The Brothers Beats

The Brothers Beats | Origens parecidas, caminhos distintos

Vou começar minha participação no segundo capítulo dessa série especial parafraseando meu parceiro Caio Stanccione: “Finalmente essa linda série de textos está saindo”. Já havia algum tempo em que eu e Caio falávamos sobre a importância de trazer a valiosa cultura do Hip Hop para o mundo da música eletrônica, já que, além de ser muito importante para a história da música e seu consumo em âmbito global, ambas estão muito mais entrelaçadas do que possa imaginar. 

Você clicou aqui e não entendeu muito bem do que se trata? Perdeu o primeiro capítulo? Facilitarei o caminho e pedirei um pouco mais do seu tempo para fazer essa leitura e voltar aqui – mas volte, né?

+++ The Brothers Beats | Hip Hop é Dance Music e Dance Music é Hip Hop

A primeira fase da jornada que estamos traçando mostrou que tanto o Hip Hop quanto a Dance Music são praticamente filhos da mesma mãe (a Disco Music), mas, assim como acontece na maioria esmagadora das famílias, cada irmão cresce com uma personalidade e experiência, o que faz cada um trilhar seu próprio caminho ao longo dos anos. 

Disse Caio e eu repito: “pode ser que na sua mente você enxergue óleo e água”, e não é pra menos. Os anos se passaram e o Hip Hop e a Dance Music rumaram para lugares diferentes, não apenas musicalmente, mas também culturalmente e é sobre isso que eu vou falar nesse momento. Como no primeiro episódio, te convido a ler este material curtindo a playlist que fizemos todinha dedicada ao The Brothers Beat – você não se arrependerá.

“It’s Tricky to rock a rhyme, to rock a rhyme that’s right on time”

Disco Music. Declínio. Artistas marginalizados dos subúrbios buscando novas formas de fazer sua arte. Nasce o Rap, nasceu o Hip Hop. Mas Laura, Rap e Hip Hop, não são a mesma coisa? N Ã O. Com letras garrafais e separadas para ficar gravado na cachola. O Hip Hop é uma cultura e o Rap está dentro dela. Juntamente com o estilo sonoro a gente encontra mais quatro pilares: o MC ou rapper, mestre de cerimônias que comanda as apresentações; o DJ, que tanto acompanha o MC com a construção de beats quanto faz o mix de faixas já existentes; as artes visuais através do grafite; e a dança, ou melhor, o famoso break dance.

O movimento do Hip Hop era 100% urbano, suburbano e buscava enaltecer artistas menos favorecidos em uma comunidade segregada em um ambiente social reprimido, dando a eles e elas o devido espaço na sociedade. Um salve especial para Afrika Bambaataa, apontado por muitos fãs e pesquisadores como principal idealizador que pregava a união entre os adeptos das diversas manifestações do movimento e também o fundador da primeira organização social a trabalhar com esse tipo de cultura: a Universal Zulu Nation.

Musicalmente falando, o Hip Hop, mais especificamente o Rap, deixou de lado as melodias alegres e meio chessy do Disco e trouxe beats secos e quebrados – beatbox – que se misturavam com as vozes dos MCs, que por sua vez traziam fortes mensagens em forma de rima. O Rap também poderia ser interpretado a capella, mas rápido e de forma a criar uma forma musical. Daí que RAP: Rhythm And Poetry (xablau). O termo – e a forma de expressão – foi trazido da Jamaica, mas ganhou suas particularidades dentro do contexto vivido naquele momento nos EUA.

O Rap é simplesmente uma forma linguística de resistência à transformação das realidades locais e globais que favorecem os grupos sociais mais poderosos. Ao mesmo tempo que traziam mensagens solidárias à comunidade dominada, também confrontava a violência estrutural exercida pelos opressores. O movimento como um todo cresceu fortemente na capital do mundo e, na metade dos anos 80, o Hip Hop entrou nas rádios, nas TVs, na MTV, atingiu as melhores posições no ranking da Billboard e presenciava uma crescente impressionante. 

Destaque para RUN D.M.C, grupo que teve um gigante impacto nesse crescimento, ganhando inúmeros prêmios e sendo até hoje um dos maiores representantes do estilo em toda a sua história. Aliás, é deles o trecho da música que está em destaque. Se você não conhece, apenas corra para ouvir.

O que nasceu em Nova York foi também ganhando força artisticamente em outras cidades e regiões dos Estados Unidos, principalmente no final dos anos 80, atingindo regiões próximas e logo depois uma infinidade de outros estados, cada um desenvolvendo seus próprios estilos sonoros e incorporando influências das culturas locais. Mas foi quando o Hip Hop chegou na Califórnia, mais especificamente Los Angeles, que a história mudou. Pela primeira vez a capital do mundo não era a única cidade do mapa do Hip Hop e outros artistas e grupos tomaram frente na mídia.

Junto com esses novos artistas da Costa Oeste americana vieram novas formas de se enxergar o Hip Hop e uma especialmente que impactou muito o público: o Gangsta Rap. Com letras violentas, beats um pouco mais lentos e mais melodias, o Gangsta Rap se tornou um sucesso absoluto e colocou artistas como N.W.A, Ice-T, Schoolly D, entre outros no topo das mídias e impulsionou a “divisão” do Hip Hop entre as costas Leste e Oeste do país originando a famigerada rivalidade entre West Coast e East Coast.

Ainda que essa pegada mais violenta tenha sofrido grande resistência por muitas figuras conhecidas do mercado da música, o estilo foi crescendo cada vez mais e seguiu ganhando outras roupagens. Daí pra frente o Hip Hop deixou de ser uma cultura suburbana e atingiu a grande massa de forma estarrecedora. Já não era mais apenas a música que havia entrado nas casas das famílias tradicionais, mas também o estilo, as vestimentas, o dialeto.

O Rap e a cultura do Hip Hop foram abraçados pelo mundo todo, ainda que a maioria dos seus representantes estejam ainda super concentrados nos Estados Unidos, o que não aconteceu com a Dance Music.

“Gotta have house music all night long”

Disco Music. Declínio. Artistas marginalizados dos subúrbios buscando novas formas de fazer sua arte. Nasce o House e o Techno, nasceu a Dance Music. Eu poderia ficar mais muitos parágrafos contando essa história, mas a gente vem falando sobre ela com muito afinco ao longo desses oito anos de Alataj. É claro que não vai passar em branco então bora dar aquela contextualizada nesse rolê.

Ao mesmo tempo que as comunidades suburbanas nova-iorquinas iam criando sua música através de ritmo e poesia, nascia outro movimento sonoro também lá e em Chicago, de outra galera também segregada, mas que não focou nas letras. O movimento político aconteceu através da dança! Sonoramente, ele partiu das experimentações com o que “sobrou” da Disco Music. Artistas como Larry Levan e David Mancuso lotavam o Paradise Garage, em Nova York, trazendo uma nova e mais intensa roupagem musical às pistas de dança.

E quem estava lá escutando esses mestres da discotecagem? Ninguém menos que Frankie f*ck*ng Knuckles, considerado o pai do House. Eu sei que você provavelmente sabe, mas não custa lembrar: o termo House se refere ao club que Knuckles tocava em Chicago, o The Warehouse – entendeu, né? Pois bem. Das experimentações dentro das cabines, os artistas também passaram a criar novas faixas dentro do estúdio e as características aqui eram faixas mais longas, com melodias repetitivas, cortes de vocais que já existiam, grooves, sons ácidos e por aí vai. Marshall Jefferson e DJ Pierre são grandes exemplos disso.

Já estamos na segunda metade dos anos 80 e a Dance Music se espalha pelos EUA e chega até Detroit. Lá os desdobramentos sonoros ganharam intensidade e nasce o querido 4×4 a.k.a Techno, que recebia toques melódicos do House, mas que em sua grande maioria abusava das sonoridades que saíam das máquinas. Jeff Mills, Kevin Saunderson e Robert Hood são apenas alguns nomes importantes desse período.

Diferentemente do Hip Hop, a música eletrônica foi ganhando ramificações de forma muito rápida. Logo após o House tivemos o Acid House, então o Deep House, então o Techno, então o Minimal Techno e assim por diante. Mais do que isso, a Dance Music se expandiu com muito mais rapidez, atravessou o oceano atlântico e chegou na Europa ainda no final dos anos 80. A partir de então iniciou-se um processo de solidificação da cultura da pista de dança de forma gigantesca. O Reino Unido foi o primeiro a abraçar a música eletrônica vinda da América, mas já tratou de dar sua cara para a música que produzia.

Ao mesmo tempo, lá em UK surgiam as primeiras raves e festas clandestinas que, misturadas com as faixas rápidas, contínuas e altamente eletrônicas, bocado de ilícitos e um soundsystem ensurdecedor, carregaram toda uma geração e espalharam a cultura PLUR (Peace –  Love – Union – Respect) por toda a Europa, transformando o continente no maior polo da música eletrônica no mundo. 

Sim, Nova York, Chicago e Detroit seguem sendo cidades-mães dos estilos e berço de notáveis artistas, festas e festivais até hoje, mas é inegável que em dias presentes as maiores referências em termos artísticos, clubs, labels e festivais estão concentradas em países como Alemanha e Inglaterra. Sendo assim, a Dance Music também passou a ter muito mais da cultura européia do que norte-americana. 

Assim como no universo do Hip Hop, a Dance Music dominou o cenário da música em nível global e também deixou de ser apenas um estilo sonoro, mas um lifestyle, uma cultura que rompeu barreiras da pista e está presente na moda, gastronomia,  artes visuais e por aí vai. Aliás, se você parar para notar,  Hip Hop e a música eletrônica são os estilos mais presentes na juventude contemporânea, ou seja, um foi pra lá, outro pra cá, mas no final ambos atingiram níveis de sucesso absolutos.

Seguiram caminhos diferentes, geograficamente e sonoramente, mas o romance permaneceu por toda essa história. Sempre teve um tico do Hip Hop dentro de uma faixa de música eletrônica e também o contrário. Mas esse papo técnico é pra quem entende realmente do assunto e eu não poderia nem me atrever a tentar escrever sobre o assunto. Como num bom back2back, passo o headphone para o Caio. See ya!

A música conecta.

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