Uma imagem ajuda a localizar 2016 na história recente da música eletrônica: celulares erguidos no meio da pista para descobrir pelo Shazam o nome da faixa que tocava. O DJ continuava apresentando o som, mas a descoberta não terminava no club. Ela seguia pela internet, entrava em outros repertórios e retornava a novas pistas.
Quando publicamos uma lista de sucessos de 2015 que seguem soando atuais, observamos o momento em que rádio, festivais, Spotify, SoundCloud e selos independentes começavam a dividir com maior intensidade a formação do gosto. Em 2016, essa transformação ganhou uma dimensão concreta: pela primeira vez, as receitas digitais responderam por metade do mercado mundial de música gravada, enquanto o streaming cresceu 60,4% e ultrapassou a marca de 100 milhões de usuários pagos. O consumo avançava rapidamente da posse de discos e arquivos para o acesso permanente aos catálogos.
Na escala comercial, a aproximação entre Pop e EDM continuava produzindo alguns dos maiores hits do mundo. The Chainsmokers apareceu duas vezes entre os dez singles digitais mais vendidos daquele ano. No circuito underground, porém, uma faixa podia alcançar importância por caminhos menos centralizados. Final Credits foi apresentada ainda inédita no Essential Mix de Midland e ganhou as pistas antes do lançamento; as versões de Operator feitas por DJ Koze circularam de boca em boca entre DJs; Transient se espalhou pelos clubs até tocar simultaneamente nas duas pistas do DC-10. Em São Paulo, a Mamba Negra transformava a experiência construída em suas festas em uma gravadora própria, inaugurada pelo Teto Preto com Gasolina.
Essas histórias mostram um período em que a internet não retirou da pista sua capacidade de consagrar uma música. As duas funcionavam em conjunto. Sets gravados, programas de rádio, SoundCloud, fóruns, Shazam, selos independentes e a circulação entre DJs ampliavam o alcance de faixas cuja força havia sido reconhecida primeiro em situações coletivas. O sucesso poderia chegar a um veterano como Mr. G depois de mais de vinte anos de carreira, acompanhar a transformação de Floorplan em uma parceria entre Robert e Lyric Hood, mudar a dimensão do Red Axes ou registrar a passagem do Bicep de um projeto nascido como blog para um dos principais nomes da música eletrônica britânica.
O repertório que emergiu desse circuito também não apontava para uma única direção. Disco, soul, melodic, house, techno e subgêneros conviviam com psicodelia, percussões, breaks e referências que não obedeciam a fronteiras rígidas. As oito faixas desta seleção ajudam a contar esse momento em que diferentes tempos, gerações passaram a conviver com maior liberdade. Dez anos depois, muitas dessas relações se tornaram parte habitual da música eletrônica contemporânea — e os sucessos de 2016 continuam encontrando espaço dentro dela.
Mr. G – Transient
Escolhida para marcar o 50º lançamento da Bass Culture Records, Transient deu a Colin McBean, após mais de duas décadas de carreira, um de seus maiores sucessos. No verão europeu, chegou a tocar simultaneamente nas duas pistas do DC-10 e terminou eleita a melhor faixa de 2016 pela DJ Mag. Há nela uma alegria madura, com certa melancolia ao fundo, que cresce sem depender de grandes momentos de impacto.
Red Axes – Sun My Sweet Sun
Primeiro lançamento de Dori Sadovnik e Niv Arzi pela Permanent Vacation. O resultado é percussivo, solar e psicodélico, com um groove que induz ao transe sem se acomodar em um gênero. Anos depois, a dupla reconheceu que a música mudou sua carreira, alcançou novos públicos e passou a funcionar em espaços muito diferentes.
Isaac Tichauer – Higher Level (Bicep Remix)
Em 2016, o percurso iniciado por Andrew Ferguson e Matthew McBriar no blog Feel My Bicep já os havia transformado em figuras centrais da nova House britânica. Ao remixar a original de Isaac Tichauer, a dupla preservou sua sensação de ascensão, mas a conduziu para uma mistura própria de expectativa, êxtase e melancolia. Entre Just e o primeiro álbum do Bicep, Higher Level registra um dos momentos do duo prestes a mudar de escala.
Låpsley – Operator (DJ Koze’s Extended Disco Version)
Quando ouviu Operator, DJ Koze considerou a música de Låpsley tão completa que não via razão para remixá-la. A saída foi imaginar uma versão de dez minutos que se revelasse lentamente, à maneira de Larry Levan, trabalhando livremente com os canais da gravação original. Antes mesmo do lançamento oficial, a versão de Koze já circulava como um fenômeno de boca em boca nas pistas. A faixa traz a sensação de um brilho nostálgico de algo que talvez você nunca tenha vivido.
Floorplan – Tell You No Lie
Lançada no ano em que Floorplan passou de projeto solo de Robert Hood a parceria com sua filha Lyric, Tell You No Lie integra Victorious, álbum que apresentou essa nova formação. Hood recupera Lovin’ Is Really My Game, na interpretação de Ann Nesby, e trata a disco com a mesma singularidade que fez dele um dos grandes nomes do techno. O resultado é uma faixa de alegria insistente e contagiante, capaz de transformar qualquer pista em uma celebração coletiva.
Traumprinz – 2 Bad (Metatron’s What If Madness Is Our Only Relief Mix)
2 Bad coloca duas identidades do mesmo produtor anônimo em diálogo: Traumprinz assina a faixa e DJ Metatron, o remix lançado no EP 2 The Sky, pela Giegling. As cruzes na capa desenhada à mão e as referências à fé aproximavam religião e rave por aquilo que ambas podem oferecer como ritual, comunidade e alívio. Em 2016, foi escolhida pela Resident Advisor como faixa do ano.
Midland – Final Credits
Final Credits apareceu primeiro no Essential Mix de Midland, em fevereiro de 2016, antes mesmo de ser lançada. Harry Agius aproximou uma gravação pouco conhecida de Lee Alfred do adeus amoroso de Gladys Knight & The Pips e encontrou uma forma rara de fazer uma separação soar eufórica. A música virou o grande encerramento daquele verão, tocada de Ben UFO a The Black Madonna.
Teto Preto – Gasolina
Gasolina condensou a pesquisa iniciada pelo Teto Preto como residente da Mamba Negra. A letra de CARNEOSSO já vinha se transformando havia cerca de dois anos quando, no fim de 2015, o grupo entrou no estúdio da Red Bull; Escrita por CARNEOSSO e produzida por ela, L_cio e Zopelar, a faixa traz violoncelo de Filipe Massumi e percussão de William Bica e inaugurou a Mamba Rec em agosto de 2016.
Em meio à ruptura política brasileira, transformou tensão, desejo e revolta em energia de pista. No clipe roteirizado e dirigido por Laura Diaz, Loïc Koutana dança diante da polícia durante uma manifestação em meio aos jogos olímpicos, tornando esse conflito ainda mais concreto.