Falar sobre renovação na música eletrônica costuma levar a uma discussão sobre nomes, sonoridades, estéticas e formatos. Pergunta-se quais artistas estão surgindo, quais vertentes estão ganhando força, quais movimentos parecem apontar para o futuro e quais espaços ainda conseguem propor algo novo. Contudo, essa conversa acaba ignorando uma pergunta de maior dimensão: quem, de fato, ainda consegue participar e ter acesso a essa cultura?
Nos últimos anos, os eventos de música eletrônica passaram por uma elevação significativa de custos. Dentro e fora do Brasil, sair para uma festa exige um investimento cada vez maior, envolvendo ingresso, transporte, consumo, alimentação, deslocamento, hospedagem em alguns casos e, muitas vezes, uma série de gastos indiretos que tornam a experiência menos acessível. O fato é que parte da pista começa a ser filtrada antes mesmo de se concretizar, pois o preço passa a funcionar como uma barreira de entrada.
Esse é um problema especialmente sensível quando pensamos em público jovem. A juventude tem um papel importante na renovação cultural, pois é a parcela do público que costuma chegar com curiosidade, disponibilidade para experimentar, menor compromisso com normas já estabelecidas e uma relação mais leve sobre o que “deveria” ser uma cena. No entanto, se os eventos se tornam financeiramente inviáveis para pessoas que ainda não têm renda estável, essa renovação passa a depender de um público que observa de longe, acompanha pela internet, consome recortes e referências, mas tem menos chance de viver a experiência em sua totalidade.
Trazer novas pessoas para os espaços não é apenas uma questão de aumentar público ou vender mais ingressos. É também permitir que a cultura siga sendo estimulada por outras leituras, outros desejos e outros repertórios. Uma cena que se fecha em torno das mesmas pessoas e dos mesmos hábitos pode até continuar funcionando, mas tende a reduzir sua capacidade de surpresa e reinvenção. A renovação não acontece somente quando um artista novo aparece no flyer, mas quando há público disposto — e com condições — de apreciá-lo sem que tudo precise estar previamente validado.
A cultura não se observa de fora, ela se vive. É na pista que se constroem referências, que se entende o papel de cada momento, que se desenvolve repertório. Por isso, trazer novos públicos e novos artistas não é apenas uma questão de expansão, mas de permitir que novas influências se estabeleçam e que a cultura continue em movimento. Se o acesso se torna raro, o processo de formação também vai enfraquecer.
A elitização não afeta apenas quem fica de fora, mas também altera o comportamento de quem está dentro. Quando ir a uma festa passa a custar muito, o público tende a escolher com mais cautela, as pessoas passam a investir em nomes já conhecidos, propostas já validadas e eventos que prometem retorno mais seguro para o dinheiro gasto. Com isso, artistas em desenvolvimento, formatos menores e curadorias menos óbvias encontram mais dificuldade para construir público.
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