Antes de se tornar Losoul, Peter Kremeier discotecava em Frankfurt sob o nome Don Disco, como parte do coletivo Superbleep, no início dos anos 90. Funk, soul, jazz, hip hop, house e techno faziam parte de um repertório que logo encontraria continuidade também em suas produções. Foi nesse período que seu caminho se aproximou de figuras como Ata e Daniel Bell e, posteriormente, da Playhouse Records, gravadora com a qual construiria uma parte decisiva de sua discografia.
A partir de Open Door, lançada em 1996, Losoul passou a ocupar um lugar importante na geração associada à Playhouse ao lado de Isolée, Ricardo Villalobos, Roman Flügel e outros produtores que fizeram de Frankfurt um dos pontos fundamentais para os novos desdobramentos do house e do techno durante aquela década. Nos anos seguintes, sua trajetória se estendeu por selos como Klang Elektronik, Hypercolour, Logistic, Circus Company e pela própria Another Picture.
Para o Alataj, Losoul voltou ao repertório que acompanhou sua formação como DJ e produtor e selecionou cinco discos fundamentais para o minimal house em sua perspectiva. Entre produções americanas e europeias lançadas nos anos 90, suas escolhas passam por Nick Holder, Chez Damier, Round Two, Greg Stevens e chegam à Playhouse.
A seleção parte da experiência de um artista cuja trajetória se desenvolveu entre house, deep house e minimal house e que tocou parte desses discos quando eles ainda eram novidades, antes de passar a contribuir diretamente para os caminhos que a música eletrônica tomaria naquela década.
Nick Holder – Digital Age (DNH Records, 1991)
House dos primeiros anos, techno e o som de Detroit aparecem em um conjunto de faixas psicodélicas, emocionais e cheias de frescor, sempre com aquela cadência clássica do house. Nick Holder reuniu aqui alguns dos elementos mais marcantes da música eletrônica para pista: emoção, ação e também certa diversão, por meio da ironia e da melancolia.
Frantic, em especial, tem uma mecânica insana e precisa, enquanto Erotic Illusions traz um calor oriental, minimalista e imediato, bem na sua frente. Nada de big room ou movimentos épicos — apenas aquilo que você entenderia como… Sim, minimal house, em 1991! Eu costumava tocar essas faixas porque elas realmente se destacavam naquela época.
Chez Damier – Untitled (KMS Records, 1993)
Nós adorávamos tocar esse disco naquela época. Especialmente o lado A, com aquele groove ousado e enxuto ao estilo de Chicago, bem house e de bastante impacto. Continua ótimo hoje — os dois lados, na verdade.
Com o tempo, alguns desses primeiros produtores de house dos Estados Unidos passaram a fazer produções bastante opulentas, mas fico feliz que muitos tenham redescoberto o foco nessa fronteira do funk reduzido e mantido uma atmosfera soulful. Obrigado por isso!
Round Two – New Day (Main Street, 1995)
A Main Street é um sublabel da Basic Channel, de Berlim, que trazia os elementos mais ligados ao house sem perder parte da atmosfera do dub techno da cidade — assim como as festas de Berlim nos anos 90: cruas, underground e soulful. Que esse amor continue vivo!
Greg Stevens – Tickle (Sensuist, 1996)
Este 12″ duplo reúne verdadeiras faixas de pista: reduzidas, com ótimos grooves que transitam entre uma pegada tech e uma atmosfera mais house.
Vindo do núcleo do Meio-Oeste americano ligado à Communiqué Records e a Woody McBride, que trabalhava principalmente com techno e acid, era um ótimo pacote pronto para as pistas underground, sem precisar recorrer a grandes gestos. Dá para sentir?
Lançamentos da Playhouse de meados dos anos 90: Losoul, Isolée, Soylent Green, Villalobos…
Tenho que ser sincero… Eu gostava muito da música que era lançada pela Playhouse Records desde quando comecei a trabalhar com o selo — e ainda gosto. Os primeiros lançamentos de Isolée, mesmo antes do famoso Beau Mot Plage, Soylent Green e os meus próprios Open Door, Chase Chase Chase, Mandu, Synchro e outros ainda soam únicos hoje, sem terem tentado reproduzir os estilos que estavam em evidência naquele momento.
Acho que vivemos uma época muito boa crescendo juntos.
Pensando em minimal house, eu recomendaria o lado B de Open Door, intitulado 00000000: um groove reduzido e psicodélico, com uma atmosfera atemporal à sua própria maneira.