A magia por trás dos long sets

Se você, assim como eu, é um fã assíduo de ficar horas e horas de frente para um sistema de som desproporcional, sentindo e ouvindo aquilo que sai das caixas com um volume absurdo, bem, então com certeza você também deve gostar quando o seu DJ predileto decide tocar um long set, não é mesmo? Mas, first things first. Esse formato de set é algo que surgiu num passado não muito distante e eu vou te contar o motivo. 

+++ Loooooooooong com Thiago Guiselini

Quando ainda era tudo mato em termos de cenário clubber, era obrigatoriedade do DJ saber controlar a pista por muitas horas seguidas. Aliás, nas décadas de 70 e boa parte da de 80, o DJ não possuía esse destaque que estamos acostumados nos dias de hoje. Assim como o barman, o coletor ou o segurança, o DJ era só mais um funcionário do club, onde muitas vezes tocava de costas para pista, sem que a mesma pudesse observá-lo. Às vezes, o DJ era obrigado a dividir o mesmo balcão que o bar – imagine essa problemática -, quando não, nem no mesmo ambiente que todos que dançam o DJ estava. Sim, existiram casos onde o DJ tocava seus discos em uma sala separada da pista. Você que hoje é DJ, conseguiria tocar assim? 

Conforme essa febre por noites a fio dançando foi se intensificando, os donos de clubs perceberam que grande parte do público presente estavam lá por conta das músicas que o DJ tocava, não demorou muito para que as pessoas ficassem curiosas em saber como o DJ era, como o DJ tocava, fazendo assim que esse profissional saísse das sombras diretamente para o palco. É claro que essas mudanças também aconteceram por conta de muita pressão dos próprios artistas, provando que, como uma banda, o DJ também está executando uma performance digna de palco enquanto toca. 

Entre a segunda metade dos anos 80 e os primeiros anos da década de 90, os clubs já possuíam um formato o qual estamos acostumados, uma pista de dança espaçosa para comportar todos que queiram dançar e o DJ sempre voltado para os que estão presentes porém, ainda não era comum que muitos DJs dividissem a mesma pista. Durante esse momento vivido, as noites se resumiam entre o DJ que iniciava os trabalhos – ou como conhecemos, warm-up – e o DJ que tocaria até o fim, normalmente esse DJ era um convidado que não fazia parte do time de residentes daquele club ou festa e ambos tocavam por pelo menos quatro horas cada. 

Os motivos de se ter encurtado o tempo de apresentação dos DJs são muitos. Com a globalização de artistas e marcas, um intenso intercâmbio cultural começou. DJs que antes se apresentavam somente em sua cidade natal, passaram a viajar para outros países para tocar, com isso a logística apertada entre venues começou a reduzir o tempo de apresentação desses artistas. Os organizadores e promoters passaram a observar que aumentando a quantidade de artistas se apresentando em uma noite, era possível atingir uma quantidade maior de frequentadores, ou seja, quanto mais DJs tocando, maior a chance de ter lotação da casa. Com isso, noites que antes eram comandadas por dois DJs passaram a ser comandadas por quatro ou mais, encurtando ainda mais o tempo de apresentação.

Um dos reflexos disso é que uma parcela de DJs é obrigada a tocar determinada subvertente sempre, condicionando esse artista a entregar o que o público ali presente espera e de certa forma exige. Exemplo disso são os DJs que figuram nos horários principais em grandes festivais; dificilmente você verá esse DJ tocando algo que não seja parecido com o que você assistiu em algum vídeo postado. Aliás, a expertise de um DJ era justamente saber tocar os mais variados estilos com suas diferentes intensidades, não somente uma subvertente como é observado nos dias de hoje em alguns casos.

Mas, ainda existem aqueles que prezam por apresentações estendidas e total liberdade de expressão do artista que está ali presente. São justamente nessas apresentações onde a educação musical acontece, faixas são descobertas e redescobertas, você dança uma vertente que até então jurava não gostar e, claro, sai de alma lavada após ver um artista se desdobrar tantas e tantas vezes para criar momentos diversos e necessários em uma pista de dança.

Agora, dando a visão de um DJ que é fascinado por fazer long sets, é justamente nessas oportunidades que um artista consegue mostrar o quão apaixonado pela discotecagem ele é, afinal sem uma vasta e diversificada pesquisa fica impossível se prolongar mais que 120 minutos de apresentação. É necessário entender que as pessoas precisam de momentos de descanso tanto quanto momentos de explosão, elas precisam ir ao bar, ao banheiro, ao fumódromo e paquerar e tudo isso é possibilitado com a música certa no momento certo.  

E é claro que eu não ia deixar de indicar não um, mas dois long sets que considero muito bem executados, mostrando pesquisa, timing e conexão com os ali presentes.

O primeiro long set é do Sebo K em uma festa da Mobilee durante o OFFSónar de 2013:

O segundo é um long set dividido em 2 partes do trio Apollonia no BPM Festival de 2017:

E se você chegou até aqui e achou essa viagem editorial muito comprida peço minhas desculpas, mas hoje foi tudo long mesmo.

A música conecta.