Lançamentos

O primeiro EP da Mamba Rec incendeia o cenário com gasolina

Por José Augusto Castelán

Hoje venho aqui pra falar de um lançamento que vem dando o que falar Brasil afora. Provavelmente você já ouvir falar da Mamba Negra, uma festa que chama a atenção por diversos aspectos, seja sonoridade, público, os DJs que tocam no evento. Todos esses fatores contribuem para discussões relevantes ao meio eletrônico nacional, afinal não são todos que se sentem confortáveis dentro de um club com padrões tradicionais, não é mesmo? E também de uns tempos pra cá não só essas, mas várias questões relacionadas à cultura surgiram, e foram levadas para novos espaços de maneira a fomentar a discussão.

Como esse tipo de movimentação começou a ocorrer em diversas capitais, esse ano estamos conseguindo observar uma uniformidade maior, e no meio disso tudo uma crescente muito positiva de Techno, House Music, entre outros da família 4×4. Aqui eu poderia abranger diversos temas relacionados e te mostrar como isso vem se dando, mas hoje preste bem atenção nessas faixas que compõem o primeiro lançamento da Mamba Rec e além disso carregam uma mensagem sonora presente nas ruas e nas mentes dos jovens. Aperte o play e se liga só.

O Teto Preto é um grupo formado por L_cio nas drummachines, Zopelar nos sintetizadores, Carneosso nos vocais, e Bica no trombone e percussões. O grupo é residente da Mamba Negra e possui uma formação aberta à mudança, contando com participações de artistas como Carrot Green, Psilosamples, Manara, Benjamin Sallum (que já participou no Troally), entre outros, sempre com apresentações ao vivo, jam sessions voltadas para a livre improvisação. E quando falamos em livre improvisação é porque nesse caso as duas palavras são levadas ao máximo. Nas suas apresentações, o grupo desconstrói qualquer trabalho já lançado ou composição pronta e vai transitando entre timbragens, vocais distorcidos e percussões como cuícas e afins.

O EP mostra o quarteto em ótima forma, vindo com dois sons extremamente poderosos. “Gasolina”, a primeira faixa, vem se espalhando pelo Brasil como fogo selvagem e já demonstra de cara uma identidade sonora cuidadosamente lapidada. Perceba como essa faixa cria tensão e lhe causa arrepios pra logo depois te causar um certo alívio só pra repetir esse loop. A letra também é uma sugestão ao caos em que vivemos, um convite à rebelião necessária para que tenhamos cultura florescendo em todos os cantos.

Além disso, ela já ganhou um videoclipe, e acredito que ele traduz muito bem essa tensão através da performance visceral de Loic Koutana. O francês contorce sua musculatura de maneira inquieta ao longo do vídeo e em diversas localidades. Seja fazendo um molotov de tinta preta que é atirado em escombros, seja incorporando o som de “Gasolina” em plena Avenida Paulista ao lado de uma viatura da Polícia Civil, o performer aqui traduz com seu corpo uma série de sensações presentes em uma juventude inquieta e inconformada com um país que escolhe romper com sua estrutura ao invés de se repensar e traçar um plano para todos.

A faixa também foi remixada pelo Carrot Green (RJ) e está presente no lançamento em sua versão em vinil. Também saiu no EP uma versão de “Já Deu Pra Sentir” do Itamar Assumpção, que demonstra mais uma vez a identidade do grupo em suas composições. O kick é sobreposto por percussões e sopros intrigantes, a voz dança com linhas de sopro que vêm e vão, sintetizadores dão suas notas revezando-se com o som da cuíca, fazendo você praticamente deslizar pelos 10 minutos de faixa. Aqui o lançamento fecha com chave de ouro.

Mas acho que não poderia deixar de lado a capa do EP. Uma cruz robusta e preta em cima de um fundo branco que remete a uma estética punk, do it yourself, que parece oriunda da necessidade de transmitir arte da maneira mais crua possível sem se adaptar a esse ou aquele padrão. Cruzando a capa um traço que bifurca em uma das pontas, assim como o círculo usado no logo da Mamba Rec, representando a Mamba Negra. O desenho é hasteado por Loic Koutana no clipe de “Gasolina”.

Aliás você sabe o que é a Mamba Negra? Além de apelido do Kobe Bryant, ela é a cobra mais venenosa do continente Africano, mede de 2,5m a 4,5m, é também a mais rápida do mundo (pode se deslocar a 20km/h), seu veneno é 100% letal quando não tratado, e tem esse nome pois ao se sentir ameaçada revela o interior de sua boca, todo preto. No caso em tela, o lançamento do Teto Preto é mais um movimento dessa serpente que está espalhando seu veneno cultural por ruas em necessidade de mudança e liberdade real. A música conecta as pessoas!