Alataj entrevista Danny Krivit

Por Chico Cornejo

Pertencer a uma geração tão única e fundamental quanto aquela que estabeleceu as fundações da nossa cultura já é algo notável em si, mas conseguir manter-se como um de seus expoentes até hoje é um feito reservado apenas àqueles que a vivem da forma mais essencial e verdadeira. Entre estes pioneiros, Danny Krivit se destaca por ter se mantido entre os mais profícuos e versáteis de seus representantes por cinco décadas, produzindo e tocando de modo constante e consistente por todo o mundo. Uma trajetória excepcional por inúmeros motivos, todos já devidamente abordados em muitas entrevistas e celebrados em diversas oportunidades.

Então, o desafio que se pôs ao falarmos com alguém cujas credenciais e trajetória acompanham a própria criação de quase tudo que hoje nos faz dançar foi, essencialmente, não entendiá-lo. E, superada esta primeira provação, coube procurar extrair o máximo possível de anedotas, dicas, conselhos e experiências que somente essa sabedoria singular, curada e curtida em pistas lendárias e estúdios históricos, poderia nos prover.

O que resultou foi uma questionário que engloba alguns tópicos essenciais do fazer e curtir música. Um tão simples e franco que, caso tivesse sido realizado com qualquer outro artista, pareceria redundante ou mesmo piegas, mas como envolve alguém que viveu esta cena desde seus primórdios, torna-se um passeio pelos momentos mais importantes de sua formação. Um prenúncio adequado para o que nos aguarda em suas duas aparições em solo brasileiro no Rio para RARA e em São Paulo para o lançamento da LTDO, um projeto que é novo em sua proposta, mas que conta um seleto time local de amantes da House Music entre seus criadores:

Alataj: O sentimento – Após tantos anos envolvido nos vários aspectos daquilo que usualmente chamamos de uma cena – como alguém evita se sentir fatigado? Quer dizer, claro que sempre houve uma paixão verdadeira por trás de tudo isso, mas mesmo as melhores e mais longevas relações têm seus altos e baixos. Então, como você e a música parece sempre estar numa eterna lua-de-mel?

Quase 50 anos tocando… não posso dizer honestamente que não esteja um tiquinho fatigado acerca de uma ou outra coisa, mas sempre há um ‘toma lá, dá cá’. Logo no começo, o entusiasmo estava embalado em inocência e ingenuidade. Grande parte disso foi substituído por experiência e gratidão. Às vezes me vejo um tanto impaciente e farto, mas isso também se deve a um novo século e mudanças que se aplicam a praticamente tudo. Tenho muito mais responsabilidades hoje em dia, que acho fácil apreciar o que há de melhor dentre o que gosto e, ainda assim, incorporar algo novo. Mas, acho que novidade é algo relativo, o que é novo para mim é novo e isso inclui, hoje em dia, um monte de música antiga que estou ouvindo pela primeira vez na minha vida, já que há muito mais garimpo e busca do que estávamos acostumados. Amo o o que me encanta na nova música, mas eu me tornei bastante criterioso e tenho muito pouca paciência para música descartável. Assim, me volto mais para os valores de composição, arranjo e produção. Algumas vezes (eu sou muito peculiar, admito), curto música baseada em samples, mas normalmente é porque eles são usados de uma maneira que leve em conta esses parâmetros.

A visita – Claro que ter o privilégio de viajar através do mundo é um fator que mantém o fogo aceso, já que sempre deve haver um novo rincão a ser explorado e uma pista para se conectar. Você já esteve aqui – ainda que para um tipo muito diferente de evento, o que implica outro tipo de público e, consequentemente, outra vibe – então eu gostaria de lhe perguntar sobre sua ligação com nossa música e nosso público. Elas chegam a alimentar expectativas que você não teria em outras partes?

Viajar é algo exageradamente celebrado e não é o que mantém as o frescor das coisas. São as pessoas e a música, algo que pode ocorrer em qualquer parte do mundo, mesmo em casa. O Brasil tem sua própria e imensa cultura musical e isto é algo que nem todos os países possuem. Os DJs locais conseguem compreender e executar essa musicalidade muito melhor que eu. Eu pretendo me concentrar no que conheço e amo de verdade, que engloba uma variedade de coisas soulful que possuam energia e personalidade. E daí, se me sentir em casa, quem sabe um pouco de rock nessa pegada. Vamos ver aonde a vibe me leva, quanto mais em casa me sentir, mas à vontade fico…

A música – Agora que celebramos a chegada da House Music a sua terceira década de existência, assim como a Disco a sua quarta e assim por diante, dolorosamente começamos a encarar as realidades da vida e vemos muitas de nossas lendas partirem. E, para você, acredito que isto seja ainda mais difícil, já que muitos destes foram amigos e parceiros criativos. Chegando a este ponto em sua vida e carreira, há alguma oportunidade perdida da qual se arrependa? Sejam chances de trabalhar ou simplesmente tocar com alguém em algum lugar que deseja ter aproveitado?

É fato que perdi amigos e mentores queridos, mas eles também deixaram uma marca indelével em mim e, assim, de certa maneira, eles nunca partiram de fato. Quanto a arrependimentos… “eu poderia, conseguiria, iria”. Acho que fui extremamente afortunado e muito feliz com o que fiz até aqui. Atualmente acredito que, quanto mais se sabe, mas você descobre o quão pouco sabe. Ainda estou crescendo e a sensação é excelente!

O futuro – Deste lugar único em que se encontra agora, como você enxerga as coisas? Qual sua perspectiva sobre as mudanças que nossa cena, seja como cultura ou negócio, ainda pode enfrentar?

Em 1981 me perguntaram o que eu imaginava que tocaria para uma audiência jovem dali a dez anos. Bom, com certeza eu nem sabia que a internet ou a música digital estavam a caminho. Já era um DJ por bons dez anos e a ideia de tocar num club para viver ainda não havia se formado… Aí pensei “será que ainda vou estar tocando daqui a uma década?”. Então disse: “se estiver tocando para um público mais jovem em 1991, talvez eu oque algo bem similar a uma batida e um chiado e a molecada viria até mim perguntando onde conseguir aquele disco que precisavam desesperadamente ter. Não é bem onde vim parar musicalmente, mas não é muito distante das faixas que ouço ficando famosas ao meu redor”. Tudo é tão rápido e imprevisível para que eu possa prever ou antecipar. E só acelera, então você precisa manter seus ouvidos atentos e estar pronto para entender o que vier em sua direção. Crescer em NY me ensinou a amar a rapidez das coisas, mas tudo parece muito diferente hoje ainda, ainda que esteja apreciando muito tudo isso.

Os recursos – Você já chegou a se parar, enquanto testava ou entendia um novo software ou equipamento, e pensar “minha vida teria sido tão mais simples se estivesse comigo em 19XX?” Quando foi a última vez que se sentiu assim?

Honestamente, sempre me ocorre que minha vida costumava ser mais simples… mas não tanto. Eu ainda adoro tocar com vinil, mas não dá para trazer tudo comigo. Amo a liberdade de ter um acervo inteiro na ponta dos dedos. Amo o calor das fitas de rolo, ainda que as vantagens da edição digital sejam incomparáveis.

A técnica – Hoje em dia, dada a fácil disponibilidade de ferramentas que lhe permitem facilitar muitas das dificuldades envolvidas na mixagem, esse elemento fundamental do que o DJ faz se tornou relativamente mais fácil de dominar e, como resultado, acabou por ser elevado a um patamar de distinção de excelência. Isto afetou de algum modo o que faz na cabine ou mesmo como avalia o que os outros fazem nela?

Eu ainda adoro tocar com vinil! Ainda sou muito apegado a muitos dos modos que costumava fazer o que faço e a tecnologia daqueles tempos… mas também amo o que há de novo, a liberdade de ter quase todo meu acervo a meu alcance, fazer cópias de faixas sem qualquer perda e muitas outras coisas. O que sinto falta de tempos mais simples têm muito menos a ver com tecnologia, mas com uma mentalidade, Uma que pertence aos tempos em que tínhamos tempo livre, muito menos problemas de déficit de atenção (e aqui me incluo também) e quando o mercado imobiliário não arruinava tantas de nossas coisas mais estimadas.

A seleção – Agora nos resta apenas perguntar sobre o lado complementar daquilo que um DJ faz e algo que também foi profundamente transformado pelo tecnologia. Quanto à forma como constrói seus sets, ela foi mudada de forma significativa devido à mera quantidade de música que você consegue carregar por aí?

Sim, claro! Minha biblioteca é muito maior agora e eu realmente uso muito do que há nela. Posso até pensar um pouco mais sobre o que farei… mas eu toco muito baseado no calor do momento e na vibração que surge ali na pista. Desse modo, ocorre que muitos dos melhores planos podem ser descartados logo de início e me veja pensando em algo equivalente, ali de sopetão. Neste momento vejo que tenho uma liberdade muito maior de escolher dentre mais opções.

A atmosfera – Certamente este é um elemento que deve guardar como tão essencial quanto esses que acabamos de abordar como parte essencial do feitiço que é conjurado entre um DJ e seu público, ainda que seja inegável o quanto também foi modificado pelos novos recursos a nosso dispor. Sendo um artista cujo trabalho está firmemente fundamentado em versões de faixas que, muitas vezes, são muito peculiares e pessoais, você vê essa abundância como um obstáculo para o que procura compartilhar e criar junto a sua audiência ou apenas outro meio pelo qual ela se liga a sua música?

Bom, essa atmosfera… ela é feita basicamente da minha personalidade e ligação com o público, além da minha interpretação do que toco. As versões, muitas delas de minha autoria, mas também muito do que colecionei de outros talentos. Em suma, as ferramentas mais adequadas para tornar aquela experiência mais intensa, são o principal meio pelo qual essa conexão existe e não posso dizer que exista obstáculo algum.

Os modismos – Estar bem no meio de muitos dos acontecimentos que ajudaram a colocar NY na dianteira desta cultura de clubs que vivemos e amamos globalmente deve ter sido empolgante mas por vezes desconcertante na mesma medida. Mesmo assim, houve cenas ou movimentos que surgiram na cidade e que conseguiram lhe surpreender ou impressionar ainda que não estivesse diretamente envolvido com eles?

Tendo crescido no Greenwich Village, a música ao meu redor sempre me impressionou e influenciou muito. O estúdio do Jimi Hendrix que ficava literalmente no fim da rua da minha casa e trombar com ele a todo momento. Os Mothers of Invention morando no final no corredor de onde eu vivia, o vice-presidente da Polydor no apartamento acima do meu, o que me permitiu conhecer James Brown. Encontrar Janis Joplin, Charles Mingus, John Lennon e Yoko Ono no Ninth Circle. Curtir diariamente com um jovem Nile Rodgers. Creed Taylor Jr era meu melhor amigo na escola e eu passava o dia na sua casa, onde conheci Eumir Deodato, Hank Crawford e Stanley Turrentine. Quando minha mãe precisou arranjar um emprego e se tornou a presidente do fã clube dos Rascals, tínhamos um piano no qual eles basicamente escreveram muitos de seus grandes sucessos. Há muito mais, na verdade, mas melhor eu parar por aqui. Quanto ao DJing… o que toco desde o começo sempre foi bem enraizado, além de uma versão do meu próprio gosto pessoal e ele raramente seguiu tendências. Nunca fui muito de seguir modismos, já que procuro investir nas coisas em que acredito. Talvez uma das maiores surpresas para mim no decorrer dos anos tenha sido a capacidade das pessoas de aceitarem tanta falta de musicalidade… Ainda há muito música boa por aí, mas o pessoal tende a preferir efeitos aos conteúdos.

O ofício – Já falamos a respeito das transformações técnicas que tanto as relações entre os artistas e suas criações e o público e sua fruição sofreram no que diz respeito à música. Entretanto, como um artesão, você sente que seu trabalho tenha sido desvalorizado de alguma maneira?

Na verdade, não. Eu estou nessa já há um bom tempo e faço o que gosto. Não posso reclamar nem um pouco.

O groove – De forma sucinta, qual seria a definição mais acessível deste elemento ao mesmo tempo tão inefável e crucial para tornar uma faixa especial na pista? Seria um componente, uma combinação de muitos ou algo que existe em seu interior?

O groove tem sido uma parte essencial do que faço e ter tocado para patinadores provavelmente foi a melhor educação que eu poderia ter tido nesse sentido. Quando me conecto com o público é justamente quando encontro o groove que procuro.

A herança – Se pudesse se gabar acerca de algo a estas alturas – considerando as inúmeras maneiras pelas quais atuou até aqui – o que seria?

Estou me aproximando do grande marco dos cinquenta, então acho que apenas a longevidade em si, o fato de que pude fazer tanto o que amo por tanto tempo.

O retrospecto – Se vê pudesse se encontrar com o jovem pequeno Danny em qualquer ponto de sua vida e lhe dar algum conselho, qual seria e quando isto se daria?

Provavelmente um monte de toques sobre tantas coisas que nem fazia ideia que estavam ocorrendo. Talvez a mais importante seria uma educação gastronômica. Não tive muito acesso a informações valiosas sobre o que se come enquanto crescia e, como resultado, a maior parte da minha vida fui um garoto propaganda de hábitos alimentares insalubres. Mas, antes tarde que nunca, consegui mudar esse cenário recentemente e me sinto muito melhor comigo mesmo.

A MÚSICA CONECTA.