Memórias | Curitiba: os primeiros flashes do Dancefloor

Viver, lembrar e reviver. Mergulhar na história é recordar nossas raízes e entender a grandiosidade de uma geração. Nesta série especial, viajaremos através do tempo e traremos de volta lembranças de uma época inesquecível para a cultura clubber de Curitiba. Hoje a capital paranaense se consolida como um dos principais centros da música eletrônica nacional, e esse cenário muito se deve ao legado deixado por espaços e agentes que revolucionaram a cultura clubber local. Através de experiências, relatos e lembranças recolhidas das memórias de três figuras-chave da história da cena curitibana – Raul Aguilera, Igor Mattar e Soundman Pako – contaremos um pouco de como tudo começou.

A cultura Queer como berço da cena

Muito brilho, muitas cores, montação, desfile de drags, e a remanescência da Disco Music. Tudo começava ali, no início da década de 80 em plena avenida Sete de Setembro, no centro de Curitiba. O Clube Época dava início aos seus trabalhos, mais especificamente em 1981, abrindo as portas para um movimento diferenciado, quebrando os paradigmas dos moldes de festas até então conhecidos. Lá a cultura LGBTQI+ encontrava refúgio para suas celebrações e manifestos que ainda obtinham certo repúdio da sociedade normativa.

Entre as atrações performáticas apresentadas pela cultura Drag que se fortalecia naquele momento, a figura do Dj também ganhava seu estrelato e iniciava os ouvidos das pistas às atmosferas da Dance Music, trazendo materiais musicais oriundos das pistas internacionais, combinando um pouco da sonoridade Industrial com algumas pitadas do que viria a ser conhecido como Acid House. O Época foi a inspiração inicial para o desenvolvimento da cultura clubber curitibana, influenciando as inúmeras casas noturnas emblemáticas que viriam a seguir. 

Uma das figuras mais célebres do movimento cultural na época, sobretudo proveniente da cena queer eletrônica, é Raul Aguilera. Nascido em Assunção, no Paraguai, e radicado no Brasil, Aguilera foi um dos DJs mais carismáticos da noite curitibana, além de figura presente em diversas pistas da cidade e um exímio colecionador de fotos – com grande acervo disponibilizado através de seu projeto _Lovetempo, no Instagram. Para Raul, as casas noturnas queers foram os berços de toda explosão cultural da cena eletrônica da cidade, fosse através das influências do Época ou através de suas descendentes, como It Club, Insanus e Queen – local onde foi residente ao lado de Hill Mafra. Seguindo influências sonoras advindas das grandes capitais europeias e americanas, o cenário queer eletrônico curitibano se acostumava aos poucos com o novo conceito musical. “O som que rolava no começo dos anos 90 era bem influenciado pelo que estava acontecendo na Europa, em especial o Techno e Trance. O House americano veio com força através das festas do Rio de Janeiro, e em São Paulo o pessoal gostava mais do House underground europeu. Então os DJs de SP e do Rio influenciaram bastante os artistas daqui de Curitiba, já que não havia muita segmentação de estilos. O país inteiro compartilhava da mesma onda”, comenta Raul. 

O acesso à pesquisa musical naquela época não compartilhava da facilidade que temos nos dias de hoje. Grande parte do acervo e das novidades musicais se encontravam em lojas de discos de São Paulo, como Disco Mania e Rhythm Records na galeria Ouro Fino, bem como na Doctor Disco, em Curitiba, onde havia uma grande disputa entre os seletores pelas poucas cópias que chegavam até à loja. 

Créditos: Raul Aguilera

Legends

Em paralelo à cultura LGBTQI+ que fomentava o manifesto clubber até então, no centro da boemia curitibana, especificamente na rua Doutor Muricy, nasceria um marco que revolucionou o movimento da cultura eletrônica que engatinhava na cidade. Lendária como o próprio nome diz, a Legends é considerada a pioneira no que tange à democratização da música eletrônica de Curitiba, e berço da House Music na cidade. O som que era até então algo mais restrito à comunidade queer, passava a ganhar força entre os demais jovens da cidade, formatando um novo lifestyle que quase se assemelhava à uma religião.

A Legends foi idealizada por Igor Mattar em 1993, quando ele retornava de Londres para o Brasil para uma empreitada audaciosa. Carregado de inspirações proveniente das casas noturnas britânicas, como Ministry of Sound, Igor transplantou as principais ideias das noites europeias para a ainda provinciana cidade curitibana. “O ajuste da sonoridade ultra moderna misturada com o as referências até então conhecidas do Pop colaborou para a modificação do costume sonoro do público. Isso fez com que o negócio decolasse, colocamos suavemente na cabeça das pessoas o que queríamos que elas desejassem” salientou Igor.  Dessa forma, o Legends se tornaria uma das maiores referências em música eletrônica do sul do país, colocando Curitiba dentro do circuito eletrônico em que estavam São Paulo e Rio de Janeiro. 

A casa noturna contava com um soundsystem poderoso pra época, o que chamava a atenção tanto do público como dos artistas convidados que se apresentavam no local. Com residência do próprio Igor Mattar, além de Dudu Schwab, Edson Nunes e Buga, a Legends recebeu importantes nome da cena eletrônica internacional sobretudo artistas do catálogo da Wall of Sound, como John Carter e Jacques Lu Cont. Para Igor, o maior legado do Legends foi a intensidade de sua história: “não julgamos uma vida pelo tempo, mas pela intensidade de sua existência. Apesar de apenas sete anos de existência, o Legends marcou a história não somente da cena eletrônica, mas a vida de quem frequentou, fazendo do comportamento clubber uma verdadeira religião”.

Cabine Legends; Créditos: Igor Mattar

Circus 

Ainda no centro histórico de Curitiba, a poucos passos do Legends, se situava o Circus Bar,  recanto do underground eletrônico localizado na emblemática rua São Francisco. Um bar com uma escada de madeira, paredes grafitadas e um alçapão aos fundos com pé direito alto onde tudo acontecia. Quando iniciou seus trabalhos em 1990, o Circus celebrava as influências do Hip Hop e da cultura street, porém. ao longo de sua jornada. as atmosferas do Techno invadiriam sua pista de dança. 

Os decks do Circus eram comandados por uma das peças fundamentais do cenário curitibano, quiçá nacional: Soundman Pako. Grande frequentador do Época e já imerso nas experiências das noites eletrônicas, Pako começou sua carreira em 1985 tocando em campeonatos de skate e foi anfitrião de uma festa que durou três meses chamada Ponto G. “O ano era 89, eu e o Cigano passamos num restaurante que os pais dele tinham na época ali perto da Saldanha Marinho. Eu só sei que na saída ele chegou pra mim e falou ‘olha esse porão aqui’. A hora que eu olhei eu disse pra ele ‘vamos fazer uma festa’ e como ele não bate bem da cabeça topou na hora. (…) Dentre os frequentadores do Ponto G, estava o Sandro, que abriria o Circus um tempo depois. Um belo dia, já em 1990, eu resolvi fazer

uma festa em maio que era o meu aniversário. Falei com o Sandro e ele me cedeu o Circus. Naquela época o local era frequentado pela galera das bikes (harleyiros). O bar não tinha estrutura nenhuma para uma festa então comecei a agilizar o som e o strobo [risos], peguei meu toca-disco Garrard da Gradiente, um cd player, um tape-deck e comecei a convidar a

galera. Arrastamos a mesa de sinuca, que acabou virando palco para os mais exibicionistas [risos]. Para resumir, o que era pra ser um dia de festa acabou virando 10 anos da história do primeiro club realmente Undeground de CWB.”

Com sons que transitavam desde o Techno New Beat  do Front 242 ao New Wave Pop de Prince, e ao House de Inner City e Moby, as pista do Circus recebia uma grande diversidade de público além dos clubbers fiéis, como rockeiros, punks, rappers e skaters, tornando uma grande válvula para a popularização da música eletrônica na cidade.

Na foto: Pako, Raul Aguilera e o Dj da noite no Circus; Créditos: Raul Aguilera

Um legado eternizado

Além do Época, Queen, Legends e a Circus, muitos outros locais fizeram parte da memória clubber da cidade, como, Sistema X, Moustache, Syndicate e a emblemática Rave Club – empreendimento idealizado por Gustavo Conti e Riadi Omairi, tendo como residentes Edson Nunes, Dj Leozinho e Rodrigo Paciornik – que coroava o final da década de 90 em Curitiba, sendo um dos primeiros esboços para o que viria a ser o maior clube do país, o Warung Beach Club no litoral catarinense. Núcleos independentes também ganhavam força através da coletividade para organização de festas e eventos que marcariam a virada do milênio, como foi o caso da Big Fish, idealizado por Ilan Kriger e Rafael Araújo.  

O legado deixado por esses espaços e movimentos plurais influenciou a geração Y e Z formatando os moldes de pista, festa, núcleos e festivais que hoje conhecemos.

A música conecta.