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A música conecta

Boladona é uma história de amor?

Por Elena Beatriz em Artigos 28.01.2026

No início dos anos 2000, o Rio de Janeiro apresentava uma noite fragmentada. O Funk vinha de um ciclo de crescimento acelerado, com CDs circulando em larga escala, estúdios se formando, bailes cheios e uma cadeia inteira de trabalho que incluía DJs, equipes de som, produtores, MCs, técnicos, vendedores e organizadores. Contudo, tudo o que era promovido por essa sonoridade funcionava sob estigma constante, vigilância e repressão.

De outro lado, o circuito de House e Techno ligado à classe média se concentrava em clubs fechados, com equipamentos melhores e referências vindas de fora, causando a falsa sensação de modernidade e superioridade. A mídia e o mercado tratavam esses dois mundos como realidades apartadas, mesmo quando ambos se estruturavam como ponto de encontro de lazer, profissionalismo e comunhão em torno da música eletrônica.

Em 2004, uma faixa colocou essas duas realidades em contato direto. Boladona, de Tati Quebra Barraco com produção de DJ Marlboro, partiu do uso explícito do sample de Love Story, da dupla britânica Layo & Bushwacka!. O que era um símbolo das pistas de Ibiza e Londres tornou-se a matéria-prima de um sucesso da Cidade de Deus, provando que a separação entre Funk e House sempre foi uma convenção social imposta, e não uma barreira musical, muito antes de qualquer debate público mais acalorado sobre essa proximidade.

À época, Tati Quebra Barraco, que por si só já era motivo de destaque por ser uma figura feminina que raramente ocupava posições de domínio dentro do Funk, explicitava os vocais como quem não demonstrava qualquer tentativa de moldar o Funk ao gosto das rádios FM tradicionais. Sua voz não buscava o refinamento técnico das intérpretes de MPB, mas a eficácia da comunicação direta, do humor ácido e do confronto com a moralidade vigente. 

Ao lado dela, DJ Marlboro articulava essa aproximação com o público no plano da produção, conduzindo a passagem rítmica que colocava o tamborzão em conexão com o piano de Layo & Bushwacka! e o House europeu. Ao aproximar esses dois polos, mostrou que a inovação eletrônica brasileira estava sendo construída por quem sabia ler a pista, independentemente do CEP de origem.

Produtores da periferia sempre atuaram como editores de som, capazes de reconhecer, na música eletrônica que vinha de fora, elementos que podiam ser reempregados e conectados ao impacto rítmico local. Com acesso limitado a equipamentos e materiais, faziam muito com pouco, recortando, adaptando e redistribuindo referências de acordo com a resposta do público, englobando uma invenção profunda sobre como fazer música com restrições e como transformar o cotidiano em criações que ganham vida própria. 

O resultado, no caso de Boladona, foi um hit que atravessou camadas sociais, entrou na trilha da novela América, em 2004, e se alastrou em rádios populares, ao mesmo tempo em que escancarou a contradição de um país que consome a cultura periférica enquanto tenta apagar ou deslegitimar sua origem.

Essa resistência em aceitar o parentesco entre os gêneros ignora um fato histórico: o House e o Techno possuem a mesma origem periférica. Ambos nasceram em comunidades negras, LGBTQIAPN+ e marginalizadas de Chicago e Detroit, criando sua própria modernidade com o que havia disponível e enfrentando o desprezo de quem não pertencia àquele círculo antes de serem cooptados pelo mainstream global. Quando Marlboro e Tati trouxeram a melodia europeia para o tamborzão, eles não estavam “elevando” o funk, mas enfatizando uma estrutura que compartilha a mesma raiz de exclusão e inventividade. Sendo assim, o arco que une a faixa britânica e o baile carioca revela um caso antigo entre cenas separadas por preconceito e hierarquia.

Entretanto, a consagração técnica veio com o tempo. Em dezembro de 2025, o portal britânico Resident Advisor, uma das maiores autoridades mundiais em música eletrônica, publicou uma lista com os cem melhores álbuns dos últimos 25 anos. Boladona figura na 19ª posição, à frente de marcos como Kid A, do Radiohead, e de nomes como Moodymann, ARCA, Four Tet e Justice. O fato de ser a única obra brasileira no Top 100 reflete uma leitura que já amadureceu fora do país: o Funk carioca é, em sua essência, música eletrônica.

Reconhecer essa proximidade implica rever os critérios com que a música eletrônica foi historicamente legitimada no Brasil. Ao longo de décadas, produções periféricas foram tratadas com desprestígio, enquanto expressões oriundas de circuitos semelhantes, mas socialmente distintos, receberam estatuto de vanguarda. Tati Quebra Barraco e Marlboro expuseram essa assimetria ao registrar, em escala popular, uma convergência que já existia no cotidiano das pistas. 

A questão que se impõe, portanto, não diz respeito à validação tardia de um disco específico, mas à necessidade de reconhecer as diversas riquezas de organização cultural que nosso país reúne. Afinal, Boladona também é uma história de amor profunda pela música eletrônica e pela liberdade das pistas, reafirmando a capacidade constante da periferia brasileira de ensinar o mundo a dançar.

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