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A música conecta

Infected Mushroom e I Wish: três minutos que ajudaram a reescrever a história do psytrance

Por Marllon Eduardo Gauche em Notes 10.06.2026

O ano era 2003. A música eletrônica psicodélica vivia um momento de consolidação e, no centro desse furacão, estava uma dupla israelense que já havia reescrito as regras do jogo pelo menos três vezes. Amit Duvdevani e Erez Eisen, o Infected Mushroom, eram produtores de sucesso que misturavam a agressividade do trance com a complexidade melódica. No entanto, após o lançamento de álbuns que se tornaram quase como bíblias do gênero, incluindo The Gathering, Classical Mushroom e B.P.Empire, a dupla sentiu que havia chegado a um limite criativo dentro da fórmula que eles mesmos ajudaram a criar.

Foi nesse cenário de inquietação que nasceu Converting Vegetarians. Dividido em dois discos distintos — o Trance Side e o The Other Side — o trabalho propunha uma separação entre o que o público esperava deles e o que eles realmente queriam explorar. Enquanto o primeiro disco entregava o psytrance de alta octanagem que os consagrou, o segundo mergulhava em territórios desconhecidos: ambient, synth-pop, rock e experimentações eletrônicas que desafiavam rótulos. É exatamente no coração desse “outro lado” que encontramos I Wish, uma faixa que, à primeira vista, parecia um desvio, mas que acabaria se tornando o mapa para o futuro da dupla.

Para entender o peso de I Wish, é preciso lembrar quem era o Infected Mushroom naquele momento. Eles eram os headliners absolutos, os artistas que definiam o que tocaria nas pistas de Israel ao Brasil. Tinham o domínio total da técnica de produção de pista, mas havia um desejo latente de humanizar a máquina. A cena psytrance da época era, em grande parte, focada em texturas sintéticas e viagens instrumentais longas, muitas vezes ultrapassando os oito ou nove minutos de duração. O foco era o transe hipnótico, a repetição e a progressão modular.

Ao decidirem fazer algo diferente, Amit e Erez mudaram o ritmo e a direção do psytrance. Eles queriam canções. Queriam estruturas que pudessem ser cantaroladas, que tivessem um início, meio e fim definidos por uma narrativa emocional, e não apenas por uma subida de BPM ou um drop de sintetizador. I Wish nasceu dessa coragem de ser simples em um meio que valorizava o excessivamente complexo. Foi a primeira vez que muitos ouvintes perceberam que o Infected Mushroom não queria ser apenas uma dupla de DJs, mas uma banda completa, capaz de transitar entre os festivais e também as rádios.

Com apenas cerca de três minutos de duração, a música ignora as introduções longas feitas para mixagens de DJs. Ela vai direto ao ponto. A estrutura é a de uma canção pop eletrônica, mas envolta em uma aura de melancolia e introspecção que era incomum nas pistas de dança de 2003. A batida é contida, quase um downtempo eletrônico, permitindo que os elementos melódicos respirem. Na época, parte da comunidade mais purista do trance viu The Other Side como uma traição às raízes. No entanto, I Wish provou ser visionária. Não era uma música feita apenas para a pista, mas para ser uma experiência de escuta. E foi essa característica que permitiu que ela envelhecesse tão bem, soando atual mesmo vinte anos depois, enquanto muitas faixas de pista daquela mesma safra acabaram datadas.

Um dos elementos mais marcantes da obra é, sem dúvidas, o uso da voz. Até aquele momento, o Infected Mushroom utilizava vocais de forma esporádica, geralmente como samples processados, gritos distorcidos ou texturas que serviam apenas como mais uma camada rítmica. Em I Wish, o vocal de Amit Duvdevani assume o papel de protagonista. Processada para ganhar uma textura robótica, mas ainda assim profundamente humana, a voz guia o ouvinte por toda a composição. A partir dali, esse elemento passaria a ser uma ferramenta central em álbuns posteriores como Vicious Delicious e Legend of the Black Shawarma, permitindo que a dupla colaborasse com vocalistas de diversos gêneros e se apresentasse com uma banda completa.

Embora a versão original tenha conquistado o coração dos fãs, foi o Brutal Remix de Skazi, lançado em 2004, que garantiu que a música nunca saísse das pistas. Asher Swissa, o homem por trás do projeto Skazi, pegou a essência melódica e vocal da canção e a injetou com uma dose massiva de adrenalina e guitarras distorcidas. O remix transformou a balada eletrônica em uma arma de destruição em massa para festivais. Especialmente no Brasil, o remix de Skazi foi um fenômeno sem precedentes. Ele uniu a sensibilidade pop da letra com a agressividade do full-on que dominava as raves brasileiras na época. Para muitos, essa versão foi o primeiro contato com o Infected Mushroom — e ajudou a selar o status de I Wish como um clássico imortal.

Hoje, olhar para I Wish é enxergar o momento exato em que a dupla decidiu que o mundo era pequeno demais para um único gênero. A faixa simboliza a liberdade artística em sua forma mais pura: a coragem de desafiar as expectativas do próprio público para entregar algo que o artista acredita ser necessário. Essa busca pela evolução constante é o que mantém o Infected Mushroom relevante após três décadas de estrada, atraindo novas gerações de ouvintes que buscam algo que vá além do óbvio.

Essa história de inovação e respeito às raízes agora encontra seu próximo capítulo no Brasil. No dia 13 de junho, o Laroc recebe a Spektrum, label que se propõe a ser um encontro entre diferentes dimensões da cultura psicodélica. Ao lado deles, a presença lendária de Raja Ram, o novo projeto brasileiro Dust Pilots (formado por Wrecked Machines e Vermont), Becker, Inê Goa, Lucas O’Brien e Luna DJ. Os ingressos antecipados estão disponíveis através da Ingresse.

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