A terceira temporada da Diggin Essence segue investigando como se forma a identidade de um DJ. Depois de Eli Iwasa, Francesco Del Garda ocupa este capítulo com uma trajetória construída entre a pesquisa de discos e o aprendizado contínuo nas cabines. Seu nome se tornou associado a repertórios difíceis de identificar, mas as próprias explicações do italiano deslocam a atenção da raridade para outro aspecto: encontrar músicas com as quais consiga desenvolver uma relação pessoal e fazê-las funcionar em conjunto.
Natural de Manfredonia, na Puglia, Del Garda começou a explorar a música eletrônica na adolescência, em meados dos anos 1990. As primeiras apresentações aconteceram em festas particulares e pequenos clubs de sua cidade, antes da mudança para a Riviera Romagnola. Foi no circuito de Riccione e arredores, em espaços e festas como Echoes e Les Folies de Pigalle, que a atividade ganhou consistência. Os sets de warm up tiveram importância particular nesse processo, colocando diante dele a responsabilidade de estabelecer uma atmosfera enquanto a noite ainda tomava forma.
Sua circulação internacional se ampliou na década passada, com passagens regulares por lugares como Club der Visionaere, Robert Johnson, Closer e Concrete. Em 2016, sua participação no podcast do Resident Advisor registrou uma combinação de house, electro, UK garage e techno que já o aproximava de nomes como Binh, Nicolas Lutz e Onur Özer. No Brasil, sua trajetória inclui a Tribaltech de 2017 e apresentações no D-EDGE, Club Vibe e na 0dB. Atualmente, ele integra o grupo de residentes do fabric, em Londres.
Embora tenha lançado produções com Alessandro Gaia e, em 2016, o EP Bubble com Seuil, pela Eklo, a discotecagem permanece no centro de sua atuação. A criação da Timeless, em 2017, acrescentou a curadoria de uma gravadora a esse percurso, com lançamentos de artistas como Evan Baggs, Christian AB e Markus Sommer. Entre selecionar o trabalho de outros produtores e encontrar novas possibilidades para discos já existentes, Del Garda desenvolveu uma assinatura que pode ser compreendida por quatro aspectos de sua prática.
O garimpo nas coleções de outros pesquisadores
Na entrevista concedida ao fabric em 2019, Del Garda descreveu uma pesquisa que incluía depósitos de vendedores e acervos particulares de DJs italianos que o influenciaram. As viagens para tocar também ofereciam oportunidades de procurar discos. Esse contato permite acessar repertórios preservados por outras pessoas, com escolhas e histórias anteriores à sua própria coleção.
Seu critério declarado não exige que uma faixa seja rara. O interesse está em encontrar música que reconheça como sua e em construir algo com ela. Quando uma descoberta é identificada depois de um vídeo ou podcast, sua resposta é continuar procurando. A singularidade depende, assim, de uma pesquisa que se renova, sem se encerrar na posse de determinado título.
A lição de Francesco Farfa
O veterano italiano Francesco Farfa é uma influência que Del Garda reconhece diretamente. Ao conversar com o Resident Advisor em 2016, destacou o fascínio que sentia, ainda jovem, pela maneira como Farfa misturava gêneros com técnica e espontaneidade. A referência ajuda a compreender por que seu repertório não se apresenta como uma adesão permanente a uma única linguagem.
House dos anos 90, electro, uk garage e techno oferecem estruturas rítmicas e atmosferas diferentes. O trabalho está em encontrar relações que permitam reuni-las sem perder a coerência. Ao falar sobre o caso, Del Garda associou cada disco a um capítulo de uma história e apresentou a mistura entre influências como um desafio. A variedade, nesse entendimento, pede direção: conhecer muitas músicas é o que permite escolher quais delas podem conversar em determinado set.
O aprendizado começa no warm up
Antes das apresentações em grandes festivais, Del Garda passou anos trabalhando em clubes da Riviera Romagnola. A experiência de warm uper ocupa um lugar importante nessa formação porque impõe uma tarefa específica: começar a construir a noite quando o público ainda está chegando, sem recorrer o tempo inteiro à intensidade.
A recorrência desse trabalho oferece um aprendizado diferente daquele de uma apresentação isolada. Permite acompanhar como a pista muda, perceber quando sustentar uma ideia e reconhecer quando uma escolha chegou cedo demais. No percurso de Del Garda, essa vivência ajuda a contextualizar a atenção ao desenvolvimento do set. Uma coleção extensa oferece alternativas; o exercício de abrir a pista ensina a administrar quando convocá-las.
Diferenças entre o gravado e ao vivo
Del Garda estabelece uma diferença clara entre um mix gravado e uma apresentação na pista. Em entrevistas, explicou que um podcast pode exigir semanas de preparação: o registro continuará disponível, e essa permanência aumenta seu cuidado com as mixagens, por exemplo. Para o set ao vivo, descreveu uma abordagem aberta à sensação e experimentação do momento.
São duas exigências que convivem em seu trabalho. A gravação pede uma seleção capaz de sustentar novas escutas; a cabine oferece respostas que podem mudar a logo a próxima escolha. A preparação acumulada na pesquisa permite lidar com essa diferença: conhecer os discos o bastante para construir uma sequência e, diante do público, ter outras direções disponíveis sempre que necessário.