Entrevistas
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Alataj entrevista Mahmundi

Desde 2012, a carioca Marcela Vale é Mahmundi, projeto que conquistou os corações do público e da crítica brasileira com um som essencialmente Pop, bebendo de fontes como o Synth Pop dos anos 80, Indie Rock e Indie Pop, Chillwave e MPB.

Mais recentemente, Mahmundi foi a voz principal da releitura de Black Coco — som de 1979, interpretado pela banda Painel de Controle, escrito e arranjado pelo lendário Lincoln Olivetti, e agora recriado pela sua filha, a DJ e produtora Mary Olivetti, com quem Marcela já nutria uma amizade de longa data.

Ainda manifestando de leve o que parecem ser efeitos colaterais da vacina contra COVID-19, Mahmundi esbanjou simpatia para falar conosco sobre sua participação na nova música, explicar sua discografia, trocar uma ideia sobre música eletrônica e sobre o “mundo novo” que ela espera depois que todo esse pesadelo pandêmico passar.

Alataj: Marcela, pelo seu depoimento ao release de imprensa, vimos que você ficou bastante emocionada em participar da releitura da Mary Olivetti pra Black Coco. Você já tinha alguma relação com a canção original, com a banda Painel de Controle ou com a obra do Lincoln Olivetti?

Mahmundi: Eu conheci o Lincoln pessoalmente, já era muito fã do trabalho dele por conta da Rita Lee, de amar essa ideia do luxo que ele trazia e apresentava nas canções, então eu já tava super ligada. Eu participei de um concurso pro Multishow em 2015, em que ele era um dos diretores/arranjadores do Prêmio Multishow, e ele fez o arranjo de uma música minha — a Mary até tem essa partitura —, então o Lincoln é uma pessoa que eu admirei a muito a vida inteira, tenho o máximo respeito. E o Painel de Controle também, tem certas músicas que você tem os grandes registros e que você pode confiar no resto da obra, então a minha relação com a canção original era muito só dessa vibe, dessa energia que ela traz, e isso é bem maneiro…

É curioso que você tenha sido constantemente rotulada como a voz do verão carioca, que é basicamente como boa parte do que o próprio Lincoln e outros da chamada Brazilian Boogie — Marcos Valle, Banda Black Rio, Azymuth, Cassiano… — podia ser classificada. O seu som, entretanto, parece beber de outras fontes, com outra pegada. Como você diria que ele se relaciona com essa turma carioca dos anos 80?

Eu acho que minha relação com os anos 80 é sobre os greatest hits, sobre música de  rádio, que tocava em todos os lugares… A ascensão dos sintetizadores, esse encontro de ideias plásticas, desse futurismo dos anos 80, todo mundo pirando, achando que teríamos carros voadores… 

Os desejos dessa época sempre me trouxeram muito isso, vivi muito ouvindo Phil Collins, e quando a gente se mistura com Marcos Valle, Black Rio e essa turma, a gente traz essa informação, porque as pessoas viveram isso e o mundo inteiro tava conectado nessa mesma sinergia — assim como hoje estamos para o Trap, para a música eletrônica… É muito louco como as coisas se tornam globais.

Como foi que rolou o convite pra participar da nova Black Coco? Você e a Mary já têm uma amizade há certo tempo, não é mesmo?

Eu fiquei muito feliz com o convite, apesar de estar numa correria muito grande, trabalhando muito, eu disse pra ela desde o começo que eu não deixaria a ideia passar. Fomos fazendo à distância, por calls, trocando ideias, e eu fico muito feliz, porque pra mim o grande trunfo dessa canção é a Mary produzindo, me convidando pra fazer parte disso, mas o processo dela é muito lindo de ver. Tem um refinamento e um jeito de se fazer música muito dessa turma de grandes artistas. Gosto de como ela valoriza os detalhes.

E como se deu o processo de produção, ainda mais nesse período pandêmico que exige distanciamento?

Foi tudo muito à distância, por Zoom, bate-papo mesmo, sempre muito conectadas com a ideia da música. Acho que quando você tá com pessoas verdadeiras no mesmo propósito, a coisa fica mais maneira.

Falando em pandemia, como tem sido esse quase um ano e meio do infame “novo normal” na sua vida? Te afetou bastante? Já foi vacinada? Crê em algum tipo de “mundo novo” depois que sairmos disso?

Sim, me afetou bastante. Não tem nada de “novo normal” nisso [risos], é a vida acontecendo — inclusive acho esse termo horroroso, porque ele vai limitando a gente de novo, vai engradeando, né? Acho que é o mundo no Planeta Terra mesmo, acontecem essas loucuras. Eu já me vacinei, tô nessa rebordose da vacina, um pouco “gripada”.

Sei lá, acho que o mundo novo acontece dentro da gente, isso é uma coisa que eu aprendi na vida: antes de projetar pra fora, projetar pra dentro, se cuidar, e assim refletir essa melhora no mundo. Que bom que a gente faz música e que ela dá esse lugar pra gente, de poder imaginar esse mundo e fazer ele com música, com pintura, com o que for.

Desde que você surgiu como Mahmundi, a música eletrônica sempre teve forte papel na sua obra — da influência de nomes como Toro y Moi e Metronomy a Grimes, James Blake e Bjork. Isso até seu álbum mais recente, Mundo Novo, em que você se despiu dos sintetizadores. O que te levou a essa decisão? Seus próximos discos devem seguir nessa pegada?

Ele é um disco que, pra mim, ele tem uma cara, um som de madeira. Ele foi feito com bateria, com banda, gravado ao vivo, tudo em 12 horas, em takes diretos, então também foi  um gozo saber que posso fazer coisas de outra forma — eu tava precisando disso. 

É legal às vezes, porque vamos criando o universo e vai cristalizando. Eu fico muito preocupada com a ideia de criar covers de mim mesma, repetir o que eu já fiz… E como eu não devo nada pra ninguém, trabalhei muito pra estar aqui, não tenho pai rico, faço o que gosto, confio, então também me sinto na liberdade de fazer tudo o que eu quiser.

Tenho uma gravadora que me apoia, um time que me respeita, então isso vai me dando mais alegria de poder experimentar. Faço isso há dez anos e cada vez mais animada pelos próximos rabiscos e processos.

E como é sua relação com a música eletrônica de pista? Já li que você curte artistas como Four Tet, Jamie xx, James Murphy e Actress, que costumam ser mais experimentais. E quanto a House, Techno, Dubstep, Global Bass e afins? Tem nomes que te empolgam?

Cara, eu gosto de tudo, tudo, tudo, tudo — não saberia nem dizer, porque eu ouço tanta coisa louca… Eu lembro de ouvir muito Pional, Jai Paul por um tempo… Tem umas loucuras, umas músicas israelenses, música japonesa eletrônica antiga — gosto muito de coisas antigas… Então acho que todos esses nomes que você falou também estão buscando dessas fontes, estamos sempre nessa antropofagia, nessa loucura. 

E agora, quando eu voltar — até falei isso com Mary —, eu quero viver um pouco dessa coisa da Disco Music, e eu acho que ela tem um bom gosto finíssimo, uma história familiar e musical que vai me dar mais toques pra descobrir mais coisas.

Sua obra já ganhou remixes de nomes que vão de BadSista a CIC e Pic Schmitz, passando ainda pelo DJ Meme. São propostas bem diferentes. Como se dá a escolha por esses artistas? Quem seriam os DJs/produtores que você gostaria de chamar numa próxima oportunidade?

As pessoas vão me trazendo. Eu recebo muitos pedidos de remixes, mas vou me alinhando com a relação com o som das pessoas. Acho que essas sinergias são super importantes pra gente localizar pro ouvinte que outra versão ele tá vendo.

Quem eu gostaria de chamar agora é o Nicolas Jaar, que é um cara que eu certamente faria uma música, e o Nicola Cruz… Dois Nicolas [risos], que inclusive já fizeram shows juntos. Poolside também, que é uma galera que eu curto muito.

Especificamente na sua discografia, parece existir certa confusão entre o que é álbum e o que é EP — afinal, a linha às vezes é tênue, e os critérios variam de acordo com diferentes instituições e plataformas. Por que você considera Efeito das Cores, que tem nove faixas, um EP, enquanto Para Dias Ruins e Mundo Novo, com nove e sete músicas, respectivamente, são álbuns?

A minha discografia parece muito a minha cabeça às vezes. Ela não tem uma ordem certa,  muito sentido, e é maravilhoso quando bate nas pessoas e elas decidem o que fazer com aquilo. 

Obviamente que, com relação a catálogo, mudou muito, porque quando fiz um EP de 25 minutos, que era um EP, hoje em dia um EP já é nove faixas, ou também já é considerado álbum. É uma grande loucura, eu realmente não sei nem te explicar… Mas acho que não tem confusão não, tem esses quadros que eu ando pintando. 

Para Dias Ruins e Mundo Novo são dois álbuns. Eu tenho dois EPs, Efeito das Cores e Setembro, e de lá pra cá tudo é álbum à minha maneira, porque o que eu entendo como álbum é o resultado final dessa tela. Não consigo controlar as plataformas [risos], mas tô te dando meu parecer por aqui.

Pra fechar, a clássica do Alataj: o que a música representa na sua vida?

A música é tudo na minha vida. Se não fosse a música, eu não tava nem aqui falando com você. A música realmente é meu sustento espiritual, financeiro, é a forma de eu me  comunicar com o mundo, de encontrar com pessoas como a Mary, pra somar na minha caminhada musical, é a forma de me emocionar quando ouço Black Coco… Eu fico muito emocionada de como a música me faz existir na maior plenitude. Então é isso: música pra mim é tudo. Sei que é clichê, mas estão nos clichês as grandes soluções para as coisas [risos].

Beijo grande pra vocês, fiquem bem, tomem água, se cuidem, não percam o dia da vacina e a gente se vê em breve. Um beijo da Mahmundi pra equipe Alataj!

A música conecta.