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A música conecta

Raio X | Anderson Noise

Por Elena Beatriz em Notes 10.04.2026

Falar de Anderson Noise é falar de uma geração de DJs que precisou construir a própria possibilidade de existir no Brasil. Antes de a música eletrônica ganhar consistência, com festivais e clubs mais estruturados, sua trajetória já reunia elementos que depois se tornariam decisivos para a cena: da organização de festas em Belo Horizonte ainda no início dos anos 90, como Dancing Noise e Rave Noise, à criação do selo Noise Music e à presença em eventos que ajudaram a expandir esse circuito, como o Skol Beats e o Rock in Rio.

Ao mesmo tempo, sua atuação também passou por momentos que conectaram o que era feito no Brasil com grandes centros da música eletrônica internacional, incluindo passagens por espaços como o Turnmills e relações com nomes importantes da cena. Por isso, olhar para sua carreira não serve apenas para revisitar um nome longevo, mas para entender parte das transformações que ajudaram a dar forma à cultura clubber brasileira.

Este é o Raio X do Alataj.

O trabalho duro aflorou a vocação  

No caso de Anderson Noise, a relação com os discos começou cedo e de forma bastante concreta. Aos sete anos de idade, ao pedir dinheiro ao pai para comprar um disco, recebeu como resposta a proposta de trabalhar para consegui-lo. A partir dali, passou anos ajudando o pai a pintar paredes e transformando esse esforço em possibilidade de acesso à música.

Antes de existir reconhecimento e prestígio, para ele, a música já aparecia como algo a ser buscado com empenho real. Sua formação, portanto, não nasce apenas de repertório, mas de conexão direta entre trabalho duro, curadoria e desejo de fazer aquilo crescer.

O início em Belo Horizonte

Parte importante de sua trajetória passa pelo fato de ele ter ajudado a estruturar a cultura clubber em Belo Horizonte quando a música eletrônica ainda não dispunha da mesma centralidade que ganharia depois. A partir do início dos anos 90, ao produzir eventos como Dancing Noise e Rave Noise, ele passou a atuar não só como DJ, mas como agitador cultural. 

Belo Horizonte, além de ser sua cidade de origem, também é seu ambiente de invenção. As festas em locações inesperadas, a formação de um público nichado e a consolidação de uma assinatura própria mostram que o percurso dele não foi simplesmente o de sair de uma cena periférica rumo aos grandes centros, mas o de ajudar a construir densidade onde antes havia menos estrutura.

Clã Noise

Em um momento em que a figura do DJ ainda não estava associada a grandes estruturas ou equipes profissionais, Anderson Noise construiu algo pouco comum: uma atuação que envolvia diretamente sua própria família.

Durante os anos 90, suas festas e sua presença na cena de Belo Horizonte contavam com a participação constante do irmão, Alvinho, que o auxiliava na discotecagem, e da mãe, Mamma Noise, que atuava como anfitriã e parte ativa da organização dos eventos. Esse núcleo ficou conhecido como Clã Noise.

Em vez de separar vida pessoal e atuação na música, Noise integrou essas dimensões, criando um ambiente em que festa, trabalho e afetividade aconteciam de forma simultânea.

O poder de conectar 

Em diferentes momentos da sua trajetória, Anderson Noise esteve envolvido em conexões que ajudaram a ampliar o alcance da música eletrônica brasileira. Não apenas como DJ e produtor musical, mas como alguém que participava ativamente de encontros que faziam a cena avançar alguns passos.

Sua relação com Renato Ratier, por exemplo, se insere em um período importante de formação do D-EDGE, quando o club ainda consolidava sua identidade e seu papel dentro do país. Ao mesmo tempo, sua passagem pelo Turnmills, em Londres, o colocou em contato direto com um circuito que ainda era pouco acessível para artistas brasileiros naquele momento. Sem contar seu amplo número de colaborações, que vão de Milton Nascimento e João Carlos Martins, a Daniela Mercury e Lulu Santos, passando por Ken Ishii, Paco Osuna e Marco Lenzi. 

Ainda existem episódios mais específicos, como o momento em que uma produção de Renato Cohen chegou até Carl Cox a partir de uma articulação envolvendo o próprio Noise. Situações como essa ajudam a entender seu papel para além da cabine, como o de alguém que, em momentos-chave, contribuiu para aproximar o que estava sendo feito no Brasil de outros centros já consolidados.

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