Assim como tudo na vida se transforma com o tempo, a arte também evolui, se constrói, reconstrói e caminha para novos horizontes conforme o cenário e a capacidade de auto interpretação do artista. Na música não é diferente.
Com a tecnologia avançando, novas vertentes, timbres e sonoridades conduzem o artista a adaptar-se às novas realidades, ressignificando sua assinatura musical juntamente com sua forma de expressão. No entanto, a capacidade de se reinventar sem perder o laço com a própria identidade é a grande sacada para manter viva a chama do sucesso.
Conversamos com alguns dos grandes expoentes da música eletrônica nacional para saber como eles integram a reinvenção em suas carreiras sem perder de vista a conexão com a sua verdadeira essência. Participam deste Talks DJ Glen, Soldera, Ella Whatt, Pirate Snake, tarter e Gabriel Evoke.
DJ Glen

O grande elemento propulsor da evolução humana é a dúvida, é só parar pra pensar e, talvez até, duvidar disso. A própria tecnologia inserida no nosso meio me faz reavaliar métodos de produção e execução periodicamente, a evolução dos estilos está diretamente relacionada com o avanço da tecnologia, que às vezes até engata a marcha ré e volta no tempo, como, por exemplo, o boom que tivemos na síntese modular na década passada, e continua crescendo…
A arte sempre duvida de si mesma e faz sua evolução ser uma linha sinuosa que revisita antigas tendências e jogam elas pra frente de maneira que temos que entender e agir da mesma forma em nossos universos. Acredito que para não perder a essência precisamos sentir e ser honestos com estes sentimentos, realmente amar a música e todo seu universo, caso contrário sua essência pode ser outra também.
Soldera

A primeira coisa que precisamos saber antes de entender para onde vamos é de onde viemos e onde estamos. É importante sairmos do modo automático e fazer uma auto-análise para reiniciarmos o sistema e fugir de coisas que estavam nos prendendo, seja por comodismo, ego ou persistência em coisas que já ficaram ultrapassadas. No meu caso, na pandemia, eu fiz isso. Me desliguei de tudo, fiz uma imersão profunda para entender o que realmente eu tenho tesão de fazer. Voltei ao começo e refleti nos pontos cruciais que me levaram a ter minhas conquistas e, a partir daí, descobri que todo mundo tem sua própria cultura e dela não tem como fugir.
Falando de mim, eu sempre fui ligado à House Music e fui flertando com outras vertentes, desde 2011, quando tudo começou a acontecer no Deep House, pegando a onda de Solomun, Jamie Jones, etc. Depois de 10 anos é o que está fazendo minha vibe hoje. Claro que não conseguimos repetir o Deep House do passado, mas esse Afro/Organic House vejo com muitas propriedades do que tinha lá trás, com um toque mais moderno e futurista. Então acho que é isso, temos que estar antenados com a galera mais nova, observar e analisar tudo o que rolou no passado e, na música, entretenimento e vida, é tudo muito cíclico, muitas coisas dos anos 70, 80 e 90 voltaram nos anos seguintes, e eu acredito que na minha carreira ao longo dos anos tem sido assim também. Hoje estou produzindo músicas que fizeram minha cabeça anos atrás e é isso que vou tentar trazer agora em todas as esferas que eu atuo, como na gravadora e produtora de eventos.
Grazi Largura [Ella Whatt/Drunky Daniels]

Posso falar que tanto com o Ella Whatt quanto com o Drunky Daniels, os projetos vivem em constante mudança e o princípio de tudo é gostar muito do que está fazendo.
Se reinventar é um processo natural em artistas que almejam atuar por anos em suas profissões, seja discotecando ou produzindo música. É algo necessário e bastante desafiador porque necessita muita atenção já que não existe uma fórmula mágica, e ao longo do tempo pode ser que tu se perca com tantas mudanças. Por isso é de extrema importância que a gente sempre se questione, acho que a dúvida pode ser nossa maior aliada para nos tirar da zona de conforto.
Ampliar o olhar, abrir os horizontes, e claro, fazer sempre o que acredita e ama. A gente não precisa simplesmente “abandonar” para se transformar, ao invés disso, que tal mudar sem esquecer os valores que te trouxeram até onde tu estás? Ser fiel a ti mesmo é o início de tudo, e na sequência mudar alguns processos e estar aberto a andar por novos caminhos.
Pirate Snake

Eu sempre curti muito House Music, Disco, Jazz e Soul. Minhas maiores inspirações são artistas relacionados a algum desses gêneros, ou seja, das antigas. Então em toda a minha caminhada musical, independente do gênero principal que eu estivesse tocando e produzindo, sempre teve muuuuuuita coisa disso. Eu acredito que a chegada de novas tecnologias fez o cenário da música eletrônica evoluir, mas evolução não significa esquecer o passado. É exatamente nessa pegada que eu me insiro.
Mesmo com a minha nova roupagem de projeto, de Raul Mendes para Pirate Snake, pensei em me atualizar em relação ao mercado, mas sem perder a verdadeira essência musical. Como Pirate Snake sigo fazendo releituras oficiais de Tim Maia, Blackbox, Al Green e Bill Withers, até Fatboy Slim e Snap. Esse é o meu propósito, quando me utilizo de referências para samplear não sou desses que gosta de pegar o hit do momento e mexer para acertar algo momentâneo e tal, focado em grana e etc. “Ah mas Raul, a molecada de hoje não consome isso. Não conhece e não se identifica.” Foda-se! 🏴☠️ Tô aqui pra mostrar coisas antigas e boas também! Old is cool!
tarter

Eu acredito muito em identidade formada. Quando você tem isso, consegue se adaptar a outras tarefas e trabalhos dentro do teu propósito, sem perder a essência. Tem muita relação com princípios também. Desde que iniciei minha caminhada na música eletrônica, antes mesmo de ser DJ, eu fui promoter de eventos e lá no começo eu já vinha traçando minha essência, só trabalhei com eventos, artistas e clubs que tinham similaridade com meu gosto e meus princípios.
Isso foi em 2006. De lá para cá, eu só me envolvi em projetos que, de alguma forma, tinham a ver com minha essência. Fui promovendo eventos, tocando, produzindo, abrindo gravadora, fazendo workshops e agora sigo com minhas aulas online de mentoria. A gente só consegue dar o máximo para algum projeto se ele estiver de acordo com nossos propósitos, assim, consequentemente, você não perderá sua essência, mesmo que, na pior da hipóteses, o seu alvo principal de carreira seja outro no decorrer desse processo.
No início de tudo, eu jamais pensei em ser DJ, no início de DJ, jamais pensei em ter um live, após isso, jamais pensei em ser professor. A grande sacada é que, quando você tem propriedade e estuda bem a bandeira que você quer carregar, a adaptação acontece naturalmente e você segue levando sua essência, propósito e princípios para o máximo de pessoas.
Gabriel Evoke

Há 15 anos atrás eu tocava Psy Trance, tinha acesso restrito a internet, usava uma conta do Myspace, nunca tinha ouvido falar do Beatport, andava com uma bag pesada cheias de CDs de áudio, para chegar nas festas me direcionava por mapas e fazia divulgação dos meus eventos com flyers de papel. Desde então eu passei por transformações e atualizações necessárias para me manter no mercado. Hoje, sou um Gabriel com muito mais acesso à informação, e assim com mais conhecimento de diversas áreas do meu mercado, pude lapidar o meu lado artístico e ter contato com ferramentas para melhor executar o meu trabalho.
Saber quem você é nesse mercado e de que forma, rapidamente, se adaptar a todas essas transformações é fundamental para se manter em uma posição relevante. Já em 1963, Leon C. Megginson disse em um discurso: “não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. Enquanto artista eu continuo o mesmo Gabriel amante da música underground lá de trás, porém com um leque mais recheado de opções.
Acredito que na música eletrônica, independente do tamanho do sucesso que você possa ter conquistado, se acomodar pode ser fatal. Num mundo onde a única certeza é a mudança, ser flexível e se manter em constante atualização é a regra do jogo. Trabalhar o presente, mas com os olhos no futuro. É para lá que o mundo vai — e quem antes entender para onde os ventos sopram, irá gozar da água limpa.
A música conecta.