimento da arte é fruto dessas interações não significa ignorar as hierarquias que estruturam essas redes. Se toda produção depende de múltiplos agentes, também é verdade que nem todos ocupam o mesmo lugar dentro desse ambiente. Essa discrepância se intensifica quando diferentes trajetórias se encontram. Quando dois artistas possuem trajetórias semelhantes, a divisão de responsabilidades tende a ser mais equilibrada. Já artistas em estágios distintos de carreira não chegam a uma colaboração com os mesmos recursos, o mesmo tempo disponível ou o mesmo poder de decisão. Ainda assim, o convite costuma ser apresentado como se as condições fossem equivalentes. A ideia de projeção futura é suficiente para que muitos artistas aceitem condições que, em outro contexto, seriam questionadas. Mesmo quando há concordância inicial, a desigualdade continua presente e molda minuciosamente o resultado.
A partir desse ponto, torna-se necessário diferenciar aquilo que pode ser entendido como colaboração artística genuína das parcerias motivadas quase exclusivamente por alcance, algoritmo ou capital simbólico. À primeira vista, ambas podem parecer semelhantes: dois nomes assinando um lançamento, uma marca associada a um artista ou um projeto anunciado como construção conjunta. No entanto, as bases que sustentam cada uma dessas ligações são distintas.
Na colaboração que nasce de afinidade criativa, existe espaço para divergência, para negociação de caminhos, para risco compartilhado. Há um interesse real na construção de algo que nenhum dos envolvidos produziria sozinho. Já nas parcerias guiadas principalmente por expansão de público ou fortalecimento de imagem, o critério é quase que puramente estratégico. O objetivo não é necessariamente aprofundar uma pesquisa artística, mas ampliar presença, acessar novos territórios ou consolidar posicionamento. Deste modo, na maioria das vezes, quem detém o maior “poder” é quem guia as decisões do processo criativo e os meios de visibilidade.
Em uma cooperação, um artista pode ganhar espaço; outro, credibilidade; uma marca pode adquirir legitimidade cultural; um produtor pode acessar um circuito que antes não ocupava. No entanto, nem sempre esses ganhos são distribuídos de forma proporcional. Há quem amplie alcance enquanto outro assume a maior parte do trabalho invisível — produção, ajustes técnicos, organização, negociação, comunicação —, sob a promessa de que ganhará visibilidade. A visibilidade, porém, é uma moeda incerta. Ela não garante continuidade, não assegura novos convites e tampouco substitui acordos transparentes.
Com o tempo, essas práticas começam a afetar não apenas as condições materiais de trabalho, mas também a própria identidade artística. Quando colaborar passa a ser percebido como requisito para permanecer ou circular na cena, o processo criativo pode se moldar às possibilidades de associação. Essa adaptação nem sempre é consciente e muitas vezes surge como resposta à necessidade de continuar tentando se infiltrar em um espaço que poderia ser conquistado com a própria autenticidade, que acaba sendo diluída por direcionamentos alheios.
Colaborações mal estruturadas tendem a gerar conflitos que raramente se tornam públicos. Divergências sobre decisões finais, divisão de receitas, uso de imagem ou desdobramentos futuros costumam permanecer restritas aos bastidores. Esse acúmulo de tensões impacta diretamente a saúde mental. A sensação de injustiça, o medo de “se queimar”, a dificuldade de impor limites e o receio constante de perder espaço produzem um estado de vigilância permanente. Criar, que deveria ser espaço de experimentação, passa a carregar a ansiedade de uma negociação.
A redução da novidade e novas criações é outro efeito visível. Quando decisões criativas são direcionadas pela conveniência, a margem para risco diminui. O artista evita apostas e possíveis caminhos sobre a sua própria arte, evita desagradar parceiros estratégicos, evita caminhos que possam comprometer futuras colaborações. A cena, por sua vez, passa a reproduzir combinações previsíveis, reforçando fórmulas que funcionam no curto prazo, mas empobrecem a diversidade no médio e longo prazo.
Esse movimento se intensifica em um cenário onde a presença constante se tornou praticamente obrigatória. A dinâmica das redes sociais, a exigência por lançamentos frequentes e a manutenção de uma narrativa ativa criam a sensação de que é preciso estar sempre produzindo algo novo. A colaboração surge como solução: na prática, dois públicos se encontram, dois nomes circulam ao mesmo tempo e se reforçam mutuamente. O problema é que, muitas vezes, a pressa substitui a maturação. Parcerias passam a ser organizadas para sustentar visibilidade contínua, não necessariamente para consolidar uma construção artística consistente e uma boa relação. Fazer junto deixa de nascer de uma vontade criativa e passa a responder à urgência do mercado.
O diálogo é o primeiro passo para a solução. Expectativas pouco alinhadas, créditos indefinidos, percentuais não discutidos com clareza, decisões concentradas em apenas um dos lados e incertezas sobre desdobramentos futuros acabam se acumulando e fazem parte do combo do desgaste. O receio de parecer ingrato ou pouco colaborativo leva muitos profissionais a silenciar incômodos legítimos. Essa estagnação, porém, faz com que a colaboração deixe de ser um espaço de expansão e passe a ser campo de cautela constante.
Ao final, talvez seja necessário retirar a colaboração da prateleira de virtude automática que ela ocupa na cena. Ela pode ser potente, mas não deve ser tratada como exigência, pois nem toda parceria fortalece e nem toda associação amplia horizontes.Em determinados momentos, preservar direção própria exige recusar propostas que não respeitam limites, valores ou condições justas. Assim como colaborar, saber dizer “não” pode abrir caminhos, proteger a própria coerência, saúde e continuidade criativa, pois nesse ambiente estruturado por redes e relações, manter clareza sobre o que se oferece e o que se recebe é parte essencial de uma trajetória sustentável.