Alataj entrevista Kultra

Se o lançamento de um álbum pode ser apontado como o ápice da manifestação criativa de um artista, 2019 é um ano especial para os irmãos Mohamad e Tharik Hajar. Juntos eles formam o Kultra e lançaram, em fevereiro deste ano, Cosmic Dawn, debut álbum do projeto assinado pela AiA Records, gravadora gerenciada por Aninha.

O disco de 9 faixas originais e inéditas oferece um passeio amplo e variado pelo techno com abordagem melódica. Dos 100 aos 140 BPM, Cosmic Dawn também visita o electro enquanto emana energias que variam da melancolia a introspecção, com ápices épicos e narrativas ricas em sentimento.

Logo após o release, nós tivemos a oportunidade de conversar com os irmãos Kultra. O bate-papo tende não somente para esfera da produção musical – apesar de tê-la como foco – e destaca também a retirada de Tharik das pistas, mantendo a rotina de discotecagens apenas para Moha. Confira o resultado deste encontro virtual abaixo:

Alataj: Olá, Moha! Tudo bem? Sempre um grande prazer falar com você. Após alguns anos de Kultra ao lado de seu irmão, Tharik, este ano você embarcou em uma nova fase, liderando o projeto de forma solo. Pessoalmente e profissionalmente, o que esse momento tem representado?

Moha: Olá, tudo ótimo! Então, a nova fase está acontecendo especialmente nas pistas, já que em estúdio o Tharik ainda mantém-se ativo e essencial para o processo. Essa decisão foi tomada pelo momento que ele vive em sua vida pessoal, estudando uma nova profissão. Para mim representa um grande desafio, por mais que eu já estivesse mais envolvido que ele com o lado DJing do projeto, subir ao palco ao lado de um grande artista de confiança te dá mais segurança do que subir ao palco sozinho.

E você, Tharik, como tem passado? Cosmic Dawn, recente álbum do Kultra lançado em Fevereiro, apresenta uma intensa jornada pelo techno e outras variáveis da eletrônica ao longo de 9 faixas originais e inéditas. Na sua visão, qual a grande mensagem que este álbum busca transmitir?

Tharik: Tudo tranquilo por aqui! É difícil tentar traduzir para o português o que nós tentamos expressar no álbum, tendo em vista que considero que a música é um meio mais capaz para expressar algumas questões do que linguagem escrita. Mas quem não arrisca não petisca, certo? Duas das principais influencias para a estética do álbum foram o filme 2001: Uma Odisseia no Espaço e a série de 2004 Battlestar Galactica. Nessas duas obras, um ponto central é o questionamento do que faz de nós realmente nós através da introdução de inteligências artificiais extremamente antropomorfas, assim borrando a linha tênue que separa o que é humano do que não é. Tentamos de alguma forma transmitir através do álbum as inevitáveis angústias e revelações que acompanham este questionamento.

Nos últimos anos você, enquanto Moha, tem se envolvido com iniciativas importantes e de grande relevância para a cena de Curitiba, do Paraná e do Brasil como um todo. De que maneira tem sido possível utilizar essa experiência adquirida em prol de uma evolução artística e musical para o Kultra?

Moha: De diversas maneiras. Fazer parte da equipe do Club Vibe e da TribalTech foi essencial para que eu me tornasse conhecido e respeitado na cena nacional, o que rapidamente se complementa por eu estar à frente do detroitbr, um coletivo com grandes contribuições para a cena underground do sul do país. Isso tudo abre portas e atrai a atenção das pessoas para o Kultra, o projeto musical que justifica todo esse meu envolvimento com a cena musical brasileira, sem contar a experiência absorvida ao assistir tantas apresentações artísticas e poder conversar com grandes artistas nacionais e internacionais.

Aprofundando mais na parte musical que tange a jornada do Kultra, percebo que sempre houve uma preocupação sua em trabalhar a música muito além de sua superficialidade. Dito isso, sob qual ótica você tem olhado para os trabalhos do projeto no passado e qual a expectativa em relação ao lugar do Kultra no mundo da música em um futuro não muito distante?

Tharik: O nosso processo criativo é majoritariamente orgânico, o que torna difícil prever onde estaremos no futuro. Mas pode ter certeza que o que virá sempre terá novas experimentações na nossa eterna busca por novas formas de se expressar.

Transmitir sentimentos me parece uma de suas grandes habilidades enquanto DJ. De forma direta e objetiva, como você busca traduzir esta iniciativa para o dancefloor? Conhecer a pista é primordial para que haja uma boa conexão sentimental entre as partes ou o momento em si é muito mais importante?

Moha: Tudo é importante, cada pequeno detalhe influencia no resultado final, desde a interação do público com a divulgação do evento até as situações que irei viver pessoalmente antes e durante a festa. Conhecer a pista com certeza é uma das variáveis mais importantes para o resultado final, tanto que sempre que estou tocando pela primeira vez em algum lugar eu pesquiso sobre ele, converso com DJs que já tocaram nele e tento sempre chegar o mais cedo possível, para fazer a leitura in loco e decidir qual será o ponto de partida. A pesquisa dos dias que antecedem a gig é muito importante pois ela é feita com a gig em mente, geralmente nela que garimpo aquela música que vai cair como uma luva no clímax da apresentação.

Tom, harmonia e ritmo dizem muito sobre a emoção que a música pode causar no corpo e coração dos ouvintes, certo? Pra você, é mais importante fazer uma música que seja tecnicamente perfeita ou que toque a coração do maior número possível de pessoas?

Tharik: Os grandes jazzistas nos ensinaram que a imperfeição cumpre um papel vital na expressão através da música. Uma leve desafinada em um linha onde um cantor está cantando sobre a tristeza vai transmitir essa mesma tristeza de forma mais visceral do que um tom sustentado perfeitamente. Na música “convencional”, por assim dizer, o artista busca através do treino suprimir as imperfeições intrínsecas à interface corpo instrumento, para que eventualmente possa deixar passar apenas as imperfeições que acredita que vai contribuir para o sentimento que está transmitindo. Já nós na música eletrônica começamos com métricas e tons perfeitos inerentes às máquinas que utilizamos. Assim, boa parte do desenvolvimento do artista de música eletrônica se dá na busca pela introdução de variações orgânicas nas nossas composições, tentando assim deixá-las mais humanas.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

Moha: De uma maneira figurada, posso dizer que a música é a palavra de Deus em minha vida. É ela que me dá energia e é por ela que eu vivo. É ela que eu ouço quando acordo, quando dirijo pro trabalho, quando quero ter um momento especial, até mesmo antes de dormir. Ela é a minha linguagem espiritual e eu não faria o menor sentido sem ela.

Tharik: A música permite emular qualquer sentimento que nós somos capazes de sentir, e sentir é o que faz de nós humanos. Pra mim a música torna cada momento de vida mais intenso, o que faz com que cada segundo valha mais a pena.

A música conecta.

+++ “Música representa uma parte muito importante na existência do mundo”. Leia nossa entrevista com Adriatique.

 


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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