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Editorial | Quem quer rir, tem que fazer rir

“Você entende que eu quero te ajudar… mas agora, você tem que me ajudar a te ajudar. Soldado Paulo, quem quer rir tem que fazer rir, pô!”. Já dizia o Sargento Rocha, personagem do icônico filme Tropa de Elite, sobre a importância de uma mão lavar a outra – no contexto do filme, a frase foi completamente injusta com o pobre coitado soldado Paulo, que só queria tirar férias depois de três anos trabalhando. Mas na vida real e no contexto desta coluna, ela se encaixa perfeitamente.

Como todos vocês já sabem, a indústria dos eventos (e consequentemente da música eletrônica) sentiu um grande impacto com a pandemia da Covid-19. Eventos foram cancelados, portas de clubs se fecharam, artistas ficaram sem gigs e agências de booking sem o que vender, promoters e produtores de eventos paralisados, estúdios de iluminação, cenografia e design de festas sem demanda para seus serviços e todo o pessoal de som, limpeza, segurança (entre outros) ficaram desempregados. Sendo tudo isso apenas alguns dos pilares essenciais para um evento acontecer.

Mas alguns indivíduos de mau caráter pouco foram afetados por esse infortúnio. Alguns promotores continuaram realizando eventos, artistas continuaram tocando em festas e, por sua vez, parte do público continuou participando da folia alimentando a roda da ilegalidade. Uma vida ‘normal’, em plena pandemia, com uma média diária de mortes e taxas de infecção continuamente altas devido a esse desgoverno genocida.

Creio que parte do público frequentador de festas não saiba disso, então acho importante salientar: um dos grandes desafios de fazer um evento é lidar com a burocracia e impostos que circulam no processo. Cada água, shot ou drink consumido, cada ingresso comprado, cada descarga dada tem seu preço. Infelizmente, o Brasil torna tudo mais caro – sendo que contratar um artista ou selo internacional para nosso país tropical é quase um pesadelo. Agora, você acha que festas clandestinas pagam esses impostos? É claro que não. No máximo pagam policiais para ficarem de boca fechada. Mas esses impostos são direcionados à educação, saúde, saneamento, segurança, sustentabilidade, cultura e lazer da nossa sociedade. Ou seja, além de matarem gente direta ou indiretamente, as festas clandestinas também se ausentam de qualquer responsabilidade perante o futuro do nosso país.

Outro dia, tive o desprazer de ouvir a seguinte frase: “eu sou do rolê né kkkk, não consigo ficar sem festa”, vindo de um fã de música eletrônica underground que não deixou de frequentar festas clandestinas durante toda a pandemia (inclusive nos meses de ápice de mortes). Naquela mesma semana, vindo de um produtor de eventos clandestinos, li o seguinte comentário em uma rede social: “Música eletrônica é sobre coletividade”. Ai, ai… a hipocrisia.

Ser ‘do rolê’ não é sobre curtir Techno comercial e pirar na pista com Amelie Lens, muito menos saber todos os hits da House Music dos anos 90 ou comparecer nas festas alternativas com line-ups pouco conhecidos pela maioria. Ser ‘do rolê’ é entender toda a cadeia de trabalho por trás da indústria e, principalmente, reconhecer as suas ações e responsabilidades como público. De nada adianta visitar o top 10 festivais europeus durante uma eurotrip e ir em festas clandestinas. Ser ‘do rolê’ é respeitar o processo gradual de retomada dos eventos e esperar, por mais ansiosamente que seja, a abertura das portas de forma segura a todos os envolvidos. Por mim, por você e por todos os outros.

Talvez, o que me deixe ainda mais irritada e frustrada, são essas mesmas pessoas pedindo para reservar um VIP para quando as festas voltarem. A alienação é tanta que o indivíduo não percebe a impossibilidade do mercado de fornecer VIP. Cada ingresso cortesia é um ganho a menos para bancar a infraestrutura e pagar os funcionários da festa em questão. Esses mesmos funcionários que estão há quase dois anos esperando por um salário, por uma oportunidade de trabalho e realização profissional. Pedir VIP, nessa altura do campeonato, é desrespeitar o mercado por completo. Cortesia é um luxo que não podemos bancar. O valor do seu ingresso é o que vai aquecer nosso mercado novamente. Você tem que me ajudar a te ajudar.

De fato, a música eletrônica e os eventos em geral são sobre coletividade. O problema é que as festas clandestinas e seus frequentadores se sentem a par dessa coletividade. A diversão do ‘eu’ se dá às custas do sofrimento do outro, e isso não é justo. Em uma sociedade que precisa urgentemente de ações sociais e coletivas em diversas esferas, a ação de um reflete na vida do todo – estamos interligados.

Queremos ver o público abraçar os amigos e dançar junto novamente. Queremos a cultura clubber viva, com festivais e festas jorrando energias positivas sobre todos nós. Queremos a música alta ressoando nos nossos ouvidos e fazer estranhos virarem amigos nos fronts. Mas quem quer rir, tem que fazer rir.

A música conecta.