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A música conecta

Diggin Essence | Eli Iwasa

Por Elena Beatriz em Diggin Essence 16.09.2026

A Diggin Essence chega à terceira temporada com uma nova sequência dedicada a investigar a essência de artistas que fizeram da discotecagem uma parte fundamental de suas carreiras. De setembro a dezembro, Eli Iwasa, Francesco Del Garda, Millos Kaiser e Aurora Halal serão analisados a partir das referências que formaram seus repertórios e da maneira como cada um aprendeu a conduzir uma pista. Antes dos grandes palcos ou dos feitos acumulados, interessa entender como se forma um bom DJ.

Eli Iwasa inaugura essa nova etapa em um momento simbólico: em 2026, completa 25 anos desde sua primeira apresentação profissional, depois de acompanhar de perto algumas das transformações mais importantes da música eletrônica brasileira. Sua formação, porém, começou antes da cabine. Aos 17 anos, quando entrou pela primeira vez no Massivo, em São Paulo, carregava referências do rock gótico e do EBM, além dos discos de post-punk, goth e industrial que procurava na Galeria do Rock. Depois vieram o Hell’s Club, as primeiras raves e uma pesquisa alimentada tanto pelo que escutava nas pistas quanto pelas conversas, indicações e descobertas que surgiam a partir delas.

No fim dos anos 90 e início dos 2000, essa proximidade ganhou outra dimensão. Eli esteve à frente da programação do Technova, no Lov.e Club, onde trabalhou durante sete anos ao lado de DJ Mau Mau e acompanhou passagens por São Paulo de artistas como Laurent Garnier, Ricardo Villalobos, Richie Hawtin e Marco Carola. Para alguém que começava a se aproximar dos toca-discos e CDJs, estar naquele lugar também significava assistir semanalmente a diferentes maneiras de organizar repertório, controlar a intensidade de um set e interpretar as reações de uma pista.

Mau Mau ocupa um espaço importante nesse aprendizado. Eli já o definiu como seu grande professor e costuma citar entre as lições absorvidas naquele período a técnica, a leitura de pista, a construção de atmosferas e a disposição para fugir das escolhas evidentes. Paralelamente, sua coleção de discos ganhava novas direções: o primeiro vinil de techno veio das mãos de Chris Liberator, e referências ligadas a Detroit, Chicago, house, techno, electro, synthpop e disco passaram a conviver com aquilo que ela já carregava da adolescência. Em vez de fases muito bem delimitadas, seu repertório foi sendo formado por sobreposições.

A passagem para a cabine aconteceu aos poucos, primeiro nos afters, quando encontrava espaço para praticar depois que outros DJs já haviam encerrado seus sets, até receber o convite para tocar profissionalmente no Absinto, em 2001, em uma festa organizada pelo Pet Duo. A técnica veio com o tempo; a sensibilidade da leitura de pista veio com tudo aquilo que já havia fomentado antes dela.

É a partir dessa formação que surge a pergunta deste episódio do Diggin Essence: o que define a essência de Eli Iwasa como DJ?

Do warm up ao closing set

Tocar cedo ou assumir a cabine no auge da pista são exercícios muito diferentes, e Eli Iwasa construiu repertório suficiente para se sentir confortável nos dois extremos — seus long sets por aí são a prova disso. Ao longo da carreira, fez warm ups para nomes como Laurent Garnier e Sven Väth, Tale of Us e Recondite, mas também recebeu a responsabilidade de fechar pistas importantes: em 2024, assumiu o closing do Green Stage do Brunch Electronik Barcelona e, no ano seguinte, encerrou o Pedreira Stage do Warung Day Festival depois de DJ Tennis e Nina Kraviz. São posições que pedem decisões quase opostas e ajudam a dimensionar sua bagagem musical. Eli conhece música o bastante para encontrar caminhos conforme o horário, o público, o espaço e aquilo que já aconteceu em cada festa. Essa bagagem se reflete na capacidade de saber qual parte do repertório convocar em cada momento.

A residência no Warung

A relação de Eli com o Warung começou no Carnaval de 2015, e ganhou consistência apresentação após apresentação até que, em 2018, ela se tornou oficialmente residente do club. A recorrência criou algo que uma passagem esporádica dificilmente oferece: intimidade com uma pista exigente, conhecimento do espaço e a possibilidade de ocupá-lo em situações muito diferentes. Depois de mais de uma década frequentando aquela cabine, o Warung se tornou uma boa escola e um retrato de como a familiaridade pode aprofundar, em vez de acomodar, a relação de um DJ com a pista.

Paciência para colher bons frutos

Um dos pontos de inflexão de sua carreira veio em 2017, quando recebeu no DGTL São Paulo um horário de destaque antes de Patrice Bäumel. Ela recorda aquele set como um momento em que as escolhas foram se encaixando enquanto a pista enchia e, a partir dali, novas oportunidades começaram a chegar. Na mesma época vieram eventos como Dekmantel e uma presença cada vez maior em grandes programações. Eli costuma dizer que decolou depois dos 40, uma particularidade que muda a leitura desse crescimento: quando o reconhecimento alcançou outra proporção, ela já tinha anos de curadoria e diferentes horários de cabine nas costas. Seu percurso lembra que maturidade e visibilidade nem sempre chegam juntas e que a espera pode significar abraçar o momento certo sabendo muito melhor o que fazer com as oportunidades.

Uma atuação 360º na música eletrônica

Eli foi promoter no Technova, tornou-se sócia de clubs como Club 88, Caos e Gate 22, participou diretamente de curadorias, criou projetos, produziu música, cantou no Bleeping Sauce e, mais recentemente, abriu a Heels of Love. Cada função colocou diante dela uma parte diferente do funcionamento da música eletrônica, ampliando também a perspectiva que leva para a cabine.

A curiosidade como força motriz

Eli poderia se apoiar confortavelmente nas referências que ajudaram a formá-la, mas o movimento é outro. Ela fala abertamente sobre o perigo de artistas de sua geração se fecharem para aquilo que surge depois deles e associa seu progresso à vontade de saber o que está acontecendo agora. Com o passar do tempo, a curiosidade não aparece apenas como vontade de descobrir música nova, mas como uma maneira de impedir que aquilo que ela já sabe limite aquilo que ainda pode encontrar. 

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