A pluralidade cultural que existe no Brasil é um dos fatores para termos um cenário tão diverso musicalmente em território nacional. Seja dentro da música eletrônica ou, principalmente fora dela, cada região do nosso país conta com uma identidade e assinatura própria, somando todas as peças, elas se encaixam perfeitamente em um conjunto artístico rico de poderosas referências.
Talvez esse seja um dos grandes fatores que fazem o Brasil chamar atenção no mercado internacional. Nos últimos anos, a ascensão de artistas brasileiros na música eletrônica tem evoluído com força total para dentro de importantes labels do mercado mundial. São mais de três décadas de evolução, desenvolvimento e fortalecimento da cultura eletrônica no país, e alguns artistas tiveram o privilégio de presenciar as grandes transformações da cena nacional, e viver a potência de sua representatividade mundo afora.
Bruno Bignose, também conhecido através de seu projeto Oagora, é um dos artistas que está na estrada há um bom tempo. Através das pistas e dos decks, absorveu as principais transformações de um movimento que começou frágil, porém com potencial latente, e que agora se configura em posições de destaque do circuito mundial. Bruno conta um pouco de suas experiências e reflexões acerca da ascensão do mercado musical brasileiro, tão cheio de talentos e inspirações.
Alataj: Você já está ativo no cenário da música eletrônica nacional há um bom tempo. Para você quais são as principais transformações do mercado nacional de dez anos para cá?
Oagora: Noooossa! Mudou tanta coisa que poderíamos ficar só nisso, então vou tentar fazer um resumo. Em 2010 a House Music começava a tomar mais força, as festas raves iam se transformando em festivais e alguns clubes relativamente pequenos foram naturalmente evoluindo para super clubs com line-ups recheados de DJs que estavam vindo com essa nova onda moderna. Com o passar do tempo, na produção vimos artistas despontaram com seus amadurecimentos musicais renovando o guarda roupa musical com uma roupagem mais “club”. O sotaque brasileiro na forma de produzir foi colocado num híbrido de Electro e Deep House e deu origem ao Brazilian Bass que ainda podemos identificar alguns traços disso no atual Tech House e Desande que são fenômenos atualmente.
O crescimento de um modo geral trouxe grandes públicos e novas GRANDES responsabilidades. Fazer um set interessante passou a ser o básico do básico e muitos DJs procuraram produzir e lançar suas músicas. No meu caso eu dava pouquíssima atenção para divulgar minhas músicas lançadas antigamente e hoje entendo que o DJ precisa ir além da sua arte, precisa se conectar com seu público chegando até ele. Você precisa ser administrador, blogger, vlogger, fotógrafo, marketeiro, roteirista, figurinista e tudo mais o que for necessário para conseguir criar estratégias para sua música chegar até seu público-alvo sem deixar de ser você.
Também tem, é claro, as mudanças do mundo, como, por exemplo, o processo de distribuição depois do Spotify, músicas longas não são tão ouvidas fazendo com que alguns repensem o fluxo de criação tendo sempre em vista a versão para pista e outra para o Spotify. Em resumo, o ritmo mudou, o BPM mudou, o mercado se transformou e uma coisa influencia na outra.
Na sua opinião o que faz da nossa cena atrativa para o mercado internacional?
Eu sempre ouvi dos DJs que são de fora que o público daqui é bem animado. Os números não mentem, tínhamos festivais com sold out quase toda semana antes da pandemia. Quando falamos de grandes nomes, sabemos que já são consagrados, mas alguns artistas que ainda são hype, conseguem sua consagração em terras tupiniquins. Alguns até passam a morar aqui…
Quando um artista nacional, lança em label gringo, você acha que ele passa a agregar mais valor para seu projeto?
Sim e não. Sim porque além do destaque tem o sonho de sair nas gravadoras que você ouve, e se isso te deixa mais confiante, então é sim. Não porque na verdade o que importa é você acreditar no que faz. É aí que está a loucura, você tem que fazer da melhor forma que você consegue e se isso não está bom, bora melhorar! Tem tanto curso nacional bom, só não produz melhor que não quer.
Quando se trata de escolher em qual gravadora lançar, você tem que procurar por aquelas que estão fazendo um trabalho decente de divulgação e direção artística. Precisa haver um alinhamento de interesses e objetivo. Está começando? Ótimo, procure por selos menores que estejam com o mesmo gás que você. Selos que apenas colocam a música na prateleira podem ser legais para quem só quer lançar por lançar, mas se você quer chegar até seu público, vai precisar mais do que “só fazer o som e lançar”. Se a gravadora que aceitou você faz um trabalho bom, lance! Tanto faz o país que ela está.
Eu fiquei muito feliz quando vi recentemente que minha faixa nova Outro foi colocada em playlists de Spotify gringas enormes, justamente pela exposição e tal, mas recentemente recebi a notícia de que duas DJs muito legais me adicionaram em suas playlists de Spotify super selecionadas e badaladas. A faixa Outro entrou para a playlist Progressive House da carioca Laay e a Eclipse na Diggin’ da Ella de Vuono, de Campinas. É bom saber que lá fora te ouvem, mas eu quero muito que o público aqui, onde eu toco e vivo possa conhecer melhor meu trabalho.
Ao seu ver, quais são os nomes nacionais que estão ganhando destaque na gringa nos últimos anos?
Sinceramente? Eu acho que muitos mas vou citar o que tenho de exemplos mais próximos aqui nas redondezas: DJ Glen é muito querido por todo o crew e público gringo da Dirtybird; llusionize tem vários sucessos na Bunny Tiger e SPRS; tem o suporte recente do Tale of Us para a música do CRUXZ, artista novo que está fazendo um ótimo trabalho no seu segmento; os meninos do Hoppus, que estão começando a ter seus suportes e notoriedade internacional; o trabalho sensacional da Connect que tem feito uma execução linda de premieres e divulgação de artistas.
Esses são os que lembrei de imediato, mas só aqui na região de Campinas tem muita gente, crew e clubes que chamam a atenção pelo mundo todo, imagino que no resto do Brasil também.
E agora uma clássica do Alataj: o que a música representa na sua vida?
Música é uma espécie de Holodeck de Star Trek. Nela podemos experimentar diversas realidades e até mesmo criá-las. Quando jogava RPG, sempre preferia ser o narrador, quem é quem cria e conta a história. De certa forma continuo fazendo isso quando produzo. Então, na minha vida, é por ela que posso ir para o lugar que quiser sem sair de onde estou. Às vezes me encontro comigo mesmo no passado por estar ouvindo uma produção antiga que fiz ou alguma música de algum artista que me marcou. Em outros momentos tenho sentimentos que não correspondem ao momento que vivo ou então reforçam os que já estavam ali.
Ela aperfeiçoa a vivência do agora, ajudando a controlar os pensamentos invasivos e preenchendo algumas lacunas da alma.
A música conecta.