Carta da Redação: Que ano, hein 2020?

Chega logo, 2020!! Você lembra o quanto essa frase ecoou pelas bocas, postagens nas redes sociais e memes compartilhados? Eu mesma fui uma dessas pessoas. O ano de 2019 foi considerado difícil por muitas perdas, catástrofes naturais (e outras nem um pouco naturais), o primeiro ano de um governo controverso e assim por diante. Mas a expectativa para 2020 era grande e sentia-se uma atmosfera de confiança, uma sensação de que estava para chegar um novo e próspero ciclo para todos.

2020 vai ser meu ano

Esta foi a frase que veio à minha mente no badalar da meia-noite da virada, erguendo minha taça de gin com amigos em mais uma festa de réveillon da Troop, em Florianópolis. O final de 2019 trouxe novos projetos, como o Alataj; outros antigos atingiram o melhor resultado possível em anos, ótimas experiências foram vividas e aquele feeling de que eu havia engatado a segunda marcha da vida e dali pra frente nada me impediria, N A D A. 

WTF, 2020?!

Um novo e desconhecido vírus de rápida proliferação que estava assolando a China e atingindo, pouco a pouco, outros países da Europa e América do Norte já era notícia em 2019, mas a ideia de que ele chegaria e dominaria nosso território era um tanto quanto distante num primeiro momento. Quando ele bateu à nossa porta foi caos total. Lockdown, brigas políticas, despreparo total de governantes, sistema de saúde em um estado dramático, mortes e mais mortes e a dolorosa aceitação de que a melhor forma de conter o coronavírus era evitar o que pouco valorizávamos na vida: contato humano.

No nosso mundo bateu o desespero e a incógnita, afinal, música eletrônica sobrevive muito da pista de dança – cheia! – e em poucos dias tudo estava cancelado, fechado. Alguns adiaram eventos confiando em um retorno nos meses seguintes. Não julgo, entendo. Mas mal sabiam que era o início de um momento jamais vivido em toda a história da Dance Music.

Tamo on, 2020 (ou nem tanto…)

E aí entrou o isolamento, home office, vieram as lives de tudo quanto é tipo, as festas virtuais e o mundo viveu através da internet. Artistas do mundo todo abriram suas casas para disseminar música em ações para fortalecer o mercado do entretenimento ou apenas para manter o contato com o público, e profissionais de todas as frentes encontraram soluções criativas e inteligentes para evitar maiores desastres financeiros e garantir o futuro da indústria pós-pandemia.

Junto com tudo isso vieram dúvidas, frustrações, desespero, ansiedade, depressão… as palavras “pandemia”, “coronavírus” e “quarentena” se tornaram constantes nos diálogos e não raramente fizemos as famigeradas calls com amigos e familiares para tentar dar aquele suporte emocional. As notícias assustavam e muitas pessoas deixaram seus celulares de lado para recompor a saúde mental em meio ao turbilhão de acontecimentos.

Cancela 2020

Ainda que conscientemente privilegiada por estar fazendo parte do Alataj, o que me deixou mais segura e muito ocupada, houve um dia, em uma quarta-feira, que eu achei que abandonaria o barco e viveria os próximos meses sentada esperando a vida passar. O cansaço mental bateu forte e a descrença de uma luz no fim do túnel era grande demais para produtores de evento como. As lágrimas caíram como há muito tempo não acontecia. Cancela esse ano, por favor! Esses sentimentos rolaram muitas vezes ao longo dos meses e não apenas comigo.

Artistas vendendo equipamentos e discos, profissionais buscando se reinventar dentro das suas habilidades, festas clandestinas crescendo cada vez mais ao longo dos meses e o dinheiro entrando no bolso de egoístas e irresponsáveis. Para piorar, o que parecia uma baixa na proliferação do vírus seguiu para uma segunda onda de infecção ainda mais forte que a primeira, e ainda não há previsão de quando poderemos nos aglomerar de novo em uma pista de dança.

Aceita 2020

Você pode até pensar “Nossa Laura, que carta da redação mais desanimadora” ou “já sei de tudo isso que você escreveu até agora”. Não vou negar os fatos e sentimentos, seria tão absurdo quanto achar que a vacina contra o coronavírus pode te transformar em um jacaré. Nada mais justo, nos últimos dias do ano, eu te levar para uma pequena viagem por este período, afinal, imagino que muitos se identificaram com esses relatos. A questão é que, nos últimos tempos, entrei em um processo de aceitação real (não aquela que a gente conta para os amigos e posta nos stories) da situação como um todo, mês após mês, reavaliando 2020 profundamente. No fim, eu amadureci alguns anos em apenas nove meses. É na dificuldade que a gente encontra forças, não?

Caí e levantei algumas vezes, acreditei que não fosse mais capaz e fui, tomei coragem para falar e me posicionar, fiz aquela maravilhosa peneira de amigues, valorizei muito mais a família, entendi e aceitei mais do que nunca que não tenho controle sobre muitas coisas e que sofrer por isso afeta somente a mim e a minha saúde mental, entre outras maravilhas internas. Aí me peguei pensando que todo mundo (mesmo!) sai desse ano com algum aprendizado valioso de todos esses desafios que arrombaram nossa porta e que, acima de tudo, nossos avós nunca estiveram tão certos ao dizer que “o que importa mesmo é ter saúde”.

Então entendi que, por mais que as coisas ainda não estejam 100%, quando essa pandemia perder forças – e futuramente for extinguida – e conseguirmos reerguer nossas vidas por completo, por certo estaremos orgulhosos de nós pelo simples fato de termos aguentado as pontas. Também valorizaremos cada vez mais as coisas simples da vida e tudo o que nos manteve “sóbrios” nestes tempos sombrios, e aí vem a cereja do bolo dessa minha conversa por aqui.

Bendita seja a música, 2020

Ela viria, é claro que ela viria! Sem sombra de dúvidas foi o meu melhor e mais poderoso remédio neste ano. Não só meu, como de muita gente ao redor do globo todinho. Ela abraçou nos momentos de sofrimento e animou nas horas necessárias, espantou aquele feeling de cansaço, embalou os momentos fitness e aquele final de semana onde a pista de dança foi a sala de estar. A música trouxe conforto e, principalmente para os artistas e profissionais que com ela trabalham, foi a força motriz para não desistirmos dos nossos sonhos.

A ausência de clubs, festivais e festas em geral pode ter desanimado muita gente, mas a música manteve todo mundo em pé para movimentar o cenário. No caso do eletrônico, o ano foi expressivo em termos de lançamentos. Músicos se internaram em seus estúdios e dali saíram maravilhas! Aliás, lendas vivas da música que não davam as caras há muito tempo apareceram com novos trabalhos, como o mais recente EP do Richie Hawtin, que não lançava criações para a pista de dança através do seu nome desde 1991! 

As festas online e lives, por mais que tenham diminuído consideravelmente com o passar do tempo, deixaram o público firme e forte em suas casas, ajudando – e muito – os que mais precisavam e possibilitando artistas a mostrar lados musicais alternativos. Destaque para as lives do Carl Cox que  foram excelentes! Além do mais, esses streamings se transformaram em um ótimo mecanismo de suporte a novos talentos e o momento foi de muita conexão e intercâmbio entre novos e experientes nomes, afinal, está todo mundo em casa e na internet.

Enfim, a música foi apenas ela mesma, essa expressão artística tão rica e valiosa, mas mais do que nunca é valorizada da forma que merece.

E o Alataj, 2020?

Se tem algum projeto movido pela música e para ela é o Alataj. E esse mudou em 2020, hein? Mudou de cidade, mudou de escritório, mudou de cara, de equipe, de conteúdo… o ano foi determinante para nós e veio acompanhado de desafios, mas também uma revolução total ao longo dos meses. Iniciamos uma bela jornada em um escritório irado, com um laboratório musical mais irado ainda, onde reunimos uma nova equipe apaixonada por música e que refletiu demais na nossa nova e bem mais robusta grade de conteúdo – quem nos acompanha com frequência percebeu isso. 

Tentamos ao máximo nos conectar cada vez mais com artistas e o público através do site, das nossas redes, dos laboratórios com mixes de artistas convidados e do programa ao vivo Radar, ambos no YouTube. Realizamos nosso primeiro Web Conference, que reuniu profissionais nacionais e internacionais para discutir temas importantes do nosso mercado. Criamos o #Juntos nesta pandemia, boletim semanal que apresentou e divulgou dezenas de artistas, projetos, lançamentos, eventos online, tecnologias e muito mais de forma simples e objetiva. Trouxemos mais espaços para os lançamentos musicais e hoje você recebe semanalmente os maiores destaques de releases em nível global.

Alguns erros, muitos acertos e um emaranhado de ideias tamanho que não deu pra colocar tudo neste ano e aí é que vem o…

E daqui pra frente, 2020?

Quanto ao Alataj, volta com tudo daqui duas semanas e a ansiedade já bate para te contar as novidades – porque já temos algumas – mas fui proibida de dar muitos spoilers. O que posso te dizer é que vem por aí uma série de entrevistas com lendas da música e uma forma bem gostosa, e por que não, diferente e saudosista, de nos ler. Uma coisa é certa: seguiremos buscando a melhor maneira de te manter informado sobre o mundo da música eletrônica, disso não tenha dúvidas.

Já eu, só posso agradecer por um ano de incontáveis aprendizados. Não apenas os que mencionei lá em cima, mas também os que nortearam minha rotina por aqui. Todo dia foi dia para aprender algo novo e saio de 2020 abastecida de conhecimento, com a certeza de que continuo ainda tenho um oceano para mergulhar dentro da música. Foi ótimo ter você com a gente, de verdade. Esperamos que, de alguma forma, tenhamos contribuído para colocar cada vez mais música, alegria e inspiração na sua vida. 

Não começaremos o próximo ano da melhor forma, as incertezas ainda são muitas, mas certo é que estamos preparados para os próximos desafios. Sendo assim… Chega logo, 2021!

A música conecta.