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A música conecta

Maps sonoro | Sven Väth

Por Elena Beatriz em Notes 26.08.2026

Na virada de 1981 para 1982, Ulli Brenner, DJ residente do Dorian Gray, reparou em um adolescente que dançava por horas e, mesmo longe da cabine, conseguia criar na pista um clima eufórico e lisérgico. Era ninguém mais, ninguém menos que Sven Väth, então com 17 anos. Intrigado, Brenner se aproximou e descobriu que o adolescente discotecava no Queen’s Pub, aberto por seus pais em 1979. Pouco depois, convidou-o para assumir temporariamente a pista menor do Dorian durante suas férias. A substituição foi tão bem recebida que o gerente ofereceu a Väth uma residência fixa: quatro noites por semana em um club aberto a experimentações pouco comuns no início dos anos 80.

Para Väth, música e dança já faziam parte da vida familiar. Seus pais, refugiados vindos de regiões alemãs do leste, conheceram-se em um abrigo no pós-guerra e precisaram recomeçar a vida na Alemanha Ocidental. O pai, pintor de profissão, era apaixonado por rock’n’roll, e se apresentava ao lado de sua mãe em números dançantes. Em 1979, realizaram o sonho de abrir o Queen’s Pub. Quando Sven voltou encantado de uma temporada de três meses em Ibiza, aos 16 anos, foi a mãe quem percebeu que ele queria ser DJ e lhe ofereceu as noites de sábado no bar. A partir dali, mãe e filho passaram a trabalhar a poucos metros de distância: ela atrás do balcão, ele escolhendo os discos.

Nas décadas seguintes, as pistas ganharam outras proporções. Väth abriu o Omen, cofundou os selos Eye Q e Harthouse e levou a Cocoon a vinte temporadas em Ibiza. Mesmo diante de públicos cada vez maiores, preservou a disposição de dançar por horas, reagir abertamente ao que escuta e viver cada noite como se ainda estivesse do outro lado da cabine.

Em 2026, aos 61 anos, Väth conduz o segundo ciclo da turnê T.R.A.N.C.E. O giro chega ao Brasil em 28 de agosto, no Cine Lido, em Curitiba, e no dia 29, na Fabriketa, em São Paulo. O nome não indica uma ode a um gênero específico: para ele, trance descreve um estado coletivo, produzido quando música, DJ e público passam a responder uns aos outros. Quarenta e cinco anos depois, a turnê dá nome ao que Brenner percebeu naquele jovem: a capacidade de transformar entusiasmo e sensibilidade em uma experiência compartilhada.

Este é o Mapa Sonoro de Sven Väth.

Identidade

Em Sven Väth, experiência nunca se converteu em solenidade. Seus 45 anos de discotecagem podem ser ouvidos em um repertório extenso de vinil, mas esse conhecimento lhe oferece principalmente liberdade: mudar o rumo do set, reconhecer o que a pista pede e encontrar entre seus discos uma resposta que dificilmente seria óbvia. O humor faz parte dessa inteligência ao brincar com o público ou demonstrar abertamente o próprio entusiasmo com a seleção que apresenta.

Essa desenvoltura torna seus sets uma aula porque mostram quanta espontaneidade pode surgir quando um DJ conhece verdadeiramente seu repertório. Essa união entre pesquisa, prazer e comunicação é o que nos faz reconhecer um dos gigantes da música eletrônica.

Origens

A formação de Väth aconteceu antes que Frankfurt pudesse ser diretamente associada ao techno. No Queen’s Pub, ele misturava disco, Grandmaster Flash, Culture Club e os hits do início dos anos 80; no Dorian Gray, passou pelo new beat, pelo industrial e pelas primeiras formas do techno. Durante o dia, ele e outros DJs testavam drum machines e refaziam músicas em fita no sistema de Richard Long. Quando o acid house chegou, Väth deixou o industrial para abrir o Omen. Foi essa sucessão de repertórios, e não uma escola sonora única, que o formou.

Futuro

Em janeiro, Väth lançou Inner Horizon, mix de 16 faixas que reúne nomes como Brian Eno e Harold Budd. Em 18 de novembro, ele apresenta o projeto no Gashouder, em Amsterdã, após um live ambient de Roman Flügel preparado para a ocasião. Projetos antigos como a Recycle or Die, sublabel da Eye Q, já demonstravam certa dedicação a sonoridades mentais e experimentais. Na Harmony, essa faceta ganha um set específico dentro de uma experiência visual em 360 graus. 

Fator surpresa

Antes de se firmar como DJ de techno, Väth foi vocalista do grupo de synthpop OFF  (Organisation for Fun). A faixa Electrica Salsa levou sua voz declamada às paradas europeias; aos 22 anos, ele já se apresentava na Arena di Verona. Em 1989, deixou o grupo por se sentir uma marionete e concentrou-se na discotecagem sob o nome Sven Väth. A decisão anunciou um padrão que reapareceria no fim da Eye Q e do Omen: o êxito nunca foi razão suficiente para prolongar uma fase que já não o interessava.

Um trabalho para entender o artista

O Alaplay 600, publicado em 2024, registra em 96 minutos uma seleção preparada por Sven Väth 43 anos depois de sua estreia no Dorian Gray. Entre as faixas estão Newendam, de Human Space Machine, e Runnin’, de Deetron, ambas daquele ano, além do remix lançado por Tim Green em 2023 para Two Months Off, faixa apresentada pelo Underworld em 2002. A combinação mostra como ele aproxima lançamentos recentes de uma composição conhecida relida por outro produtor, sem dividir o repertório entre passado e presente, reunindo memória e timing dentro de uma mesma narrativa.

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