Skip to content
A música conecta

Prospa: performando fora da caixa no main stage

Por Elena Beatriz em Trend 25.07.2025

Há algo curioso e instintivo na forma como Prospa evoca o passado. Não há caricatura ou um saudosismo hiperbólico, apenas um desejo de transmitir as coisas como elas eram, e fazer isso soar como algo que ainda está por vir. Harvey Blumler e Gosha Smith são amigos desde 2010, ambos criados em Leeds, na Inglaterra, uma cidade que, assim como Manchester e Sheffield, carrega uma herança da cultura de pista britânica. A dupla cresceu no século XXI, já após o auge da cultura rave e no início da hiper aceleração de informações, impulsionada pela popularização da internet. 

Sendo assim, com uma gama de opções e forte influência de gêneros como o Rock e o Hip Hop, a música eletrônica não surgiu como primeira opção. Blumler estudava bateria com interesse por Rock, enquanto Smith aprendia guitarra e se aproximava da produção de Hip Hop com influências de Jazz.

O direcionamento para a eletrônica se deu aos poucos: primeiro, através do Dubstep, depois por uma descoberta ao que chamamos de som clássico de pista, garimpando através vestígios digitais como samples antigos, arquivos perdidos, relatos em vídeo e demais plataformas. Este é o grande poder da internet quando você sabe como usá-la da melhor maneira: com tantas informações disponíveis, você pode se transportar para o tempo que quiser.

Foi por intermédio dessa conexão que, em 2013, Harvey e Gosha resolveram se unir enquanto produtores, oficializando a parceria como Prospa, desmembrando o Deep House enquanto ainda tateavam referências e construíam uma identidade em comum. Ao longo do tempo, essa química se refinou. Seus backgrounds distintos tornaram-se ativos valiosos na hora de compor e essa bagagem eclética fez com que seus sets e produções ganhassem uma assinatura própria: imprevisíveis, enérgicos, emocionalmente carregados. 

O ponto de virada chegou em 2018, com o lançamento de Prayer, faixa que capturou a atenção de público e crítica ao equilibrar camadas emocionais intensas, breakbeats dinâmicos, acid lines marcantes, vocais que flertam com clássicos da House Music e uma estética que apontava para o futuro ao mesmo tempo em que dialogava com o passado. Uma fórmula impossível de passar despercebida. Prayer, lançada pela Stress Records, funcionou não só como um cartão de visitas, mas serviu de ponte entre a herança da cultura rave e uma nova geração de ouvintes que, como eles, cresceu conectada ao passado por meio de fragmentos digitais. 

Em vez de mirar diretamente no circuito de festivais ou se moldar às tendências do momento, Prospa apresentou identidade com um som que, embora claramente dançante, carrega densidade emocional e uma proposta de presença plena, em uma espécie de revival com gosto de reinvenção, seguindo os passos de quem soube fazer isso com autenticidade e clareza, a exemplo de Daft Punk e Chemical Brothers.

Após o lançamento de Prayer, que projetou o duo para além da Inglaterra, eles começaram a visualizar a inserção de seus lançamentos em selos como Future Classic, assinando um remix para Flume; Technicolour (sub label da Ninja Tune), em parceria com KETTAMA; Southern Fried Records, com um remix para Armand Van Helden, da icônica faixa I Want Your Soul; Polydor Records e, mais recentemente, Circoloco Records, braço fonográfico da icônica marca de festas. 

A parceria com a Circoloco, um dos ecossistemas mais influentes da cena global, já vinha sendo trabalhada desde 2022, com inúmeras apresentações da dupla em seus eventos, incluindo b2bs com o DJ e produtor Skream e, posteriormente, a uma residência no verão da Circoloco no DC-10.

Contudo, essa aliança se fortaleceu em 2024, com o lançamento do EP If You Want My Loving (CLR 010), que conta com duas tracks: a faixa-título e a nominada Motions, ambas funcionando como uma ode ao legado da dance music, que traduzem a intensidade do clubbing em momentos catárticos, com samples e vocais que funcionam como pontes entre passado e presente.

A colaboração com a Circoloco continua se estendendo a outros lançamentos como a faixa Don’t Stop, que remete à House Music noventista, e as faixas This Rhythm e You Don’t Own Me, ambas contando com vocais potentes de RAHH, resultando em uma conexão direta com a energia de pista presente em warehouses do século passado.

Neste sentido, é válido mencionar a força da ambiguidade que o projeto Prospa carrega ao consolidar uma parceria como essa: o duo ocupa um espaço onde é possível circular entre o circuito alternativo e o mainstream sem abrir mão de uma assinatura artística clara. Um dos méritos dessa trajetória é provar que o diálogo com grandes marcas e estruturas globais não precisa significar diluição criativa. Pelo contrário: pode ser uma plataforma para amplificar as origens que sustentam uma proposta de trabalho.

É inegável o impacto que o duo tem projetado, seja em seus mais de 4 milhões de ouvintes mensais em plataformas como o Spotify; sua aliança robusta com a marca Circoloco; sua presença em festivais como Hide & Seek, Futur Festival, Glastonbury e Lollapalooza, e suas colaborações com grandes nomes.

No fim, Prospa não se limita a ser uma dupla com bons números e presença de palco. É um projeto que representa uma abordagem que acerta na medida o equilíbrio entre irreverência e invenção, como quem entende o que ainda pode ser dito a partir daquilo que já foi vivido e, desta maneira, aponta caminhos possíveis para o futuro da música eletrônica nos grandes palcos.

A MÚSICA CONECTA 2012 2025