Textão | Quem tem medo de ser cancelado?

No começo desse mês de julho, enquanto eu descia o meu eterno feed no Facebook, acabei chegando a uma postagem contendo um vídeo de uma festa de música eletrônica ilegal que aconteceu no interior de São Paulo, em um local chamado Sítio da Glória. A festa denominada Tudo no sigilo chamou a atenção pela quantidade de pessoas no evento – mais de 2 mil presencialmente – que estiveram descumprindo absolutamente todas as normas de cuidados recomendadas pela OMS diante da pandemia de Covid-19. 

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São diversos os questionamentos que fazemos quando assistimos aos vídeos do evento, desde a grande estrutura montada, os DJ’s que aceitaram tocar, o público que pagou para ir, ou até mesmo os produtores que julgaram oportuno fazer tal evento nesse momento. E se quisermos problematizar um pouco mais a fundo, também levantamos o questionamento sobre como uma festa dessa proporção aconteceu sem absolutamente nenhuma autoridade pública impedi-la. Obviamente que nós temos todas as respostas para as questões acima, mas a pergunta que quero fazer a vocês é: quantas pessoas ou marcas vocês já cancelaram? O que te leva a colocar um artista ou label na sua blocklist?

A “cultura do cancelamento” surge como um viés das militâncias online, que começou a ganhar cada dia mais relevância e gerando impactos positivos ou negativos para quem um dia já foi cancelado ou pretende se precaver de possíveis tropeços. Casos de assédio, LGBTQIfobia, machismo, xenofobia, racismo, posições políticas, falta de paridade de gênero nos line ups. Talvez esses sejam alguns assuntos que mais estão em voga quando se trata de “cancelamentos” de artistas e eventos na cena eletrônica.

Quem lembra do DJ Jackmaster, que em 2018 abusou de uma funcionária do festival Love Saves The Day, após exagerar na dose de GHB? O escocês viu sua carreira ir pelo ralo em poucos meses e foi literalmente cancelado por absolutamente todos os eventos que haviam o contratado naquele ano e em 2019 (inclusive a edição brasileira do DGTL). O DJ preferiu dar um tempo na carreira e pediu desculpas pessoalmente para as vítimas. Nenhuma ação judicial foi tomada contra Jackmaster, mas a carreira de um dos grandes nomes da House Music definitivamente nunca mais foi a mesma. 

Sempre me pergunto o porquê de as pessoas terem tanto medo do cancelamento, sendo que esse é um ato que fala mais sobre reflexões de melhorias, aprendizados, do que necessariamente apontar de uma forma vazia uma ação que, de fato, pode ser problemática e sujeita a um diálogo. Nas últimas semanas tenho percebido um crescente interesse da grande mídia por esse assunto e fiz questão de ler alguns artigos que saíram. Desde a Veja, BBC, El País e até uma entrevista da atriz Marina Ruy Barbosa com a chamada “Todo mundo erra, errou ou vai errar, somos humanos”. Por um lado, o interesse desses veículos me chama a atenção porque nos textos, em sua maioria, vejo uma tentativa de relativização de comportamentos que não podem ser normalizados. 

De fato, a atriz tem toda razão, nós somos humanos e realmente não sabemos de tudo. Mas é importante prestarmos atenção nos motivos pelos quais estamos sendo apontados como “errados” e que sejam analisados também as raízes que envolvem a falta do saber de cada indivíduo. É por uma questão social, de privilégio? É porque a minha festa ainda tem um line up majoritariamente masculino? É porque só coloco DJ’s mulheres para abrir? É por eu não ter uma equipe diversificada? É por eu estar produzindo, tocando ou indo em uma festa no meio de uma pandemia? 

Perceberam que nenhum “cancelamento” é tão em vão quanto se parece? Todas são questões que diversos grupos estão a todo momento tentando nos abrir os olhos sobre como o ser humano erra, mas como ele também educa. O Jackmaster, em entrevista a Vice, exigiu que o título da matéria fosse “It Was All My Fault”. Não sabemos até que ponto isso é estratégia de assessoria para limpeza de imagem, ou um arrependimento autêntico, ou porque pesou no bolso, ou todas as opções anteriores. Mas o cancelamento talvez faça com que ele repense muitos comportamentos que já não cabem mais nos dias de hoje para um artista – e nem deveria até mesmo antes.

Temos dois exemplos de artistas que agiram de formas opostas ao lidar com problemáticas envolvendo seus nomes. O primeiro caso aconteceu com a Nina Kraviz, que respondeu com “posso usar qualquer coisa que eu quiser” a seu seguidor no Instagram, que comentou que não era apropriado ela usar tranças nagô, símbolo de resistência de culturas afro. Já a americana Marea Stamper, antigamente conhecida como The Black Madonna, parou para ouvir todas as pessoas que se sentiam incomodadas com o seu antigo nome artístico e resolveu mudar toda a sua identidade para The Blessed Madonna. Qual das duas acima você daria um abraço pela atitude? 

A questão que sempre me vem à cabeça é: como separar o artista da arte? É possível? Eu sinceramente não tenho essa resposta, porque eu cheguei à conclusão que isso acaba sendo um papo subjetivo. Mas subjetividade jamais pode sobrepor assuntos que são muito mais sensíveis do que a arte, como é o caso do racismo, machismo, qualquer tipo de preconceito, assédio, ou falta de humanidade…que algumas pessoas sempre apertam na tecla quando querem justificar seus erros. 

Espero não ser cancelado por esse texto!

A música conecta.