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Special Series | Dixon e listas: o fim de uma era e o começo de uma nova?

Por Redação Alataj em Special Series 29.11.2017

Special Series é a nossa coluna sobre os principais nomes da dance music mundial,

Por Chico Cornejo

Um dos personagens principais de alguns dos momentos, marcas e músicas mais distintivos desta década que vemos chegar ao fim, Dixon pode ser considerado muitas coisas, mas certamente repetitivo não poderíamos incluir entre elas. Muitos podem achar sua musicalidade monótona, suas mixagens morosas, sua hexis estoica ou mesmo suas entrevistas mornas, mas o que marca toda e qualquer empreitada que tenha seu envolvimento é um absoluto senso de inovação. É através dele que vemos um DJ que pouco produz em termos de faixas autorais estar sempre em alta demanda e, por consequência, no topo de listas de preferência popular como a que o site Resident Advisor abasteceu por dez anos e, mesmo tendo papel central em sua notoriedade pelo mundo afora, decidiu recentemente dar fim.

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A votação em si sempre foi impelida pela popularidade de cada artista nos respectivos critérios, mas como o conteúdo do veículo em questão se concentra em estilos musicais específicos de um determinado espectro, o pleito também apontava para as preferências dos leitores e consumidores e de tudo aquilo que, segundo eles, vinha a definir a qualidade estética. Assim, uma curiosa confluência de parâmetros e correlatos, que englobava desde quantidade de contratações e, por consequência, de exposição, até rebuscamento estilístico e, complementarmente, prestígio entre o público da plataforma acabou por ditar muito do que ocorria no panorama musical como um todo e isto, previsivelmente, trouxe complicações. Tanto que os aspectos mais nocivos da dinâmica altamente endogâmica aí implícita se tornaram alvos constantes de críticas e levaram ao encerramento derradeiro das votações num movimento acertado por parte do RA tanto em termos éticos quanto comerciais.

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Convenhamos, as empreitadas de Dixon e, especialmente, de seu selo com a dupla do Âme, o Innervisions, se coadunaram com frequência com os rumos curatoriais ditados pela bússola de hype do portal desde sua ascensão ao panteão dos DJs berlinenses que encontraram projeção internacional. Tanto que houve momentos em que parecia que praticamente nada que o trio e suas empreitadas endossassem ou fizessem pudesse ser alvo de críticas muito ácidas ou mesmo contundentes e o louvor a suas iniciativas ressoava quase livre de dissonâncias pelos quatro cantos do planeta. E, para ele particularmente durante o período em que a listagem existiu, o resultado foi algo ímpar: nenhum outro DJ foi tão aclamado. Tetracampeão, assim como a seleção alemã de futebol em 2014, ele se consagrou indisputavelmente como o símbolo de uma geração e de sua plataforma predileta.

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Entretanto, pensar nisso como o fim de uma era tão-somente, ou como o início de um momento em que tanto ele quanto seus parceiros e o selo que criaram estariam jogados ao relento por conta da ausência de algo que os manteve até aqui seria um equívoco dos mais bisonhos. O que se viu nesta década de ascensão, foi que, a cada momento em que seus esforços eram incensados pela opinião pública, eles surgiam com algo ainda mais inovador, seja um evento único como a Lost In a Moment, uma coletânea sublime como The Grandfather Paradox, uma sequência impecável de lançamentos por todos os seus selos em sua própria distribuidora – incluindo a série Secret Weapons e o fenomenal Filomena (com o perdão do trocadilho) – parcerias artísticas revolucionárias como a que os levou a musicar ao vivo o clássico do cinema expressionista alemão O Gabinete do Doutor Caligari e, claro, realizar performances como DJs e músicos – aqui contando também o genial Henrik Schwarz, um dos principais trunfos que possuem no grupo – que estabeleceram parâmetros de excelência, duração e vitalidade que fizeram todos os demais segui-los ou imitá-los.

Percebe-se claramente que não é uma questão de Dixon ser um Midas, mas sim dele ser um ourives do mais alto nível cujo amor pelo ofício o colocou lado a lado com garimpeiros e lapidadores com quem compartilha muito mais que uma sonoridade, eles dividem uma visão. Quem está em contato com a House Music e sua presença germânica desde a virada do século, esbarrou em seu nome eventualmente como um dos afiliados dos monumentais Jazzanova e sua gravadora Compost, mais precisamente como A&R do sub-selo Sonar Kollektiv que acabou por lançar o debut de seus colegas do Âme e suas incursões musicais com o projeto Wahoo ao lado do vocalista Georg Levin. Desde sempre, seu estilo e de seus colegas foi extremamente distintivo e marcou uma guinada significativa nos rumos do coletivo como um todo, mesmo marcando a criação da Innervisions como a plataforma própria do grupo formado por ele, Kristian e Frank.

A autonomia conquistada a partir daí se imprimiu em todas as iniciativas do trio e se tornou parte central de sua identidade nos inícios do século. Dixon assumiu uma residência no Globusa sala dedicada aos sons mais houseiros no emblemático club Tresor de Berlim, fez apresentações memoráveis em festivais, registrou um podcast lendário para o Resident Advisor enquanto sua presença se tornava ubíqua entre os comentários dos usuários e a cada nova aparição consolidava seu renome e o de seus parceiros. Esta dinâmica seguiu não apenas constante, mas amplificada e intensificada por todas as frentes do que faz pelos anos seguintes, justamente aquelas em que foi elevado ao patamar mais elevado de consideração entre seus pares: uma outra residência no fabuloso e aconchegante club de Offenbach, Robert Johnson, uma sequência de episódios do Boiler Room como a que se tornou lendária no quarto de seu hotel am Amsterdam durante o ADE e, obviamente, garfou não apenas um, mas dois Essential Mix, sendo um sozinho e outro ao lado de Kristian, um seletor tão primoroso quanto ele.

E aqui fica claro que, como um bom ex-jogador de futebol profissional, tudo para ele decorre de um plano e uma estratégia, além de um imenso preparo. Uma característica que me ficou bem clara quando ele tentava me consolar, cheio daquela calma quase estoica dele, por conta da humilhação sofrida pela seleção canarinho frente à alemã na Copa do Mundo de 2014 – muito coincidentemente quando foi realizada primeira Lost In a Moment no Rio de Janeiro:

“Sabe, Chico, isso não foi feito do dia para a noite, mas foi o resultado de um plano, de um processo longo e bem estruturado. Depois da sova que tomamos na Eurocopa há dez anos, decidimos que isso não poderia se repetir. Trabalhamos a base, a tática e fomos aprendendo a cada novo jogo. Agora colhemos os frutos”

E aqui vemos exatamente o que o fim de uma simples lista significa para alguém cujos objetivos estão apenas na pista e na música que a alimenta. Agora só nos resta ver o que isto significa para nós na próxima ODD deste sábado.

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