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A música conecta

mauromusica lança sua primeira compilação e transforma em label uma ideia criada no final dos anos 90

Por Marllon Eduardo Gauche em Notes 17.07.2026

Lançar uma gravadora independente no fim dos anos 1990 significava lidar com uma estrutura muito diferente da atual. Antes das plataformas digitais, da fácil distribuição e da circulação acelerada de demos pela internet, transformar uma ideia em selo exigia acesso a uma rede de contatos, investimento, fabricação de mídia física, logística e uma presença consolidada dentro do mercado. Quando Maurizio Schmitz criou o nome mauromusica, em 1999, a intenção original já era desenvolver uma label, mas o momento ainda não oferecia as condições necessárias. Sem experiência suficiente e recursos financeiros, o projeto tomou outro caminho: antes de lançar discos, passou a existir como uma série de festas.

As primeiras edições aconteceram em Hamburgo, na Alemanha, antes da marca encontrar uma base mais sólida na cidade de Bonn, onde permaneceu ativa por mais de uma década. Depois de algumas experimentações, o projeto ganhou consistência à medida que formava público através de eventos que prezavam muito por uma boa curadoria. Ou seja, mais do que uma label de festas qualquer, a mauromusica se tornou um espaço de formação musical para uma geração de clubbers.

Isso, em partes, ajuda a explicar o formato escolhido para a estreia da gravadora, já que o primeiro lançamento nasce a partir de uma compilação cuidadosamente organizada. EINER REIN. EINER RAUS. reúne Raxon, RE-ST, JA:CK, Fedele, Radu Dracul e Sublee, artistas de origens e linguagens distintas, conectados por uma atenção comum à atmosfera, à composição e à construção narrativa das faixas. A escolha reflete a visão de Maurizio como DJ e selector: selecionar músicas para momentos diferentes e organizá-las dentro de um corpo coerente. “Venho de uma geração de DJs que via as faixas como obras completas e as conectava dentro de uma narrativa maior. EINER REIN. EINER RAUS. reflete essa ideia de forma bastante precisa”, afirmou. 

A sonoridade da compilação percorre zonas de house e techno, passando por faixas que funcionariam num warm up, outras mais melódicas, algumas com a cara de um bom after e, todas elas, sem exceção, são mais extensas, com tempo o suficiente para construir uma boa atmosfera. Bagamuda, que fecha o VA, ultrapassa os 15 minutos. A ideia central está em valorizar e preservar algumas características da música eletrônica que vem se perdendo com o tempo: a identidade de cada obra, sua profundidade emocional e a capacidade de permanecerem relevantes ao longo dos anos. “Como DJ residente, aprendi a abrir um club vazio e construir a história de uma noite inteira. É exatamente esse tipo de dramaturgia que quero refletir através do label.”

O cuidado com a parte física e visual também é algo que merece ser mencionado. A edição em vinil da compilação inclui arte do designer Tobias Rehberger, tipografia da Buero New York, acabamento com verniz localizado, insert em formato de print e capas internas impressas em quatro cores. Antes dela, Based in Space, de Raxon, foi apresentado em uma edição especial de pré-lançamento, limitada a 100 cópias coloridas e feitas à mão na Alemanha, esgotada em menos de duas horas. O disco, nesse contexto, não é apenas mais um formato para ouvir a música, mas sim parte fundamental da experiência oferecida pela label. “Para mim, música e design são inseparáveis. Especialmente no vinil, a música se torna tangível. Um disco pode ser muito mais do que um suporte de som, pode se tornar uma obra de arte e um item de coleção.”

Com a estreia da mauromusica como gravadora, Maurizio Schmitz retoma uma ideia que acompanhava o projeto desde sua origem, agora com maturidade e repertório suficientes para sustentá-la. Depois de anos em festas, residências e ambientes ligados à cultura de pista, incluindo sua trajetória no entorno da Cocoon e de Sven Väth, a label surge como uma continuação desse percurso. A diferença é que, agora, aquilo que antes existia na noite passa também a existir em catálogo, vinil, arte e design, com a intenção de fazer do selo uma extensão direta de sua história como DJ e curador. “A música está profundamente conectada à memória. Se um dia alguém pegar um disco da mauromusica na estante, ou ouvir uma das faixas e associá-la a emoções positivas, então o label terá cumprido seu propósito”, finaliza.

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