Em uma loja de discos usados de Montreal, Roger Sanchez encontrou por 99 centavos uma cópia de Toto IV. Mais tarde, enquanto finalizava seu primeiro álbum, reconheceu no início da faixa I Won’t Hold You Back um trecho capaz de carregar outra criação: “If I had another chance tonight”. O sample deu origem a Another Chance, uma das últimas faixas produzidas para o álbum First Contact. Lançada como single, chegou ao primeiro lugar da parada britânica em 2001. A história de seu maior sucesso comercial começa, portanto, com a disposição de escutar um material conhecido fora de seu contexto original e perceber nele uma possibilidade que ainda não existia — literalmente, dar a ele uma outra chance.
Criado em Nova York, Roger Sanchez passou pelo graffiti e pelo break, começou a discotecar aos 13 anos e estudou arquitetura antes de escolher definitivamente a música. Ele recorda um período em que disco, soul, hip-hop, freestyle e electro podiam aparecer no mesmo repertório, escolhidos pela capacidade de provocar uma reação na pista. Anos depois, Luv Dancin, lançada como Underground Solution pela Strictly Rhythm em 1990, projetou seu trabalho internacionalmente, enquanto ele também assinava produções como Roger S. e S-Man, nomes ligados ao lado mais escuro e underground de seu trabalho. Depois de Another Chance, vieram o Grammy pelo remix de Hella Good, a Stealth Records, o programa Release Yourself e sucessivas residências.
O acúmulo dessa jornada desabrochou em Spectrum, seu primeiro álbum em 20 anos, desde Come With Me, de 2006. O projeto começou a tomar forma quando a redução das viagens durante a pandemia ofereceu a Roger algo raro em sua rotina: tempo prolongado em casa para escrever, testar e revisar ideias. O processo durou seis anos e a ordem das músicas foi alterada repetidamente, até que ele conseguisse reconhecer a imagem geral do álbum.
Boa parte dessas composições nasceu em Shoreditch, bairro cuja atmosfera despertou em Sanchez lembranças da Nova York de sua juventude. Mais de 50 faixas foram escritas até a seleção das 13 que formam Spectrum. Suas letras recuperam experiências pessoais sem eliminar o direito de preservar certas histórias, enquanto os colaboradores puderam completar ideias existentes ou mudar completamente o caminho de uma produção.
Nesta entrevista, autenticidade, reflexão e abertura aparecem como princípios complementares. É a partir desses critérios que Roger discute o atual momento da house music, a construção da residência Flower Power na Pacha Ibiza e compartilha conosco um pouco de sua visão sobre a música eletrônica. Suas respostas apresentam um artista experiente e consciente da história que ajudou a construir, mas interessado sobretudo no que ainda pode acrescentar a ela.
Olá, Roger. Spectrum é o seu primeiro álbum de estúdio em 20 anos e levou cerca de seis anos para ser concluído. O que precisou acontecer, tanto artística quanto pessoalmente, para que você sentisse que este era o momento certo de retornar ao formato de álbum?
Acredito que desacelerar e permanecer em casa por um período prolongado durante a pandemia me deu tempo para pensar com maior cuidado na composição do álbum e permitiu que eu me concentrasse em iniciá-lo.
O título Spectrum parte da ideia de frequências, luz e diferentes intensidades emocionais, passando por faixas mais soulful, atmosféricas e direcionadas à pista. Como você organizou essa diversidade para que o disco mantivesse uma identidade coerente, em vez de soar como uma simples coleção de estilos?
Pensei em cada música como o registro de um momento específico, o que me proporcionou uma perspectiva muito visual sobre elas. Conforme fui reunindo as faixas, comecei a ouvi-las em sequência e a alterar a ordem até que a imagem geral do álbum aparecesse para mim. Acredito que esse processo trouxe a coesão necessária para que Spectrum soasse como uma obra completa.
Grande parte do álbum foi escrita durante o período em que você viveu em Shoreditch, e você já mencionou a forte influência dos verões britânicos em sua sonoridade. O que o ambiente musical do Reino Unido despertou em você que talvez não tivesse surgido da mesma maneira em Nova York, Ibiza ou em outros lugares ligados à sua carreira?
Londres possui muitas semelhanças com Nova York, especialmente Shoreditch, por sua aspereza e atmosfera. Ao mesmo tempo, existe uma característica inconfundivelmente britânica que impregna o próprio ar e o som das ruas, e isso inspirou muitos dos elementos do álbum. Linhas de baixo, acordes e certos acentos foram se infiltrando nas faixas enquanto eu as produzia, conferindo a boa parte do disco um sabor londrino bastante particular.
As letras de Spectrum partem de experiências pessoais, conferindo ao projeto uma dimensão mais íntima do que a de uma coleção de faixas para clubs. Existiu um limite entre aquilo que você desejava transformar em música e o que preferiu manter fora do disco?
Sempre abordo as histórias contadas em minhas músicas a partir de um lugar de autenticidade e reflexão. Ainda assim, existem coisas que guardo para mim — talvez para sempre ou talvez até chegar o momento certo de compartilhá-las.
Spectrum reúne colaboradores de diferentes gerações, países e formações musicais, entre eles Melanie C, Kele Le Roc, Karen Harding, Donae’O, Kelli-Leigh, Carnao Beats e Low Steppa. O que você procura atualmente em uma colaboração: uma voz que complete uma ideia já definida ou alguém capaz de conduzir a faixa para uma direção completamente diferente?
Procuro permanecer aberto a todas as possibilidades quando colaboro com outros artistas. Algumas vezes, começamos do zero e construímos uma ideia juntos; em outras, eu ou o outro artista já temos algo iniciado e seguimos a partir dali. Cada colaboração acontece de uma maneira diferente.
Depois de décadas ajudando a formar a linguagem global da house music, como você enxerga o momento atual do gênero? A house atravessa outra fase de expansão genuína ou também vive uma repetição acelerada de códigos que funcionaram no passado?
Vejo tanto uma expansão da house music quanto uma retomada de sonoridades que se conectaram com o público no passado, agora observadas pelo prisma da reinterpretação. Estou animado para a próxima fase.
Atualmente, artistas e gravadoras precisam lidar com lançamentos constantes, conteúdos breves, métricas e uma atenção cada vez mais fragmentada. Como alguém que construiu a carreira por meio de sets longos, residências, discos e do desenvolvimento gradual de um repertório, de que maneira você protege a profundidade e a continuidade nesse ambiente?
Sem dúvida, isso se tornou mais desafiador diante da redução da capacidade de atenção desenvolvida pela sociedade. Continuo produzindo e tocando músicas que me conectam pessoalmente com o meu público, e isso exige tempo. Construí ao meu redor uma equipe que me ajuda a executar minhas ideias, mas ainda dedico o tempo necessário para desenvolvê-las da maneira mais completa possível.
Sua residência Flower Power na Pacha Ibiza reúne grandes nomes da house, colaboradores do álbum e artistas em ascensão. Em uma ilha cada vez mais profissionalizada e orientada por produções de grande escala, o que ainda precisa existir dentro de uma residência para que ela desenvolva uma identidade real, em vez de se tornar apenas outra sequência de datas?
A música vem em primeiro lugar na construção da identidade de uma residência, mas é toda a equipe envolvida — a minha, a da Pacha e todas as demais pessoas que trabalham no projeto — que realmente a transforma em uma experiência. Quando todos demonstram paixão pelo conceito e pela experiência dos eventos, algo especial acontece.
Ao observar Spectrum e esta fase de sua carreira, você sente que o álbum reafirma a essência que sempre orientou Roger Sanchez ou apresenta um lado seu que o público ainda não conhecia por completo?
Acredito que Spectrum abre um pouco mais a porta para o meu mundo. Existem elementos novos, que eu não havia mostrado necessariamente antes, mas também há uma familiaridade e uma autenticidade que serão reconhecidas por quem conhece o meu trabalho.
Para encerrar, uma pergunta clássica do Alataj: o que a música representa em sua vida?
A música é a linguagem que uso para falar com o mundo e com o universo que existe além dele.