À medida que a cultura clubber foi crescendo e ocupando espaços cada vez maiores, uma pergunta passou a rondar a cena com mais frequência: como preservar os valores que deram origem à música de pista quando ela passa a circular em estruturas maiores, festivais e circuitos globais? A história da HE.SHE.THEY começa justamente a partir dessa provocação.
Criada em Londres, em 2018, por Steven Braines e Sophia Kearney, a HE.SHE.THEY nasce como uma iniciativa focada em criar pistas onde pessoas de diferentes gêneros, orientações afetivas, corpos e origens pudessem simplesmente estar. Sem códigos rígidos, sem recortes fechados, sem a sensação de que alguém precisa se enquadrar para pertencer. Todo mundo é bem-vindo, desde que exista respeito e cuidado coletivo.
Mas isso não ficou apenas no discurso. A HE.SHE.THEY construiu sua identidade a partir de decisões na prática: quem toca, quem performa, quem ocupa o palco e quem se sente seguro na pista. Ao longo do tempo, o projeto deixou de atuar apenas em clubes menores e passou a circular também por grandes venues e festivais internacionais, levando esse mesmo entendimento de convivência para contextos mais amplos da cena.

Foi assim que a marca passou por dezenas de cidades ao redor do mundo, com presença em palcos como Glastonbury, Coachella e Tomorrowland, além de uma residência de três anos no Amnesia, em Ibiza. Em todos esses contextos, a proposta foi usar a música eletrônica como linguagem comum, mas permitindo que a pista funcione como espaço de expressão ampla, onde house, techno e disco retomam sua dimensão histórica de acolhimento e diversidade.
Esse ponto é fundamental para entender a chegada da HE.SHE.THEY ao Brasil. A música de pista, desde suas origens em Chicago, Detroit e Nova York, nasce de comunidades plurais, atravessadas por raça, gênero, sexualidade e classe. O Brasil, por sua vez, carrega uma tradição clubber igualmente híbrida, onde corpos, referências e sonoridades sempre coexistiram de forma intensa, especialmente durante o carnaval, quando fronteiras sociais e culturais se tornam mais tênues.

Foto por Giles Smith 
Foto por Giles Smith
É nesse contexto que a HE.SHE.THEY realiza sua estreia no país, no dia 13 de fevereiro, com um showcase no D-EDGE Rio, em parceria com a House of Love. A agência, liderada por Pedro Gariani, se posiciona como uma produtora de eventos focada na diversidade, visando conectar culturas e sons globais especialmente em São Paulo, mas com intenção de atuar em todo o Brasil futuramente. “Para mim, essa edição não é pensada como algo pontual. A ideia é iniciar uma presença local consistente, com outras edições ao longo do ano, e o carnaval funciona como esse primeiro contato, onde os valores da marca ganham escala e repercussão”, diz Pedro.
O line-up é liderado por Gabrielle Kwarteng, nome recorrente nos eventos da label e presença constante em clubes como Berghain e fabric, com uma trajetória profundamente conectada à cena clubber queer. Ao lado dela, Omoloko e Badsista representam a cena brasileira com afinidade direta com a identidade do projeto, aproximando circuitos locais e internacionais de forma natural. Pedro Gariani, responsável por essa conexão entre as cenas de Brasil e Londres, fecha o lineup.
Além da música, a noite também contará com performers da cena queer do Rio de Janeiro, como Kasha Lotte, Laxxota, Melina Blley e Una, ampliando a experiência para além do DJ booth e abrindo espaço para outras formas de expressão artística dentro do club. “O papel do evento é justamente levar os valores de inclusão, diversidade e política de pista da HE.SHE.THEY para mais lugares”, reforça Gariani. Em resumo, a proposta é provocar encontros entre públicos, cenas, corpos e referências distintas, sem perder o compromisso com a comunidade queer e com a construção de uma pista mais consciente.