Do House ao Techno: a viagem entre estilos da Innervisions na posição de headliner

Eu já chorei na pista de dança ouvindo Epikur, de David August. Comecei um editorial dessa importância com uma informação completamente irrelevante, convenhamos. Você não precisava saber disso. Mas foi a primeira imagem que me veio à mente quando a difícil missão de escrever sobre um dos selos mais imponentes, inovadores, consistentes, respeitados e requisitados da história da música eletrônica caiu no meu colo. Vai ser confuso, complexo e espero me fazer entender.

+++ Iconic | David August – Epikur [Innervisions]

Como explicar, contextualizar e categorizar sonoramente Innervisions é algo que ainda estou pensando enquanto digito estas palavras porque, ao mesmo tempo em que teria muito a escrever, sei que nem precisaria tanto. Bastaria colocar em tópicos factuais a discografia, os artistas que assinam os lançamentos, a loja de discos, a própria distribuidora de vinil, a agência de bookings de DJs, a festa surreal, a referência em moda e comportamento, a influência do que se escuta nas pistas de dança em todo mundo e, acho que acima de tudo, seus fundadores, administradores e curadores, Steffen Berkhahn, Kristian Rädle e Frank Wiedmann, ou melhor, Dixon e Âme.

O foco aqui é um passeio pela miscelânea musical e ao mesmo tempo consistência sonora do selo, então vou começar logo de cara contando que o segundo lançamento da história da gravadora se tornou um hit e, por que não hoje em dia, um clássico. A faixa Rej da dupla Âme (que aliás se pronuncia ‘arm’, não ‘â-me ou ahh-mé) arrombou as portas dos cases dos artistas com os dois pés e dominou as pistas de dança de House, Techno, Minimal, dentre outras vertentes, mostrando, desde seus primeiros passos, que ali era um espaço para criações livres, diferentes, audaciosas e onipresentes, digamos.

O release saiu em 2005, ano em que o Innervisions foi fundado. Para quem conhece um pouco de Jazz e Soul e lembrou do álbum de Stevie Wonder, de 1973, é isso mesmo. A referência é assumida. Dixon diz em uma entrevista que “só mais tarde percebemos que ele (o nome do selo) também descreve nosso estado de espírito. Que você sente coisas por dentro que não pode explicar a princípio” e, dando um longo passeio pelo trabalho sonoro desenvolvido pela gravadora ao longo dos seus 15 anos, ele tem razão.

É exatamente o que diz o título desse editorial. O label vai do House ao Techno de forma abrangente, mas, ao mesmo tempo, característica. Flerta com diversos estilos em uma só faixa de forma harmoniosa e única, de maneira que, ao mesmo tempo que inova em termos de criação, consegue manter uma personalidade sonora a ponto de ser reconhecida como “som Innervisions”. Acontece que a própria crew afirma categoricamente que “não há um som Innervisions”. Sabe o que é pior? Eles estão certos, mas ao mesmo tempo não estão.

Acho que tudo começa com o termo melódico. Se tem uma característica base para o som que você encontra no selo é essa. As produções são carregadas de sentimentos e melodias profundas. Pode-se dizer que o Innervisions tem uma parcela de responsabilidade pelo Techno Melódico que se escuta hoje em dia, já que essas atmosferas sonoras não encabeçavam os highlights de vertentes musicais até então.

A partir dessa base melódica, que muitas vezes é bem arpejada, as faixas se conectaram com os mais diversos caminhos sonoros da música eletrônica. As percussões marcantes que flertam entre o Tech House e o Afro House são exemplo disso. Se o termo Tech House não te agradou, saiba que ele vem diretamente dos fundadores do selo, então quem sou eu para dizer alguma coisa? Um grande exemplo do que estou falando é a faixa Too Much Information, do Dele Sosimi Afrobeat Orchestra, remix de Lalou, combo maravilhoso de melodia + percussão e que também foi um grande hit nas pistas.

Techno? Temos. Elementos robóticos e futuristas? Temos. Breakbeats? Temos. Electro? Temos também. Deep House? Aparece. Progressive também mandou um olá. Referências que vão da música clássica ao Trip Hop ao Reggae… é quase impossível colocar em uma caixinha, mas é facilmente reconhecido como Innervisions e inegavelmente bem produzido. Não por menos a palavra hit colocada ali em cima acompanha a gravadora desde seus primórdios (lembra de Rej, né?).

As faixas se encaixam nas mais diferentes pistas de dança dos mais diferentes estilos, além de muitas delas serem atemporais e assinadas por gigantes: de Laurent Garnier a Marc Houle, de Agoria a Recondite, de Ian Pooley a Andre Lodemann, a Daniel Bortz… a lista é extensa. Fora os nomes que eles impulsionaram de forma expressiva através do VA Secret Weapons e lançamentos individuais como Toto Chiavetta, Denis Horvat, Trikk, Aera, Frankey & Sandrino, entre muitos outros, além dos label owners que são um show à parte.

Em uma caminhada pela linha do tempo musical do label, cada vez mais ele foi se aproximando de um som característico “Innervisions”, mas sem jamais perder a diversidade, colocando em evidência seu caráter experimental, sua inquietude e ânsia pelo desbravamento de novos territórios. A mesma caminhada acontece apenas ao acompanhar os três curadores do selo, pois eles também já confessaram que para saber o que está rolando em termos sonoros na gravadora, basta ouvir o que eles estão tocando nas pistas.

Junta-se tudo isso, mais o crescimento estrondoso da marca através de todas as frentes em que ela atua de forma brilhante, como o Muting The Noise – primeiro selo de auto distribuição e vendas de discos que também se transformou em uma loja -, a agência de DJs Temporary Secretary, a festa Lost in a Moment, que coloca o público em uma experiência única locações fantásticas, o projeto Transmoderna, que une música e artes visuais e outros projetos que confirmam o caráter vanguardista do label, fazendo-se impossível não colocá-lo nos maiores patamares com os maiores holofotes do cenário eletrônico mundial.

Eu já chorei na pista de dança ouvindo Epikur, do David August. Eu lembro o ano, o dia, a pista, o DJ, o momento exato em que isso aconteceu. Mas não foi apenas essa faixa do Innervisions que me marcou. O selo me – e te – acompanha há anos e já arrancou suspiros, trouxe sentimentos nostálgicos, fez dançar e, com sua curadoria minuciosa, apresenta novos e talentosos artistas, inova o cenário da música eletrônica e segue sua ideologia sonora um pouco complexa na hora de explicar, mas tão boa de se ouvir.

A música conecta.