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A música conecta

Deixar o palco também é um exercício de saúde

Por Alan Medeiros em Sinal Amarelo 30.09.2026

Uma carreira de DJ pode durar décadas, mas isso não significa que o corpo, a rotina e as prioridades permaneçam os mesmos durante todo esse tempo. Depois de anos atravessando aeroportos, madrugadas, mudanças de fuso e finais de semana praticamente sem descanso, reduzir a agenda ou deixar as apresentações pode se tornar uma decisão tão importante quanto aquelas que construíram a jornada. Ainda assim, a música eletrônica fala muito sobre como chegar às cabines e quase nada sobre o momento de sair delas — ou simplesmente passar a ocupá-las com menos frequência. Pensar nessa transição também é pensar em longevidade e é isso que faremos no quarto e último episódio da série Sinal Amarelo.

A importância desse debate aparece também em alguns dados sobre permanência no setor. Segundo os resultados do UK Musicians’ Census, publicado no relatório da organização Help Musicians, entre os artistas que relatam níveis extremamente negativos de bem-estar psicológico, 42% afirmam ser provável ou muito provável que mudem de carreira nos próximos cinco anos. A precarização das condições de trabalho, o esgotamento e a dificuldade de enxergar perspectivas sustentáveis a longo prazo ajudam a colocar uma questão importante para o setor: como permitir que profissionais experientes transformem suas carreiras sem necessariamente abandonar a música?

Os gatilhos para essa necessidade de transição são múltiplos e frequentemente cumulativos. Um relatório independente da Comissão Europeia sobre a saúde de criadores musicais destaca problemas como lesões musculoesqueléticas, perda auditiva progressiva, tinnitus e burnout entre os desafios que podem comprometer a continuidade da atividade profissional. Investigações citadas no relatório europeu, como os estudos sobre o ciclo de vida artístico no paper Growing older in a symphony orchestra, de Gembris e Heye (2014), também apontam a faixa etária entre os 40 e 50 anos como um momento importante de transformação na relação entre músicos e sua capacidade de performance. Na música eletrônica, onde viagens frequentes, trabalho noturno e alterações constantes de sono fazem parte da rotina de muitos profissionais, pensar antecipadamente sobre essas transformações deveria fazer parte da própria construção de uma carreira longeva.

Além das questões físicas, existe uma dimensão identitária importante nessa transição. Como evidenciado no estudo Can Music Make You Sick? Measuring the Price of Musical Ambition de Gross e Musgrave e nas diretrizes da Associação para Música Eletrônica (AFEM), artistas podem desenvolver uma profunda identificação com seu papel profissional de performer. Quando a música e a presença no palco tornam-se parte central da identidade do indivíduo — “a música tornou-se quem eu sou” —, a ideia de afastar-se das cabines pode ser vivenciada com sofrimento, negação ou sensação de fracasso pessoal. Depois de décadas sendo reconhecido como DJ, quem esse profissional entende que é quando tocar deixa de ocupar o centro de sua vida?

A transição profissional, porém, não precisa significar o fim da trajetória na música. Uma das possibilidades discutidas na pesquisa sobre economia criativa é o modelo de carreira em portfólio. Estudos analisados no relatório da Comissão Europeia (2023), como o Portfolio Careers and Work-Life Balance among Musicians: An Initial Study into Implications for Higher Music Education, de Teague e Smith (2015), mostram como profissionais da música podem construir trajetórias compostas por diferentes atividades. Na música eletrônica, isso pode significar deslocar gradualmente o centro da carreira para produção, mixagem e masterização, gestão de selos, agenciamento, curadoria de eventos, educação ou outras funções do próprio ecossistema. A experiência acumulada durante décadas de pista não desaparece quando a frequência das apresentações diminui.

Para que essa mudança ocorra de forma mais segura, também é importante pensar em estruturas institucionais de apoio. A Recomendação nº 19 do relatório da Comissão Europeia (2023) orienta governos e entidades do setor a desenvolverem programas de reorientação profissional para músicos e profissionais da noite. O documento propõe capacitação para que artistas que não possam mais performar devido a limitações físicas ou mentais consigam migrar para outras funções da cadeia produtiva e aponta ainda para a possibilidade de profissionais experientes transmitirem esse conhecimento às gerações seguintes por meio de mentoria e prevenção.

Essa troca entre gerações toca em outro problema pouco discutido pela música eletrônica. Décadas de estrada produzem conhecimentos sobre audição, sono, ergonomia, limites físicos, saúde mental e organização profissional que dificilmente aparecem em um tutorial sobre discotecagem ou produção musical. Quando um profissional veterano encontra outras maneiras de permanecer na cena, parte desse conhecimento também pode continuar circulando. Deixar de tocar todos os finais de semana não precisa significar desaparecer do mercado, dos ciclos que você construiu. 

A música eletrônica construiu uma narrativa muito clara sobre como uma carreira começa e cresce, mas ainda fala pouco sobre como ela envelhece. Reduzir uma agenda, mudar de função ou até deixar definitivamente as cabines não precisa representar o capítulo em que uma trajetória fracassou. Pode ser simplesmente uma nova etapa dela. Uma cena capaz de pensar sua própria longevidade precisa aprender não apenas a abrir espaço para novos artistas, mas também a construir lugares possíveis para aqueles que já passaram décadas mantendo suas pistas em movimento.

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