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B20 | 10 acontecimentos mundiais que testemunhei e...

B20 | 10 acontecimentos mundiais que testemunhei e impactaram minha carreira

Ao longo dos próximos 6 meses, receberemos Paulo Boghosian para uma série especial de conteúdo aqui no Alataj. A B20 irá comemorar os 20 anos de carreira deste que é um dos ícones da cena eletrônica nacional e muito além de uma celebração pessoal, servirá como um resgate histórico de acontecimentos, profissionais e músicas que marcaram a nossa indústria criativa nas últimas duas décadas. Começamos com um revival de 10 acontecimentos mundiais que Boghosian acompanhou de perto e, de alguma forma, impactaram a sua carreira:

Depeche Mode – Touring the Angel | Sou fã de carteirinha de Depeche Mode. A banda que começou no ano em que eu nasci, teve várias fases e hits que marcaram época e tocavam frequentemente nas pistas, por conta da mescla da instrumentação com os sintetizadores e sons eletrônicos. Algumas das minhas preferidas são Enjoy the Silence, Behind the Wheel, Personal Jesus e Judas. Touring the Angel foi uma das maiores turnês do Depeche, onde eles tocavam vários clássicos. Foi o primeiro show que eu vi deles, mudou minha vida! O último foi o Global Spirit Tour ano passado no Allianz Park, em São Paulo.

Northern Exposure | Northern Exposure é o nome da coletânea do Sasha e John Digweed que fez história e deu origem a um novo nível de coletâneas mixadas que posteriormente continuou com os selos Renaissance e Global Underground. Northern Exposure trazia o melhor momento do progressive house, que na época tinha batidas mais rápidas e influência direta do trance, em mixes duplos muito bem construídos. Bucólicas e viajantes, as compilações da série foram a trilha sonora de muitos momentos da minha vida. A revista Rolling Stone elegeu a primeira edição como o 25º álbum mais importante da música eletrônica e a In the Mix considerou o 5º melhor mix de todos os tempos. Foi o ápice de dois ícones que me inspiraram muito ao longo da carreira: Sasha e Digweed.

Quero conhecer mais o lendário John Digweed!

Speed Garage | A música eletrônica é cíclica e passa por vários movimentos ou “hypes” ao longo do tempo. Em determinados momentos o som está mais progressivo e melódico, em outros mais grooveado, ou mais eletrônico, ou mais orgânico, e por aí vai. Nesses 20 anos de carreira já vivi vários desses movimentos, essas fases da música. Em alguns deles, nos que me identifico, procuro incorporá-los ao meu som, outros nem tanto. Citando alguns movimentos que foram relevantes e seus principais representantes, Speed Garage (Mj Cole), Eletrohouse (Trentemøller), Minimal (Arpiar), Soulful (Joey Negro) e por aí vai. Escolhi o Speed Garage porque é menos conhecido nos dias de hoje e certamente influenciou o meu som. Sem falar que vários clássicos do speed garage são tocados até hoje, como o Double 99 – Rip Groove tocado pelo Maceo Plex, ou os remixes de Armand Van Helden pra Cj Bolland e Tori Amos tocados frequentemente pelo Jackmaster. O Speed Garage pode ser definido pela releitura inglesa do Garage que originalmente nasceu em NY, combinando vocais e elementos soulful, com batidas fortes e rápidas, basslines do jungle e até baterias do breakbeat em alguns casos.

O maldito DVD do Fatboy Slim | “Maldito” é uma brincadeira, claro. Mas, o motivo da brincadeira é que por um ano, onde quer que o DJ fosse tocar, ele muito provavelmente recebia um pedido de música assim “Ainnnn toca aquela música do DVD do Fatboy?”. Foi uma das primeiras vezes que um CD/DVD de música eletrônica viralizou. O DVD era uma transmissão gravada ao vivo de um set do Fatboy em uma festa na praia de Brighton, organizada pelo próprio artista que era um herói local. A festa chamava-se “Big Beach Boutique” e era oferecida de graça. Na ocasião da gravação do DVD eram esperadas 60 mil pessoas, mas 250 mil apareceram. Para muitos, foi a prova de que a música eletrônica podia reunir multidões. O som fácil, com muitas influências do pop, e o estilo carismático do artista, eram uma perfeita porta de entrada pra quem não tinha tanta familiaridade com a música eletrônica. Mas Fatboy tinha também o seu lado mais conceitual visto nos seus primeiros álbuns pelo selo Astralwerks. Então ele agradava a gregos e troianos. Eventualmente, por uma dessas ironias da vida, acabei sendo convidado para fazer warmup pro Fatboy em uma das suas primeiras turnês no Brasil, que aconteceu no Ibiza, Balneário Camboriú, em 2006, e foi recorde de público da casa.

Trainspotting | Não fosse por Trainspotting 2, a segunda edição do filme que saiu em 2017, uma boa parte dos leitores não saberiam o que é Trainspotting. Estamos falando do original, o filme estrelado por Ewan McGregor que caracterizou a cena clubber do Reino Unido na década de 90. Lançado em 1996, o filme tinha como música tema Underworld “Born Silppy”, que virou um clássico; e contava a história, com pitacos de humor negro, de um grupo de jovens escoceses, viciados em heroína, que frequentavam clubs de música eletrônica e raves. Ao mesmo tempo, o filme tinha um aspecto dramático ao tratar de temas como a depressão e a pobreza nos subúrbios de Edinburgh. Na minha opinião esse filme e o Berlin Calling, que retrata a vida do produtor Paul Kalkbrenner são os principais filmes da cultura eletrônica. Infelizmente ambos vêm com uma associação muito grande com drogas, um preconceito/pré-julgamento que atinge a música eletrônica em cheio.

Camel Connection – BASE | Camel Connection era um selo mundial de uma marca de cigarros que levava DJs para tocar em diferentes países. No Brasil esse projeto acontecia no Club BASE, dos sócios Angelo Leuzzi, Ricardo Roman, Luiz Eurico Klotz e João Paulo Diniz. Era a primeira vez na cena brasileira que os melhores DJs do mundo vinham se apresentar regularmente. Vieram Danny Tenaglia, Sasha, Paul Oakenfold, Paul Van Dyk, Mr. C, entre outros. Era o primeiro club de música eletrônica que reunia clubbers, playboys, manos, héteros, LGBT (na época usava-se GLS), enfim todas as tribos, como a house music ensinou. Pra mim foi um dos maiores clubs da história de SP e uma época que me deixa nostálgico toda vez que eu lembro. O residente da BASE era o meu amigo Buga, que foi quem me ensinou a tocar e me deu o primeiro disco. Eu ia toda semana ouvi-lo tocar e podia olhar o club através da cabine, do ponto de vista do DJ. Ficava observando como era pilotar uma pista, e como os gringos tocavam. Saia do club e ia direto para o colégio, com uma lata na mão de uma bebida nova que poucos conheciam, chamado energético. Foi ali que começou minha vontade de me tornar um DJ. Até hoje me refiro ao Buga, que continua sendo um grande amigo, como padrinho.

O CDJ 2000 | Em 1999 comecei tocando com vinil. Existem poucos prazeres na vida que se comparam a comprar discos. Todas as terças-feiras, que era o dia da semana que chegavam os discos, íamos as lojas na galeria Ouro Fino, principalmente a Rhythm Records, onde já estavam separados atrás do balcão os discos mais difíceis de conseguir. Passávamos horas ouvindo um por um. Em viagens então, a emoção de ir em uma Blackmarket ou Phonica Records em Londres, ou Hard Wax em Berlin, ou Rush Hour em Amsterdam, era indescritível. Hoje a tecnologia mudou tudo. Por um bom tempo os toca discos Technics pararam de ser fabricados e os CDJs tomaram conta. Era muito comum para o DJ ir tocar em um club e se deparar com toca discos em mau estado, pulando ou reverberando. A maioria dos DJs acabou migrando para o CD ou computador, e posteriormente pen drive. Se por um lado, perdeu-se o ritual da ida as lojas de disco, por outro ganhou-se em praticidade e recursos. Se antes pagava-se 50 reais por um disco, hoje compramos uma música em uma loja online por 2 dólares, sem precisar se deslocar e fazendo pesquisa sem sair de casa. Ao invés de carregar um case lotado de discos, levo meus pen-drives no bolso pra gig; fora toda a capacidade de loopar e editar as músicas ao vivo que os CDJs permitem. Méritos pra Pionneer por liderar essa revolução. O CDJ 2000 hoje é o que era a Technics SL1200 lá atrás, padrão em todos os clubs e riders.

Ibiza | Ibiza é muito mais que um acontecimento, é o destino oficial da música eletrônica ha mais de três décadas. Quem frequentou na década de 90 fala que era muito mais legal, e quem frequentou na década de 80 fala que era melhor ainda. Ibiza está em constante metamorfose, mas em nenhum momento abandonou suas raízes hedonistas e seu vanguardismo musical e comportamental. Daria pra escrever um livro de estórias sobre Ibiza, alias já existem vários excelentes como o de 25 anos da Pacha (chama-se El Baile e eu tenho uma cópia na sala de casa). Daria pra falar também da Amnesia, da Space que fechou recentemente, da Privilege, do Circo Loco e por aí vai. Fato é que a primeira vez em Ibiza mudou completamente a minha carreira, e certamente muitos DJs tiveram essa eureka. Cheguei em um dia do verão de 1999, deixei as malas no hotel e fui direto pro famoso terraço da Space (hoje é onde fica a Hi). Era um fim de tarde e o Erick Morillo estava tocando um clássico do Masters at Work chamado “To be in Love”. O sol se punha, o terraço fechava e todos iam pra dentro onde naquela ocasião estava tocando Sasha, um som mais dark progressivo misturado com Techno. De lá para cá foram várias idas para Ibiza, e apesar da ilha ter mudado muito, ainda é possível encontrar a sua essência, se você for nos lugares certos e fugir dos “tourist traps”.

Logical Progressions / Progression Sessions | Logical Progression é o nome dado a um projeto do LTJ Bukem e MC Conrad, ícones da cena Drum&Bass, do início da década de 90. Começou como uma faixa, se tornou uma importante série de compilações no selo Good Looking records e se consagrou com tournées com apresentações de encher os olhos. Eram sets gravados de forma diferente, com o DJ (LTJ Bukem) tocando seu set ao vivo e o MC Conrad no microfone cantando em cima na base do improviso. Esses caras tinham uma sonoridade única, com timbres e melodias atmosféricas e jazzy, muito a frente de seu tempo. Foi apelidado na épica de “inteligent drum&bass”. Nunca cheguei a tocar esse estilo de som, mas já acompanhei bastante, até porque o Brasil tinha uma cena muito forte de D&B encabeçada pelo DJ Marky que é uma verdadeira lenda, mundialmente respeitado, e outros nomes relevantes como Patife, XRS, Ramilson Maia, e o próprio Ney Faustini. Foi uma cena que certamente influenciou minha sonoridade.

Daft Punk – Homework | Encerro essa lista com um dos mais importantes álbuns da música eletrônica, Homework, do Daft Punk. O primeiro álbum deles gravado em 1997 que deu origem a vertente “French House” mas que na verdade é um daqueles álbuns que foge de qualquer limitação imposta por um determinado gênero. Encabeçado pelo gênio Thomas Bangalter que também esteve por trás de clássicos do selo Roulê como “Stardust-Music Sounds Better With You”, ou o famoso EP “Trax on Da Rocks”, esse álbum é cheio de bombas como “Da Funk”, “Alive”, “Revolution 909” e a famosa “Around the World”. Já a track “Teachers” humildemente homenageia alguns dos principais artistas da história do house. Acho que nem eles imaginavam na época que entrariam pra lista. São tracks criadas de maneira simples e inteligentes. Alguns descrevem como post disco boogie pela influência de loops do disco, que eram misturados com timbres modernos e eletrônicos. Difícil de descrever, esse álbum é um daqueles que deveria ser lição de casa ouvir para todo mundo que quer se envolver com música eletrônica.

A música conecta.

+++ Ouça 16 faixas que marcaram a trajetória musical do Warung em seus 16 anos de vida.


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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