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A música conecta

O estilo inconfundível de Matthew Dekay

Por Elena Beatriz em Notes 06.02.2026

A importância de Matthew Dekay dentro do House Progressivo não está associada a um momento de explosão. Sua trajetória se consolidou com o papel de um produtor que atravessou diferentes ciclos do gênero sem romper com sua própria base. Em um campo onde o Progressive House por vezes foi absorvido por soluções cada vez mais midiáticas, Dekay manteve uma relação disciplinada com sua estrutura e densidade. Percebe-se que suas criações não são apenas funcionais para a pista, mas sim reflexões sobre como a música eletrônica pode ser um veículo de profundidade afetiva.

O holandês começou sua jornada musical explorando piano, sintetizadores e a própria mecânica do som desde muito jovem, o que moldou sua consciência sobre música como construção de espaços sonoros interligados. Essa base técnica, somada à vivência na cena eletrônica dos anos 90, criou um produtor com grande capacidade de síntese: ele absorveu elementos do Progressive Trance, da House melódica e até de texturas Ambient, reorganizando esses ingredientes em arranjos que articulam densidade, suspensão do tempo e tensão gradual, marcas que viriam a caracterizar sua assinatura sonora nos anos 2000.

Quando o Progressive House começou a ganhar destaque, bebendo das fontes do Trance e do House, as produções de Dekay já indicavam um afastamento das resoluções fáceis. Linhas de baixo longas, movimentos harmônicos lentos e percussões discretas desenhavam uma música pensada para funcionar em extensão. Não havia pressa em chegar a lugar algum, pois o percurso era o próprio conteúdo.

No início da década de 2000, Dekay começou a ganhar apoio de nomes como Danny Howells, Sasha e Deep Dish, o que atesta que seu trabalho entrou no radar de artistas cuja estética transitava entre o introspectivo e o progressivo. Embora não tenha se limitado a um rótulo, suas produções dessa fase — como Passion, Higher Thoughts e outras faixas lançadas em selos como Deep Records ou Electronic Elements — se destacavam por combinar grooves contínuos com melodias emotivas e estruturas que resistiam aos clichês da dance music comercial.

Esses primeiros anos não só consolidaram seu nome no cenário global, como também abriram caminho para uma qualidade difícil de encontrar em muitos produtores contemporâneos: a habilidade de manter relevância estética sem se submeter a modismos 

Em 2009, Dekay mudou-se para Berlim, um passo essencial para a sua carreira que o afastou das fórmulas mais tradicionais do Progressive House da época, encontrando no minimalismo uma maneira de maturar a sonoridade que havia construído até então. Foi nesse contexto que a colaboração com Lee Burridge floresceu, gerando obras como Wongel, que serviu de prelúdio para o que o mundo conheceria como a sonoridade da All Day I Dream, selo e produtora de eventos criada pelos artistas, em 2011, que redefiniu parâmetros do Deep House e Progressive House emocional e melódico.

Enquanto no clubbing tradicional a progressão muitas vezes se apoiava em construções de frenesi, tensão e liberação, o universo All Day I Dream propôs uma narrativa pautada na contemplação, linearidade e conexão com a natureza. Faixas como Für Die Liebe ou o clássico Lost in a Moment (adotado como nome de série global de festas da Innervisions) fomentaram uma estética de Deep e Melodic House emocional e expansivo, legado que hoje reverbera em muitas produções e eventos que valorizam a experiência sensorial integral.

Nessa fase, a música de Dekay abraçou definitivamente texturas mais terrosas, orgânicas e percussões que parecem respirar junto com o ouvinte. Se antes sua força residia na tensão gradual das pistas de club, em obras como Für Die Liebe, ele passou a explorar a “melancolia ensolarada” — um estado emocional que equilibra a alegria do momento com a consciência de sua transitoriedade.

O impacto de suas criações extrapolou os selos de nicho. O clássico Lost in a Moment, por exemplo, tornou-se um fenômeno cultural dentro da cena eletrônica; ao ser reinterpretado por Dixon e ganhar a chancela da Innervisions, a faixa unificou diferentes tribos, provando que a visão de Dekay sobre profundidade afetiva era universal. Mais recentemente, sua trajetória segue em uma busca por pureza sonora, seja explorando o Deep Tech em selos como o Oscillat, ou mantendo sua assinatura melódica em plataformas como a Siamese.

O legado de Matthew Dekay, portanto, é medido pela consistência de um artista que compreende a música como uma jornada onde a técnica serve à emoção, e onde o som, por mais complexo que seja, nunca perde sua humanidade.

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