A cultura da pista de dança vem continuamente provando que os mais diferentes tipos de locais são aptos a receberem uma festa. Mais do que isso: é praticamente um consenso que o lugar onde um rolê acontece é um fator quase tão importante quanto o som que está sendo tocado ou as pessoas que o frequentam. Inclusive, muitas vezes, esses três elementos – música, pessoas e local – estão inter relacionados, influenciando-se mutuamente. Portanto, as locações que recebem as festas são um eixo importante do cenário: a renovação vivida nos últimos anos na cena nacional veio junto de uma mudança radical em relação aos locais onde as pistas acontecem.
Se a primeira década dos anos 2000 foi marcada pela consolidação de grandes clubs em solo nacional, como D.EDGE (SP), Club Vibe (PR) e Warung (SC), que garantiram o Brasil como parada obrigatória nas tours de DJs internacionais, os últimos 10 anos viram o surgimento e o crescimento de festas importantes que utilizam locações não usuais, como fábricas desativadas: a Mamba Negra, que recebeu o Boiler Room, é um exemplo a ser destacado. Coletivos que realizam festas de rua fazem parte do novo ecossistema, além de projetos que ocupam locações menores, como cinemas antigos, bares e saunas, locais que não costumam ser frequentados majoritariamente pelo público fora do rolê.

Mas encontrar um bom local para a realização das festas não é tarefa fácil. Conquistar espaço na agenda de um club, licenciar uma festa de rua ou encontrar uma boa locação costumam ser o primeiro grande desafio dos produtores, gerando dor de cabeça até para os mais experientes. Questões objetivas relacionadas aos recursos financeiros disponíveis, à legislação das cidades e às características arquitetônicas dos locais tornam a missão complexa, e são incrementadas por questões subjetivas, como a vibe que lugar proporciona, o perfil do público que frequenta ou o bairro onde está localizado (o que pode ser um fator objetivo para corpos dissidentes, influenciando diretamente na sua segurança).
Se antes da pandemia já crescia a dificuldade em encontrar boas locações para a realização das festas, dificuldade motivada pelo aumento dos preços dos aluguéis e pelo cerco das fiscalizações, além de uma demanda cada vez maior do público por locais diferentes, a tendência atual da situação é piorar. Capitais médias, como BH e Porto Alegre, já sofrem com locações custando alguns milhares de reais, enquanto São Paulo pode ter preços alcançando mais de 10 mil, um crescimento que foi vertiginoso nos últimos anos. O aumento dos preços de aluguel pode ser explicado pela gentrificação, fenômeno que se abate sobre as grandes cidades e que têm relação direta com o rolê.
No final dos anos 1970 e início dos anos 1980, o geógrafo britânico Neil Smith consolidou o termo, que designa o abandono forçado de populações locais de determinados bairros em função da valorização do preço dos imóveis. Essa valorização se dá pelo incremento de determinadas características, como melhores serviços urbanos, maior oferta de comércio e, muitas vezes, um interesse cultural dos setores mais abastados da sociedade – um hype. Um clássico caso brasiliero foi a valorização da rua Augusta, em São Paulo, que chegou a ser locus de vários rolês alternativos e que, depois do hype, passou a receber empreendimentos mais elitizados.
Esse processo é comum em muitas grandes cidades no contexto do capitalismo. A “revitalização” dos centros históricos em Recife ou Porto Alegre tem o mesmo efeito. Uso revitalização entre aspas porque o termo sugere que antes das reformas os locais não tinham vida, o que sabemos que não é verdade. O que ocorre é que, diante de uma oportunidade de negócio, investimentos são feitos – financeiros ou culturais –, valorizando os imóveis do local e produzindo um aumento de preços, o que pode ser um problema para os produtores de festa, sendo, certamente, um problema muito mais sério para quem vive e trabalha lá. Assim, a prática de utilizar locações alternativas em bairros desvalorizados afeta diretamente os processos de gentrificação nas cidades.
Mas a dinâmica de migração dos locais na cultura de pista não é uma novidade, e tem influência de vários fatores. O documentário Pump Up The Volume (2001) narra o surgimento da House Music a partir da Disco no contexto dos clubs norte americanos, como Paradise Garage, em NY, e The Warehouse, em Chicago, sobretudo nos anos 1980. Ainda mais underground, a série Pose (2018) e o filme Paris Is Burning (1990) retratam a cena ballroom em NY. Protagonizados por pessoas negras, latinas e LGBTQIA+, ambos os movimentos fazem parte dos embriões do que viria a ser a cultura de pista global, mas nos EUA seguiam como expressões minoritárias, como os próprios DJs da época reconhecem.
No final dos anos 1980 a House Music já havia atravessado o Atlântico e invadido os clubs europeus, do Reino Unido à Ibiza (um dos vários motivos do embranquecimento da Dance Music). Esse foi o primeiro momento de grande popularização da música eletrônica de pista, que culminou com Second Summer Of Love, em 1988, na Inglaterra. Mas o sucesso das batidas House, Techno e Acid, associadas ao uso de drogas, levaria a proibições do poder público, o que fez com as festas migrassem dos clubs para as áreas rurais, surgindo as raves. Questões relacionadas ao moralismo e à criminalização, além de marcadores sociais de raça, classe e sexualidade, influenciam diretamente nas condições de possibilidade da cultura se afirmar em determinados locais.
A cultura de pista tem forte ligação com as expressões de diversidade dos corpos. O antropólogo e rolezeiro Gibran Braga, em sua tese de doutorado (2018), destaca o sentimento de liberdade sexual e de gênero vivenciado nas pistas de São Paulo e Berlim. Aliás, na capital alemã, o Techno foi um dos fatores que unificou parte da população após a queda do muro. Edifícios abandonados serviram como locações no desenvolvimento da cena que hoje é uma das mais importantes do mundo. As dinâmicas de popularização das cenas emergentes costumam ter como efeito algum nível de elitização. Os preços costumam subir, o público pode tornar-se mais genérico, e quem construiu o movimento pode deixar de frequentar, seja porque não tem mais condições, seja porque não se sente mais seguro.
No entanto, processos de elitização de um determinado formato podem ser o combustível para o surgimento de novos. Em parte, foram pessoas insatisfeitas com os preços, público, tratamento e estética dos clubs que fundaram o movimento dos coletivos independentes no Brasil. Mas a história da cultura de pista por aqui é longa, como demonstra Claudia Assef em seu livro Todo DJ Já Sambou (2003). Iniciada nos bailes comandados por discotecários, nos anos 1960 em São Paulo, ou com sonoros, na Belém dos anos 1950 – um gérmen das festas de aparelhagem –, o rolê brasileiro já passou pelos bailes black nos anos 1970, pelas discotecas nos anos 1970 e 1980, por inferninhos nos centros e mega clubs de periferia nos anos 1990, chegando nos super clubs dos anos 2000 e na revolução dos coletivos atuais, com suas festas de rua e em locações.
O movimento atual que vinha sendo vivenciado pelo nosso cenário era de algum enfraquecimento dos clubs e aumento exponencial das festas realizadas em locações. O quase desaparecimento de clubs pequenos já havia sido comentado aqui no Alataj por Vinicius Somavilla, lá em 2014. Laura Marcon também já registrou, no início da pandemia, importantes clubs que não existem mais. João Anzolin refletiu sobre esse movimento cíclico no final do ano passado, sugerindo que pode haver um retorno dos clubs em um futuro próximo. De fato, o aumento dos preços e a situação econômica podem inviabilizar o uso de locações. Novas regras sanitárias e questões relacionadas à segurança são outro fator complicador.
“Local revelado no dia”. Esse foi praticamente um mantra do rolê alternativo, quando ainda crescia na clandestinidade, há poucos anos. A institucionalização das locações mudou essa dinâmica, que talvez possa retornar. E o retorno dos clubs, seria possível? A importância do local onde as festas são realizadas é um fato incontornável. Não à toa, a House Music ganhou seu nome do club Warehouse de Chicago, assim como o Dancehall recebeu seu nome dos locais onde eram instalados os sound systems na Jamaica. O local, desde as danças rituais até os dias atuais, produz um território, físico e existencial. Ele constitui, com o som e com as pessoas, esse fenômeno tão intenso conhecido como cultura de pista.
A música conecta.