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Editorial | É possível um artista crescer sem as redes sociais?

Nos últimos tempos, especialmente durante a pandemia, meu pescoço ficou tempo demais inclinado para baixo, enquanto a luz da tela do celular cegava meus olhos, por vezes me deixando com dores de cabeça insuportáveis. Tela, tela e mais tela. Quem mais se sentiu assim?

Vivo um paradoxo com as redes sociais: apegada porém com bode. O desejo de fazer uma conta no TikTok passa longe, com todas aquelas dancinhas e trocas de roupa que sustentam o entretenimento rápido, pouco informativo e conjuntural. Mas, confesso, grande parte do meu mundo permeia o Instagram, Youtube e LinkedIn, plataformas que tanto servem para acariciar o ego próprio quanto para se informar sobre o mundo, expandir a criatividade e fazer networking e amigos.

E, assim como eu, muitos jovens nascidos entre o final dos anos 90 e começo de 2000 se sentem dessa forma. Mesmo que saturados com as mídias, somos dependentes das suas garras silenciosas que nos impedem de clicar no “Apagar conta”. A vontade de viver cada vez mais o mundo real é imensa, mas o apego subconsciente às notificações do mundo virtual é considerável.

Pouco tempo atrás, um amigo da minha idade, DJ e produtor de Minimal, decidiu apagar as contas e construir uma carreira na música sem o apoio das redes. ‘Foi pela minha saúde mental’, disse. ‘Mas e o networking, a facilidade de obter informações, contatos e exposição das suas músicas e conquistas, via redes sociais?’, perguntei. E ele respondeu, da maneira mais genial e sucinta possível, ‘cada escolha é uma renúncia, mas acharei outro jeito de fazer acontecer’. Por enquanto, não posso usar meu amigo como um case de sucesso pois a conversa foi recente demais para demonstrar aqui resultados significativos. Para mim, o importante foram as noites de insônia nas quais me questionava: atualmente, seria possível um artista bombar sem as redes sociais?

Grandes DJs e produtores da velha guarda – não tão velha assim – fizeram suas carreiras crescerem em um contexto onde Instagram, Facebook e Youtube eram nomes sem sentido. Já o significado de ‘redes sociais’ não agregava as mídias digitais, que na época nem existiam. A rede se expandia pelo mundo físico, no encontro das festas, pelas lojas de discos e nas conversas face a face com o outro. Entretanto, hoje em dia já não é bem assim. Tanto os artistas da velha guarda quanto os contemporâneos estão majoritariamente presentes nos aplicativos. São poucas as exceções que sobrevivem a carreira artística se ausentando dos likes, shares e comentários – e deles, grande parte pertence ao meio underground.

Percebo os artistas do meio underground muito mais desapegados com as redes, postando bem menos que os mainstreams e se ausentando dos call to actions cansativos e das promoções clichês (tipo: marca um amigo e concorra à promoção X). Talvez, pelo meu entendimento, o mainstream esteja intrinsecamente ligado ao máximo de exposição possível, buscando alcançar todo público-alvo viável. Já o underground – como o próprio nome já diz – alcança um público que decidiu por vontade própria ou por indicação de amigos ir atrás de novos nomes e músicas abaixo da ponta do iceberg. Porém, até isso tem mudado. A cada ano, os undergrounds estão se utilizando mais e mais de estratégias mainstreams para ganhar público. Isso acaba refletindo a importância das redes sociais e do marketing digital na vida do artista, ou seja, tanto um quanto o outro se apegaram às mídias digitais.

Ao mesmo tempo, a saturação da vida online fez com que alguns gatos pingados, como o meu amigo, decidissem corajosamente construir uma carreira fora da exposição instagrammer. Se isso é uma tendência, eu duvido muito, mas nunca se sabe. Talvez, a construção de uma carreira artística baseada tão fortemente nas redes sociais seja cansativa demais ao longo prazo e não se sustente pelos seguintes motivos: já vemos muitos casos de DJs e produtores com burnout por causa da obrigatoriedade em produzir conteúdo para sustentar a legião de fãs online, também vemos muitos gigantes das redes que sequer sabem mixar na CDJ ou produzem a própria música e, por fim, pela constante incerteza de que a rede social X ou Y vai durar para sempre. Me pergunto: e se o Instagram, TikTok, Twitch, Facebook, entre outras, acabassem do nada? E aí?

Estamos construindo uma indústria musical onde os resultados do Instagram e TikTok valem muito mais que a música. Onde quanto maior o número de seguidores, mais sucesso e, portanto, lugar definido como headliner do evento. Faz sentido, não posso negar. Quanto maior o alcance do artista, mais tickets ele irá vender. Mas não consigo me conformar 100% com esse caminho, e sinto que as festas independentes nunca foram tão importantes para provar o contrário, colocando headliners que não necessariamente são sucessos nas redes sociais e dando ‘o cara a tapa’ num público que se interessa tão fortemente em números – em vez de música.

Talvez esteja sendo ingênua em pensar na possibilidade de uma carreira artística sem as redes. O mundo todo me prova o contrário. Paralelamente a isso, um sentimento de esperança me toma ao observar um movimento em que artistas são puramente artistas, não influencers.

A verdade, queridos leitores, é que ainda não tenho uma resposta para a minha própria pergunta. Só desejo botar para fora pensamentos provocativos engasgados na garganta. Quem sabe influenciarei vocês a pensarem nesse tema, gerando uma troca de ideias e opiniões extremamente construtivas, quem sabe.

A música conecta.