A carreira de Viot cresceu de forma relativamente rápida, mas não foi por conta de sorte ou acaso. Desde que o projeto solo começou a ganhar forma, em 2021, Lauro Viotti já trabalhava música e imagem de forma conectada, entendendo que essas duas características fazem parte da mesma conversa. O som veio primeiro pelo house, mas nunca ficou preso a essa única leitura. Aos poucos, ele foi abrindo espaço para referências de bossa nova, hip-hop brasileiro, pop, techno, moda, arte e tudo mais que ajudasse a construir o seu próprio universo. Agora, através do novo EP Flex/Cardio, que marca sua estreia pela Nu Moda Records, selo de Max Styler, Viot entra em mais uma etapa desse caminho internacional: crescer fora do Brasil, mas sem abandonar o som que realmente acredita.
Quando fala sobre a fase atual, Viot toca diretamente nesse ponto: “minha maior preocupação é conseguir internacionalizar minha carreira sem perder a minha identidade”, diz. A frase resume bem o momento em que Viot se encontra. Depois de conquistar espaço no Brasil, lançar por labels internacionais, tocar em clubs e festivais fora do país e colocar sua música nos sets de alguns dos principais nomes do house atual, o próximo passo não é tocar mais longe ou lançar em gravadoras maiores, e sim fazer isso sem abrir mão da forma como ele pensa sua música.
Isso vem de uma soma de experiências que começou bem antes dos lançamentos mais recentes. Viot fala da própria trajetória como um processo formado pelas primeiras festas, pelos projetos iniciais, pelos DJs de quem virou fã e por tudo que foi aprendendo dentro da música eletrônica. “Cada ponto foi importante: desde o meu primeiro projeto e as primeiras festas, até os DJs de quem me tornei fã”, conta. Em termos sonoros, essa identidade passa especialmente pelo house, mas sem ter uma regra definida. Viot se permite circular entre tech house, deep house, afro house, indie e outras variações, sempre tentando manter uma assinatura reconhecível. “Independentemente do estilo, o meu objetivo é sempre imprimir a minha identidade e usar as minhas referências para que o som soe como eu”, explica.
Isso, claro, também se reflete no seu trabalho de estúdio. Antes de chegar à Nu Moda, Viot já havia passado por selos como Hot Creations, Solid Grooves, Black Book, Higher Ground, Dawn Patrol e Nervous, além de lançar faixas pela própria Casa Bonita Records, gravadora criada em parceria com Brisotti. Tracks como FMF, Hypno, Pop It Low, So Far So Good, Space Cowboy, sua versão de Blitz (Você Não Soube Me Amar) e Anthem, colaboração com Vintage Culture, abriram novas frentes para sua carreira. Em paralelo, os suportes de nomes como Jamie Jones, Michael Bibi, The Martinez Brothers, BLOND, Marco Carola, Mochakk, Diplo, Loco Dice, Fisher, Vintage Culture e Carlita reforçaram esse movimento fora do país.
A Casa Bonita, nesse processo, tem um papel importante, porque além de servir como um espaço para os próprios lançamentos, também ajuda a organizar uma parte da visão artística do Viot. É uma extensão do modo como ele tenta construir carreira, criando um ambiente onde suas referências possam existir com mais liberdade. Quando ele fala em fortalecer a gravadora como parte do processo de internacionalização, fica claro que a ideia não é depender só da validação de fora, mas também levar uma estrutura própria junto.
O novo lançamento pela Nu Moda conversa com isso e chega também com bastante peso. Max Styler se tornou um dos nomes mais fortes da nova geração do tech house internacional, e chegar ao seu selo coloca Viot em uma prateleira conectada ao que vem circulando nas pistas globais. Ainda assim, Flex/Cardio definitivamente não é uma tentativa de adaptação completa a esse mercado; as faixas conversam com uma estética internacional, mas mantêm a forma como Viot trabalha seu groove, os vocais, e até a “sensualidade” de pista, não deixando de lado as características que o trouxeram até aqui.
Tudo isso acontece enquanto Viot vem ampliando sua presença em pistas dentro e fora do Brasil. Nos últimos anos, passou por palcos como Tomorrowland Brasil, UNVRS, Hï Ibiza, ANTS no Ushuaïa, Taraka (Ecuador), Brunch Electronik, Só Track Boa, NA*F, Greenvalley e Laroc, além de uma sequência de datas internacionais que ajudaram a ampliar sua leitura de pista. O convite de Carl Cox para tocar em sua residência no UNVRS, em Ibiza, também reforça esse lugar de artista brasileiro cada vez mais observado por diferentes núcleos da cena. Não é pouca coisa para um projeto que começou há poucos anos e ainda está em fase de expansão.
O que fica dessa fase é a imagem de um artista disposto a crescer fora do Brasil sem abrir mão da identidade do seu som. Flex/Cardio é mais um passo nessa direção: um lançamento que conversa com o circuito global, chega por uma gravadora em evidência e reforça uma ambição que não passa só por tocar fora ou lançar em labels maiores, mas por fazer com que sua visão de música também encontre espaço nesses lugares.