Existe uma ideia que acompanha a filosofia de trabalho da 4FINEST EARS desde os primeiros anos: buscar o lado não-convencional da música eletrônica. Isso, porém, nunca significou seguir uma sonoridade específica ou simplesmente procurar pela música mais estranha possível. O ponto está mais em como a festa é feita: escolhendo artistas pela pesquisa, dando liberdade para que eles apresentem diferentes lados de seus repertórios e criando condições para que essa música seja ouvida da melhor maneira possível.
Foi com esse pensamento que a 4FE começou no Rio de Janeiro em 2012, tendo Juliano Serpa, hoje também conhecido pelo alias NOT_ME_, como seu principal idealizador e curador. Em entrevista ao Alataj em 2016, ele explicava que uma das motivações para criar o projeto era bastante pessoal: queria ouvir a música em que acreditava, trazer artistas que admirava e abrir espaço para DJs que considerava merecedores de atenção. Também queria fazer uma festa que ele próprio gostaria de frequentar, sem depender da presença de um nome internacional para justificar cada edição.
Quatorze anos depois, essa mesma essência continua aparecendo na escolha dos artistas que passaram pela 4FINEST EARS, curadoria essa feita por Phyto (Mayara Almeida) e NOT_ME_ (Juliano Serpa). Craig Richards, Jane Fitz, Lamache, Daze Maxim, Andrea Ferlin, Vinyl Speed Adjust, Voigtmann, Cosmjn e Que Sakamoto são alguns deles, além de brasileiros como DJ Koolt, Flo Massé, Tati Pimont, Dee Bufato, Ney Faustini e Trajano. São artistas de momentos, lugares e universos musicais diferentes, mas que têm na pesquisa e na seleção um ponto em comum, muitas vezes com reconhecimento especialmente forte entre outros DJs, colecionadores e frequentadores mais atentos do underground.
Essa variedade também tornou difícil colocar uma única etiqueta musical sobre a festa. House, techno e minimal sempre estiveram por perto, mas electro, acid, breakbeat, trance, progressive house e outras referências apareceram em diferentes momentos. O gênero pode mudar bastante de uma edição para outra, mas a pesquisa e a forma de tocar ajudam a manter uma identidade. Seleção, mixagem, dinâmica, textura e groove são termos que aparecem com frequência quando a própria 4FE fala sobre seu trabalho. É uma visão do DJ que valoriza tanto o repertório quanto a capacidade de conectar músicas e desenvolver um set aos poucos.
Isso é perceptível também na qualidade do som e nos lugares escolhidos para as festas. A 4FE afirma ter sido pioneira ao levar um Funktion-One para uma festa no Rio de Janeiro, em uma edição no Joá, e continuou investindo em sistemas dedicados ao longo dos anos, como Pure Groove e Core. Ao mesmo tempo, passou por lugares como Cais da Imperatriz, Fosfobox, Rua City Lab, Solar do Redentor, Kza Sal e casarões na Gávea e em Santa Teresa, algumas vezes com endereços divulgados somente perto do evento. Mesmo mudando de espaço e equipamento, a preocupação em fazer a música soar bem sempre esteve presente.
É também por isso que olhar para a história da 4FINEST EARS ajuda a contar um pedaço do próprio underground carioca das últimas duas décadas. Quando Juliano conversou com o Alataj, em 2016, apontava a falta de clubs dedicados à eletrônica underground, de mídia especializada e de bons equipamentos como algumas das dificuldades encontradas na cidade. A 4FE atravessou esse período, mudanças de endereço, diferentes formações de residentes e a pandemia, chegando aos 14 anos ainda bastante próxima das ideias que deram origem ao projeto.
Neste sábado, 26 de setembro, essa história ganha mais um capítulo com a comemoração de 14 anos da 4FINEST EARS no D-EDGE Rio. A edição reúne Capetini, Lycra Preta, Vivi Seixas e os atuais residentes NOT_ME_ e PHYTO, que ficam responsáveis por abrir e fechar a noite. O convidado internacional é Demi Riquísimo, DJ e produtor à frente da Semi Delicious, com uma pesquisa que transita por house, disco, Italo, acid e electro. Um nome que faz bastante sentido em uma edição que celebra justamente essa liberdade musical do coletivo.
A própria comunicação do aniversário recupera uma pergunta que combina com toda sua trajetória: “O que mais existe para ouvir?”. Depois de 14 anos, a pergunta continua fazendo sentido. Os artistas, residentes, espaços e até os sistemas de som mudaram ao longo do caminho, enquanto a vontade de procurar um pouco além do que já está dado continua ali. Como eles mesmos gostam de reforçar: Keep Your Ears Open.

