Já diria Oscar Wilde: o descontentamento é o primeiro passo na evolução de um homem ou de uma nação.
Pois é, já de cara, pergunto: quão descontente você está neste momento? Eu estou muito. E foi justamente essa força ou a falta dela que me trouxe até esse texto que não será sobre música, mas sobre o nosso comportamento e como ele se encontra turvo nesse, que parece ser (e esperamos muito que seja), o começo do fim da pandemia. Não teria como falar do futuro sem, pelo menos, citar o passado recente e o presente. Então, antes de trazer boas mensagens, eu – que não costumo fazer isso -, vou só lembrar porque descontentamento é algo que tem que estar pulsando dentro de você neste momento. Vamos de desconforto então…
Primeiro, uma crise sanitária global inesperada desestruturou quase todas as camadas sociais e, sem pedir licença, colocou luz em toda a podridão e egoísmo do mundo. Nosso modelo sócio-econômico global é um desastre. Segundo, essa mesma crise, novamente sem um save the date, ativou nosso cérebro primitivo a.k.a o cérebro rápido, reativo, aquele que responde com base no instinto, e aí, salve-se quem puder. Não é exagero essa frase. De acordo com a Neurologia e de papos que eu mesma tive com profissionais para embasar textos anteriores aqui na redação do Alataj, esse tal sistema nos deixa primitivos, meio bicho mesmo, com medo e lutando pela própria sobrevivência, o que, infelizmente, altera as atividades de outras áreas mais empáticas como o córtex pré-frontal. Isso dá uma bela descompassada no sistema límbico, o gestor das nossas emoções.
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Minha psicóloga diz que, ao somar a mente acelerada nossa de cada dia ao cérebro primitivo você terá o seguinte cenário: pensamentos de medo e incerteza nutridos por uma infinidade de gatilhos nas redes sociais agora, ainda mais fortes pela parte do cérebro responsável pelo instinto e você entrará em um estado de alerta quase constante. O efeito? Ansiedade, pânico, burnout, depressão, exaustão…soa familiar?
Por terceiro, porque, independente da posição política que você assuma com ou sem conhecimento, é um total de zero surpresas que estamos vivendo uma crise social e política desesperadora – o que transcende a escolha do político de estimação. E por último, vivemos, ao que tudo indica, na era da infoxicação, o que causa desdobramentos perversos à sociedade (Fonte: basta ler comentários em qualquer notícia que fala de minorias que você vai me entender).
Mas, ao que parece, a maior lição que este vírus está deixando é que a mudança, por menor que seja, começa em nós mesmos. Primeiro no individual para reverberar no coletivo. E se me dão licença, vou me apropriar do discurso de Miss Universo para dizer que, no fundo, boa parte de nós só quer mesmo é ter paz na alma, na mente, nas células e sim, no mundo! Cada notícia pesada estampada em veículos de comunicação faz com que a gente queira deitar em posição fetal e aquela tal resiliência fica cada vez mais escassa. O que vamos fazer a respeito? Correr para voltar ao que éramos para aliviar o peso da realidade? A resposta é não. Ao menos nós, que estamos pela música, não!
Eis aqui meu ponto de conversão neste texto. Vamos recapitular brevemente. Lá por maio de 2020, como você estava? Diria que em casa, sem perspectivas, num estado de “modo avião mental”, meio com medo (cérebro primitivo mandando lembranças), mas tentando se divertir com o fato de estar lavando um pacote de Doritos fechado na pia da cozinha e brindando com você mesmo no espelho do banheiro sem nem sonhar com o que vinha pela frente. Naquele momento, uma fagulha começava a ganhar luz dentro de você, um sentimento muito bonito no inconsciente coletivo: quero ser uma pessoa melhor para o mundo, o novo mundo será melhor. Novo normal? Será?
Bandeiras sobre evolução foram erguidas, mas, para nossa tristeza, aquilo era apenas o começo da jornada e essa energia bonita se esvaiu. Status atual? Exaustos! Agora, a gente só quer sobreviver e que tudo isso passe logo. Mas talvez nossa ânsia por liberdade precise de consciência antes de mais nada.
E foi com esse sentimento turvo dentro de mim que decidi não trazer uma lista de boas condutas para um cenário mais consciente e colaborativo – mas lixo no lixo e pedir licença na pista de dança me parecem ser bons lembretes. Nem vou pedir por favor para os grandes players e para o topo das pirâmides “ei, evolua também, precisamos de aliados”. Condutas em prol de pluralidade, diversidade, inclusão, conscientização, sustentabilidade, economia colaborativa, isso já deveria estar vibrando no topo da sua mente! A ideia de abrir a cabeça e ser socialmente mais horizontal já tem que estar se cristalizando.
Por isso, abri mão de um editorial cheio de embasamento como de costume e vim aqui apenas pedir pra gente não desistir daquela fagulha bem humana, mas que está no contraponto do que é primitivo, material e palpável. É invisível e inexplicável. Muito mística? Tudo bem, siga pela vertente que achar mais confortável e mergulhe: ciência, antropologia, sociologia, religião, terapia, grupos de apoio, vozes da sua cabeça, mas permita-se. Evoluir é preciso e todas essas bases acima dizem que sim, faz parte do pacote “vida”. O que você vai fazer para o futuro que está chegando? Sim, você! Uma única pessoa diante dos quase oito bilhões de humanos existentes – algo que nosso cérebro não é capaz de computar. Lembra do começo do texto? O microbinho ensinou que se você não começar por você, não vai fazer efeito para o coletivo. A conduta do “não quer ajudar, não atrapalhe” não cabe mais: se você está atrapalhando é hora repensar.
Nós não podemos fazer tudo, mas a gente pode fazer algo. Algo que cabe, algo palpável. Não se envergonhe por serem pequenas coisas em seu dia-a-dia que são mudanças fáceis de promover. Mas vá, gradativamente, se desafiando. A comunicação pode ser ouro em tempos de fake news. Estudar, estar disponível a aprender e mudar de opinião, se permitir estar desconfortável para entender privilégios e saber como poder ajudar os demais, se despir, ser humilde, trabalhar empatia, furar sua própria bolha.
E a partir disso, eu te garanto uma pequena mágica: você se sentirá melhor, pouco a pouco. Mesmo que isso signifique começar exatamente por você, com sua saúde mental, que possivelmente está nos trancos e barrancos por aí. Comece por você, que o mundo sente. Use esse tal descontentamento para mudar as coisas, não para se anestesiar. Gradativamente uma forcinha extra vem. Eu sei, porque precisei de muito esforço para chegar nessa minha versão para este texto. Uma saúde mental em frangalhos e um bloqueio criativo de meses, mas sempre existe um novo dia e um recomeço.
A cada pequena ação que me propus nos últimos tempos, senti melhoras. Sim, mudar leva tempo. O que não pode é permanecer igual. A vida já provou que a segunda certeza na jornada é a impermanência. Eu entendi bem esse conceito quando perdi todos os meus trabalhos com eventos em março do ano passado. Mas eu não sou a mesma de março de 2020 e nem você. Ao menos não deveria ser. Não seja a mesma pessoa quando atravessarmos essa linha. Vá melhor, por você, pelos seus.
Mas e afinal, o que o clubber tem a ver com esse textão? Se você ainda não desvendou o mistério eu falhei miseravelmente, mas tudo bem, vou explicar: esse manifesto tem tudo a ver com a simbiose energética-positiva que uma pista de dança causa. O real propósito de quando House e Techno surgiram! Se a música conecta mais que qualquer coisa, o que podemos fazer?
Começando pelo simples: a famosa troca de vibe boa: abraçar, sorrir, beijar, cantar, pular, se emocionar. Nós, seres dançantes, passamos todo esse tempo dançando em casa (eu mesma dancei incontáveis vezes assim). Foi legal, foi terapêutico, mas né: sozinha. E a convergência tá aqui: quando você for para a pista, sozinho, sozinha, leve sua melhor versão. A versão mais educada, consciente, sustentável, gentil, alegre. Pense nisso antes de pisar fora de casa. Quem está na empreitada fazendo acontecer, sabe o quanto é difícil, mas isso não dá brecha para se manter na mesmice. Ficou na dúvida? Volte algumas casas e releia o oitavo parágrafo. Esse deve ser o exercício nosso de cada dia. Noção essa que vale para mim, para o portal ao qual presto serviço e todos os meus trabalhos. A mudança só pode ser promovida no diálogo, mas, para ele acontecer é preciso conhecimento e a sua melhor intenção. Abraça o mantra do Tim Maia: o caminho do bem é para todos e observe o que você tem entregado e o que está sendo entregue a você.
Vista-se da melhor energia, fale isso para todos que estiverem com você. Parece misticismo demais, mas uma pista de dança é feita de vários indivíduos, que, se estiverem na melhor intenção, na melhor energia, criam força para o coletivo e o coletivo, formado de boas intenções, muda o mundo. Nos vemos lá!
A música conecta.