Faixa a faixa

Faixa a Faixa | Mari Herzer – Cheia [MAMBA rec]

Mesmo que cada uma seja muito pessoal no que comunica e bastante universal no que descreve, é difícil imaginar que pudéssemos neste momento precisar de mais uma narrativa musical pandêmica, especialmente na forma de um álbum. Contudo, o que esta mais recente aventura aural da talentosa Mari Herzer nos traz é bastante disso, mas também é muito mais. Através de um decálogo de composições cuja densidade tonal e intensidade emocional nos carregam de forma tão envolvente quanto possante, ela consegue nos fazer revisitar temas familiares, e até mesmo dolorosos, com uma sensibilidade muito singular que nos atrai e mantém por todo seu decorrer, ora nos jogando em grutas profundas de graves, ora abraçando nossa atenção com jogos harmônicos tão complexos quanto cativantes.

Um percurso empolgantemente não-linear que desliza por frequências guturais e timbres das mais diversas tonalidades, tudo moldado em sequências rítmicas que brincam com o inesperado e melodias que nos convidam a nos perder em suas nuanças. Mas ainda que entendam todos estes aspectos eles são nada mais que externalidades, impressões a respeito da beleza de uma obra fascinante que se vale de uma coesão fenomenal para exibir uma força descomunal numa dinâmica de forças contrárias que se mostram tão potentes, e que por vezes, parece que vão dilacerá-la a partir de dentro. 

Mas, ao fim e ao cabo, quem pode nos orientar pela real dimensão interna destas paisagens sonoras, revelando os elementos pessoais e autorais que formaram e informaram todas essas ricas realidades sônicas que se concatenam de modo exuberante, é sua criadora. E é exatamente o que compartilha em Cheia conosco: não apenas os projetos e ideias que nortearam sua criação, mas as vontades, ansiedades, decepções e alegrias que pautaram sua produção. Estados sentimentais nos quais facilmente nos identificamos que alimentam um material musical com o qual inevitavelmente nos conectamos. Com a palavra, Mari Herzer:

Eros | Essa foi a última faixa que preparei para o álbum. Ela já existia, estava perdida nos confins do meu computador e era para ser, na verdade, um remix. Lembro que no final de 2021 um aluno me enviou esse “remix contest” que consistia basicamente em usar samples de ruídos de pedras de um museu inglês do qual não me lembro o nome. Como os samples eram royalty free, os baixei e comecei a fazer uma música. A regra era que somente os sons dos minerais deveriam ser utilizados e nada mais – segui isso à risca. Acabei por não enviar a faixa pois não gosto muito do apelo de competições de remix, então o arquivo ficou lá guardado.

No começo de 2022, que era quando comecei a correr para finalmente finalizar o álbum, lembrei da existência desse arquivo e pensei “por que não?”. Adicionei uma grossa camada de efeitos mas mantive o coração da faixa: ela foi inteiramente feita com samples de pedras sendo batidas em mesas, caindo no chão, ou colidindo umas contra as outras. Apenas no final da faixa eu adicionei uma camada de sintetizador para fazer um crescendo e dar uma cara mais musical pra ela.

Lembro também que, numa segunda versão dessa música, ela tinha um voiceover longo que eu gravei no meu estúdio, ditando uma parte de um livro da Anne Carson chamado Eros the Bittersweet. Então é, sim, uma faixa que fala sobre amor. No fim, acabei retirando a voz pois fiquei um pouco tímida com meu inglês.

Prólogo | Essa foi uma das últimas faixas a serem finalizadas para o álbum também. Já teve inúmeras versões, comecei a fazê-la em 2020. Apenas em 2022 se transformou na faixa que hoje está no álbum. Inicialmente utilizei samples que gravei em Atibaia, no sítio dos pais do meu ex. Usei sons de grama sendo pisada, pássaros, cães caminhando no mato – mas tudo muito processado digitalmente. 

Posteriormente tive a ideia de acrescentar a voz de um grande amigo, o Médio. Nesse período eu já estava separada, ficando de favor na casa de uma amiga pois estava nessa transição de término de “casamento”, procurando uma casa nova para morar. Usamos um microfone USB meu que estava bem detonado, mas tinha um som bom suficiente para fazer uma gravação profissional. Meu amigo Médio escreveu uma letra para a faixa, na qual falávamos sobre adestramento de cavalos como uma alusão à solidão que permeia a vida do morador de São Paulo: por isso repete-se a frase “reward me”.

Eu fiquei empacada nessa música, demorei muito pra terminá-la pois ainda não estava feliz com o resultado. No fim das contas, picotei todas as vozes gravadas pelo Médio e usei apenas partículas específicas da letra e alguns falsetes gravados por ele e por mim, para que a faixa ficasse menos figurativa e com uma cara mais digitalizada e eletrônica.

Nesse meio tempo um cliente com o qual trabalho há anos me emprestou o primeiro sintetizador analógico e polifônico com o qual tive contato diário, o Prophet 08 – sintetizador muito presente em composições do Boards of Canada, por exemplo. Utilizei-o para adicionar pads mais quentes e profundos, característicos desse instrumento.

Creio que essa é a faixa que tem maior valor subjetivo para mim: passou por uma separação, foi feita na casa de uma amiga que fiquei de favor, tem a voz de um grande amigo, o clipe foi feito pelo meu atual namorado. Muita coisa aconteceu nessa faixa, por isso a chamo de prólogo: é a porta aberta para uma nova vida, é ela quem chama os acontecimentos vindouros.

Não é Possível Estabelecer um Limite a Cada um Desses Dias de Fronteiras Impalpáveis | O nome dessa faixa foi retirado do livro Poema Sujo, de Ferreira Gullar. É uma faixa que fala sobre repetição e cotidiano. Fiz ela logo após uma briga feia com meu ex, estávamos no pico da pandemia em 2020, morando juntos, isolados. A repetição do cotidiano era massacrante e me fez pensar que seria ótimo desaguar essa discussão numa música. E é isso que ela é: uma briga, resolução e repetição. A faixa conta com uma estrutura repetitiva e descompassada exatamente por isso. A bateria tem um ritmo diferente do baixo, as vozes estão em outra divisão rítmica, os sintetizadores também. As vozes foram gravadas no mesmo microfone podrinho de antes.

Território Conflito | Essa faixa tem samples de uma música do Jon Hassell, e a ideia inicial era que Território Conflito fosse um ambient, sem bateria alguma. Achei que estava sem graça daquela forma, os samples estavam muito figurativos, dava pra entender de onde vinham. Adicionei grossas camadas de baterias cacofônicas pra enterrar a voz, de forma que imite a vivência em São Paulo. O som das máquinas, dos carros se sobrepõe aos da voz. Uma boa dose de saturação ajudou a faixa a atingir seu limite em termos sonoros. É uma música complexa aos ouvidos, mas muito simples no fazer.

Cheia | O título da faixa é uma alusão às cheias que alagam as ruas de São Paulo, provocadas pela chuva e o confuso planejamento urbano da cidade. 

Logo no começo, eu uso um sample de uma música da Alice Coltrane, Paramahansa Lake que, modificado digitalmente e usando algumas técnicas de sound design, faz o som semelhante ao da água. Muito do que eu faço no percorrer do álbum é imitar o som da água com timbres digitais ou samples modificados. Gosto da ideia de ter sons psicodélicos, aquáticos no meu trabalho e com certeza vou levar esse estilo para o próximo.

No meio da faixa incluo alguns recortes da minha própria voz cantando em falsete e, mais à frente, num volume muito baixo, canto dois versos: “Eu quero lhe contar, o lixo é meu lugar”. Deixei essa voz também soterrada, pois a enchente nos engole.

Sóis | Essa música tem uma história fofa: há 5 anos atrás encontrei numa festa de música eletrônica o Massumi, pessoa querida e virtuoso violoncelista. Perguntei se ele toparia participar em uma música no meu álbum (que sequer existia na época, eu só estava o planejando).

3 anos à frente, preparo uma pequena peça eletrônica com um núcleo harmônico bastante repetitivo e envio para que ele grave seu Cello. Em 40 minutos, o Massumi me retornou com um material enorme, muito rico, suficiente pra render mais 4 músicas – mas me contive em fazer uma só.

Essa música teve duas versões: a mais pobre, subdesenvolvida harmonicamente, feita em 2021 e a atual, feita em 2022, poucos meses antes de lançar o álbum.

O ritmo dessa faixa tem uma movimentação interessante pois começa num ritmo desdobrado, que dá a ela a sensação de ser mais lenta. A partir de 2:42 tudo muda e eu dobro o ritmo, o que dá a ideia da faixa estar acelerando em direção aos dois Sóis que estão no título.

É quase uma “road music”, mas como eu pedalava pra ir ao trabalho, tornou-se a descrição do percurso que eu fazia de bicicleta do trabalho pra casa e de casa pro trabalho. Às vezes o Sol tornava-se tão escaldante que parecia ser dois. No fim, é uma “bicycle music”.

Lixo | Nesse percurso de bicicleta, eu saía da avenida Duque de Caxias no centro, passava por alguns núcleos desfeitos da cracolândia, e atravessava a passarela sobre os trilhos do trem da Barra Funda. Sempre tinha lixo lá. Dejetos de pessoas que moram lá, sacos de lixo, cheiro de urina. 

Lixo é uma ode a isso: o percurso obstruído pela imundície de uma cidade que não sabe lidar de forma humana com a população de rua.

Sibilitz | Essa música leva o título de um livro do Leonardo Fróes, poeta brasileiro. Acredito que a poesia desse livro tem muito em comum com esta música, pois ambas obras são cacofônicas e complexas, emprestam palavras ou timbres de momentos diferentes e costuram-se numa espécie de loucura estilística. Tanto a poesia quanto a música compartilham a imprevisibilidade esquizofrênica.

Quando eu estava fazendo essa faixa, usei um plugin desenvolvido pelo Richard James que permite gerar harmonias e melodias microtonais, coisa que não é possível apenas usando o DAW (eu uso o Live). Quando eu baixei o programa, coloquei no modo DEMO que duraria uns 2 meses. E, sim, eu demorei 2 meses pra voltar a mexer na música. Então, basicamente, eu perdi a microtonalidade de todos os timbres da música – estava horrível. E eu tava sem grana pra comprar o plugin naquele momento, mas por sorte um amigo, Matheus Leston, baixou o MTS-ESP e passou a minha faixa no computador dele, renderizou tudo e mandou pra mim. O problema é que algumas coisas ainda vieram erradas, então eu tive que corrigir nota a nota até chegar no resultado mais fiel possível à versão original.

Solvente (Dub) | Essa música é um relançamento. Foi lançada em abril de 2020 pela BICUDArec, numa coletânea cuja temática é a pandemia. Inicialmente, esse álbum se chamaria “São Paulo Solvente”, por isso achei importante trazer a Solvente para cá. No fim das contas, o álbum acabou ganhando outro nome e a faixa Solvente permaneceu, mas com novas modificações timbrais e um pouco melhor mixada.

Ponte | Essa faixa remonta a história do meu tio avô Anderson Herzer, primeiro transmasculino a publicar um livro no Brasil. Anderson, ou Bigode, passou boa parte da vida na FEBEM e teve uma vida um tanto sofrida. Saiu do Paraná, teve pai e mãe mortos muito cedo. Chegou em São Paulo e foi adotado pela tia (minha bisavó). Seu livro, A Queda Para o Alto, é muito bonito. Tem poema, prosa, conta de sua própria vida, é muito autobiográfico. Anderson morreu jovem, caído de um viaduto sobre a 23 de Maio. Algumas pessoas supõem que foi assassinato, outras, suicídio… Ou até mesmo descuido. Não há como saber, muitos anos se passaram. Ele morreu aos 20 anos. Leiam A Queda Para o Alto: é belíssimo.

Fato curioso é que, enquanto eu estava fazendo essa música, sofri um assalto violentíssimo na mesma passarela da Barra Funda que cito nas músicas acima. Eu estava subindo a pé de bicicleta, com celular no bolso, computador na mochila de costas. O rapaz me abordou de maneira já bastante agressiva e eu estava disposta a entregar meu celular, mas fiquei tão assustada que não sabia direito o que ele queria. Perguntei o que ele queria, ele se irritou e começou a puxar minhas coisas e eu soltei um berrinho de susto. Isso o deixou completamente enfurecido: me deu um soco na cara, eu caí no chão. Ele começou a chutar minha cabeça sem parar, acho que levei 20 chutes na cabeça. Eu só sentia um pequeno tremor, pois estava de capacete de bicicleta. Foi o capacete que me salvou. Ele saiu correndo com meu celular velhinho com tela quebrada, e meu corpo estava praticamente intacto. Por isso a faixa chama-se Ponte e não Viaduto.

A música conecta.