Muito além da Peggy Gou

A foto da DJ sul-coreana Peggy Gou na capa do editorial de cultura do jornal britânico The Guardian vem acompanhada do título “How Peggy Gou became the world’s hippest DJ”. O jornal americano The New York Times também nos questiona “How Peggy Gou Is Kicking Her Electronic Music Career to the Next Level”.  A resposta para essas perguntas se desdobram em tantas questões que cercam uma das DJ’s mais aclamadas dos últimos anos, que talvez seja preciso primeiro entender o que anda acontecendo na cena musical da Coreia do Sul e como ela tem ganhado força no Ocidente. 

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Falar de música sul-coreana é falar sobre a cultura do K-pop que domina o país. Para se ter noção, existe um “departamento de K-pop” direcionado para cuidar das agências e grupos desse segmento no Ministério da Cultura. O estilo musical movimenta aproximadamente US$ 5 bilhões por ano para a economia. Existem faculdades no país para artistas que desejam seguir carreira em um dos gigantes grupos de K-Pop. Aliás, esses grupos competem semanalmente entre si em jogos que acontecem em todos os canais de TV do país e são assistidos por absolutamente todos os tipos de pessoas. Essa indústria fez com que hoje a Coreia do Sul ocupasse o 6º lugar entre os maiores mercados musicais do mundo, ficando atrás apenas de alguns países europeus e americanos.

Toda essa cultura do K-Pop faz uma ligação direta com os DJ’s do país, seja através da base eletrônica nas produções musicais, a mistura do sul-coreano com o inglês nas letras, ou até mesmo fortalecendo a cultura do país através dos videoclipes, materiais gráficos sempre coloridos e cheios de signos locais divertidos. E, claro, a gestão quase perfeita das interações com o público pelas redes sociais. 

Um fato curioso marcou esses dois mundos – eletrônico e K-Pop – em abril. Foi a transmissão do Boiler Room Live From Isolation da Peggy Gou, na Namsan Seoul Tower. Para muitas pessoas do Ocidente a transmissão foi mais uma em um local com vista bonita. Mas, para os sul-coreanos, a apresentação da DJ nessa torre foi um evento com alguns significados. A N Seoul Tower é basicamente o “Cristo Redentor” de Seoul. Diversas bandas e grupos de K-Pop investem valores altos para gravar seus videoclipes nesse local pelo retorno que ele oferece. Os grupos que conseguem esse feito alcançam mais visualizações nos seus trabalhos e aumentam suas chances de fechar contrato com alguma gravadora. Foi a primeira vez que um DJ conseguiu tocar nesse espaço tão disputado entre os artistas coreanos. Definitivamente, essa apresentação influenciou outros DJ’s do país a exergarem outras possibilidades de projeção através da música eletrônica, ocupando espaços que são dominados pelo mainstream pop do país.

A influência do K-Pop é tão forte que a própria Peggy Gou brinca ao classificar o seu estilo musical como K-House, uma sigla que vem servindo para classificar DJ’s como o duo C’est Qui, Park Hye-jin, Yaeji, Antwork, KOREA TOWN ACID, CO.KR etc. Mas a música eletrônica sul-coreana também flerta diretamente com muito Indie-Pop, como é o caso do Xin Seha, So!YoON!, CIFIKA, UJU e ASEUL

É impossível falar sobre esse assunto e não relembrar da cerimônia do Oscar que aconteceu em fevereiro deste ano. Quem assistiu à premiação viu o filme Parasita, do diretor sul-coreano Bong Joon-Ho, fazer história e levar para casa o prêmio de Melhor Filme, o que é raro para um longa estrangeiro.  Ao ganhar o mesmo prêmio no Globo de Ouro o diretor deixou uma mensagem muito importante em seu discurso: “quando vocês superarem a minúscula barreira das legendas, vocês serão apresentados a muitos outros filmes incríveis.”

Talvez o sucesso dos artistas sul-coreanos no Ocidente seja fruto de uma barreira que está sendo derrubada também na música, através do flerte com um gênero Pop e idioma completamente diferente do que consumimos convencionalmente. Tudo isso instiga o público a apreciar uma sonoridade “fora da caixa”, principalmente quando se trata do segmento eletrônico.

A música conecta.