A frase “I can’t get no sleep” tornou-se um dos ganchos mais reconhecíveis da música eletrônica, mas sua conexão profunda com a cultura clubber foi, curiosamente, não planejada pelos seus autores. Enquanto o público adotava a faixa como uma ode às madrugadas intermináveis, a origem da letra era muito mais mundana e dolorosa.
Ao contrário do que muitos acreditavam, Maxi Jazz não sofria de insônia nem escrevia sobre a euforia das pistas. A inspiração veio de um abscesso dentário que o mantinha acordado durante a noite. Outros detalhes da canção também emergem desse contexto precário: à época, ele utilizava um medidor de eletricidade pré-pago e, quando o crédito acabava, as luzes se apagavam, forçando-o a escrever à luz de velas.
O impacto da música foi imediato, embora nenhum dos integrantes do Faithless tivesse percebido, inicialmente, como aquela frase ecoaria entre pessoas que haviam consumido grandes quantidades de estimulantes e não pretendiam dormir por dias. Para esse público, a “insônia” na letra não era um problema clínico, mas a tradução direta de uma experiência comum à cultura rave dos anos 90.
Segundo o próprio Maxi Jazz, o segredo do sucesso foi justamente a ausência de intenção. Ele afirmou que, se tivessem tentado escrever deliberadamente sobre drogas ou vida noturna, o resultado teria sido “cafona e piegas”. A honestidade de relatar sua própria agonia acabou criando uma identificação universal, algo que ele resumia com humor: “Se eu ganhasse uma libra por cada vez que alguém me disse ‘I can’t get no sleep’, eu estaria morando na estação espacial”.
A ironia dessa “conexão não planejada” se completa com o fato de que a MTV exigiu a alteração da frase inicial da música — “I only smoke weed when I need to” — por considerá-la explícita demais. A versão aprovada acabou se tornando um dos símbolos sonoros mais associados ao consumo de substâncias nos anos 1990, evidenciando como a interpretação do público frequentemente se impõe à intenção do artista.