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non-blasé – O que rolou de melhor na Round-Table session da THUMP em NY

O Festival de Musica Eletrônica do Brooklyn (saiba mais aqui) foi muito além de festar com uma ótima trilha sonora e o que rolou sábado (7/11) a tarde no escritório da Vice é prova disso. A THUMP, com o apoio da Novation Music, juntou algumas das pessoas mais influentes no mundo da música e da subcultura nova iorquina para uma série de palestras chamada Round-Table Sessions, de graça e aberta a todos que mandaram seu nome para a lista por e-mail. Os tópicos eram: A Tecnologia do Amanhã, A Mulher Invisível: Igualdade de Gêneros no Mundo da Música, O Que a Guerra de Streamings Significa para o Futuro da Música e a Cultura dos Bailes Drag em NY. Os convidados eram pessoas como Honey Dijon (uma DJ negra e transexual que toca um tech house bem diferente de tudo que você já ouviu) e o Morgan Steiker (Programador Senior do Boiler Room nos Estados Unidos), só para mencionar duas das pessoas incrivelmente talentosas que estavam lá.

Primeiramente gostaria de parabenizar a THUMP e a Novation Music por uma iniciativa tão linda e a Vice por ter aberto as portas do seu (mais do que lindo e bem decorado) escritório para uma plateia tão mente aberta. Assim que eu entrei as 5 da tarde (eu perdi o primeiro e o último painel, então só vou falar do 2o e do 3o tópico aqui) naquele ambiente com aquela energia, admito que me senti um pouco intimidada, assim como a maioria das pessoas que entram em um lugar recheado de gente muito mais cool do que você jamais vai ser, se sentiriam. Mas tomei coragem, entrei, peguei um chá preto em uma canequinha de Vice (me senti a jornalista tirando meu intervalo, admito) e sentei em um dos sofás (sim, sofás, nada de cadeira de plástico não meu amor) que estavam espalhados pela sala. Me senti em casa quase que assim instantaneamente. Os palestrantes estavam sentados no mesmo nível que a galera e quando terminaram de falar conversaram com todo mundo (tinham umas 30 pessoas) de igual para igual, dando dicas, opiniões ou somente conversando sobre as complexidades desse mundo tão criativo.

A palestra sobre a guerra dos Streamings (Spotify, Apple Music, Google Music, Soundcloud) foi fantástica e me ajudou a entender certas questões técnicas do mundo música que eu realmente desconhecia, mas a parte sobre igualdade de gêneros no mundo da música realmente me emocionou – por motivos óbvios de eu ser uma mulher jovem tentando me estabelecer nessa indústria, mas também porque as mulheres eram f***. Então hoje vou focar nessa parte da sesh, mas se alguém quiser saber mais sobre a outra palestra pode entrar em contato comigo pelo Non-Blasé, Facebook, Instagram, e-mail, cartas (por um mundo com mais gente que mandem cartas!!!), enfim como você preferir e eu te conto tudo que aprendi com o maior prazer.

A conversa sobre igualdade de gêneros começou com a Michelle Lhooq (uma das editoras da THUMP e a moderadora do debate) perguntando “porque é que existe um número tão pequeno de mulheres na indústria da música eletrônica?” Pergunta essa que foi seguida rapidamente por uma afirmação da própria Lhooq que essa suposição não passa de um mito. Existem muitas mulheres no mundo da música eletrônica, elas só não recebem tanta atenção como os homens. Todas as mulheres que estavam ali opinando sobre o tópico concordaram que, de fato, existem muitas mulheres criando música, mas que existem pouquíssimas no lado executivo da coisa e que o problema com os dois é a pouca visibilidade. Homens tendem a dar oportunidades de negócios para seus parceiros e pessoas que são parecidas com eles, portanto a melhor maneira de fechar esse gap existente entre os gêneros é falar mais alto. Mulheres façam com que sua música seja ensurdecedora para que te ignorar seja praticamente impossível. Não é que todos os homens odeiem as mulheres e não queiram que elas participem, é que a maioria nem nos escuta – o que ja é um problema, mas uma coisa de cada vez né.

O fim da discussão para a primeira pergunta foi marcado por uma das mulheres falando “bem então que se f*** vamos criar nosso próprio mundo.” O que deu abertura para a segunda pergunta: “como criar um ambiente positivo sem gerar isolação?” A Honey Dijon começou a resposta falando que todos sofremos juntos e que ter um mundo separado não vai mudar nada, nenhuma mulher quer que seu trabalho seja exclusivamente baseado em seu gênero. Porém, já pelo lado do suporte emocional essa ideia de um mundo feminino dentro da música eletrônica seria interessante para que meninas mais jovens possam ter uma perspectiva de que techno, deep house, house, e afins, não são coisas de menino. O objetivo final é ter mulheres tocando nas mesmas noites que os homens e sendo pagas o mesmo valor.

Algumas semanas atras a DJ Mag postou a lista dos toP 100 DJs de 2015 e somente uma dupla feminina conseguiu entrar no top 20: Nervo. Esse fato deslanchou uma série de reações, entre as quais um querido disse no Twitter que se as mulheres passassem menos tempo se arrumando e mais tempo produzindo talvez existissem mais nomes femininos na lista. Comentário esse que a Honey Dijon rebateu com excelência: “vocês já namoraram um DJ? Sabem quantas horas eles passam bagunçando aquele cabelo e escolhendo aquela camiseta preta? Pois é.”

Lhos então perguntou se algumas das mulheres – importante ressaltar aqui que as palestrantes consistiam de uma jornalista, uma DJ, uma produtora, uma publicitária e uma business woman todas do mundo da música eletronica – já tinha sentido na pele alguma forma de preconceito. Fiquei surpresa em ouvir que, segundo ela, nos dias de hoje não se ve mais nada tão absurdo, mas sim que o preconceito é percebido nos pequenos atos, como ter que se portar de certa forma, falar na hora que deixam você falar e se vestir de forma adequada. É quase como atuar ser você.

Feminismo é um movimento que procura a igualdade dos gêneros e respeito para todas as mulheres, incluindo todas as raças, identidade de gênero e classe, mas infelizmente, as vezes, o movimento parece falhar para com mulheres negras e transexuais por exemplo. Lhooq questionou como poderíamos resolver tão problema e a Dijon, sendo uma transexual negra tomou conta da resposta, durante a qual eu não sabia se aplaudia, chorava ou dava risada. Ela disse que a maioria das DJs de hoje em dia são meninas brancas e que existem diversas barreiras desconhecidas por elas. A única maneira de concertar isso é tendo conversas sobre o assunto, pois segundo a Dijon não existe UM jeito de ser você, todos temos uma jornada e precisamos da liberdade para contar nossas histórias. Exposição gera aceitação. Uma das mulheres, Janjay Sherman (criadora do Grit Creative), que é mulher negra também, disse que essa presença feminina e negra precisa se tornar normal e foi aí que a Dijon, de maneira bem educada, mandou a real. Ela disse que odeia a palavra “normal”, quem é que tem o direito de estabelecer o que é normal? O mundo da música eletrônica é baseado na criatividade do indivíduo e ela não quer que ninguém sinta necessidade de defender o direito que ela tem de existir e se expressar tornando quem ela é em algo normal. É nossa responsabilidade, como seres humanos, mas principalmente como mulheres, escutar, mas além de escutar também procurar, pelas vozes diferentes por aí. Dijon também aproveitou para falar que as mídias sociais, como Facebook e Instagram, mudaram o jogo para as mulheres, pois hoje em dia quem se importa se a revista X não está falando sobre você? Você pode falar sobre si mesma, você tem sua própria voz.

Todas as palestrantes concordaram que a melhor maneira de minimizar a diferença existente entre homens e mulheres na indústria é para que as mulheres que já estão dentro contratem outras mulheres talentosas, paguem mulheres, escrevam sobre mulheres. Seja a mudança que você quer ver no seu mundo e dê voz para outras mulheres, enquanto você grita o mais alto que pode por si mesma.

Assim que a palestra terminou, o tempo para perguntas começou e um dos homens da plateia perguntou sobre o problema da sexualização (ou seja o uso do sexualidade feminina na indústria.) As mulheres responderam que o problema não é a sexualização, mas sim quem a controla. Se uma mulher conscientemente tomou a decisão de expor seu corpo, pois se sente confortável assim, ou se uma mulher prefere tocar vestindo um casaco de pele, não importa, o que você cria é muito mais importante do que você veste e como você expõe seu corpo.

Depois que a palestra terminou, levantei para conversar com essas mulheres incríveis enquanto tomávamos mais um chazinho. Todas estavam super animadas para dar conselhos e dicas para meninas que, como eu, estão tentando se destacar na indústria. Saí do escritório da Vice com lágrimas de alegria nos olhos, percebendo que não só o feminismo está vivinho da silva – claro que não tão potente quanto gostaríamos que fosse, mas pelo menos estamos conversando sobre o tópico – mas que existe um grupo de pessoas, como aquele sentado nos sofás e dando risada, que estava aberto para conversar sobre o assunto. Afinal das contas você pode e deve ter fé na humanidade.

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Georgia Kirilov é estudante de jornalismo e história da arte e acredita que criar é um ato político. Escreve sobre as nuances e sutilezas no caleidoscópio da música eletrônica sempre colocando-o em paralelo com o contexto social e político dos locais por onde passa e explora.

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