Editorial

Uma persona a ser estudada: Solomun

Não faz muitos dias que um de nossos redatores trouxe uma temática muito bacana aqui  no Alataj sobre como inserir tracks de Techno dentro de um set de House. Bom, não que isso seja um grande desafio para um DJ, a verdade é que, como disse Caio Staccionne em seu editorial, essa mistura é quase tão bem sucedida como arroz e feijão e o que ele justamente quis trazer foi uma perspectiva diplomática sobre como esses mundos vivem convergindo, mesmo que a gente adore categorizar e segregar coisas por aí. 

Entre os grandes titãs da música parece que sempre vamos encontrar aqueles que são tão democráticos que simplesmente não precisarão escolher lados ou não precisarão se estigmatizar para criar um conceito. E veja, não tem nada de errado em querer construir uma persona inarredável a algo. Tá tudo bem também, são estratégias diferentes. Mas parece que alguns personagens conseguem transpor essa barreira de forma natural e personificaram em si a capacidade de transitar pelos mundos sem que isso soe negativo. 

Claro que como tudo na vida há dualidades e o caminho nem sempre é repleto de flores. Talvez o contraponto dessa diplomacia toda é que você corre mais riscos de se perder no personagem. Afinal, o grande preço de se tornar famoso pode ser justamente se tornar famoso, não é? E quanto mais popular você se tornar, agradando a gregos e troianos, mais chances de levar uns tombos, ter seus tapetes puxados por aí ou conquistar inimizades.

É assim que chegamos até o nome escolhido para essa matéria: Solomun, um dos mestres jedis da Dance Music, mas que, por alguma razão, conquistou uma fama dual no meio. Que ele é um grande artista, isso ninguém dúvida – ou pelo menos não deveria e eu vou te provar -, mas não é incomum encontrarmos comentários sobre ele por aí, muito mais atrelados à  conduta das boas maneiras, ou à falta dela, do que sobre seu som. Então, decidimos mapear os fatos de um perfil que merece atenção, tamanha sua potência e sua habilidade de andar sobre uma fina corda que permeia o underground e o mainstream e ver o que podemos destilar disso como aprendizado.

Solomun pode tocar em um porão escuro para pequenos seres noturnos que não gostam de interação, mas também pode sair dali, pegar seu chapéu Panamá e fazer um set em alguma ilha pelo mundo, em euros. Ele pode tocar para uma multidão em um festival hypado ou pode fazer um b2b inusitado com um big name que nada parece ter a ver com o seu som e mesmo assim, vai funcionar. Aliás, é um dos caras que mais convoca outros grandes nomes para essa modalidade. Teria ele encontrado uma fórmula para o sucesso? Será que esse mesmo sucesso acabou se tornando sua cruz? Tem um fator sorte em sintonia com tudo o que se sucedeu ou ele é só um grande businessman

Inquestionavelmente, entretanto, há um quê de polêmica. Solomun está em outro patamar e não é de hoje que o vemos fanfarreando por aí. Já teve até umas tretinhas com contratantes e clubs. Há quem conteste isso como não sendo muito nobre para dar exemplo às novas gerações. Talvez todo preço da fama desemboque justamente nessa válvula de escape tão comum que vemos entre os grandes artistas. Você conhece bem aquele combo: sexo, drogas e rock n roll ou então, música eletrônica. Sim, ele é controverso, mas possui uma capacidade ímpar de se metamorfosear por aí. Se adapta a qualquer palco, sabe ler pistas, acompanha as tendências e erra, como qualquer um. Mas junto disso, construiu uma reputação global e é um dos maiores ticket sellers do ramo. 

Nesse estudo de caso, listei alguns pontos que considero elegíveis sobre como ele chegou onde chegou e, paralelo aos pontos positivos, trago aqueles que considero traiçoeiros no percurso e que podem justificar algumas das má famas conquistadas com o tempo.

A voz da experiência | Solomun nasceu nos anos 70, ou seja, não estamos falando de um new kid on the block, o artista já está na estrada há muito tempo. Trabalhe duro, faça o seu e colha os frutos…uma hora vem. Nos anos 80 e 90, quem foi “pioneiro” conquistou mais fácil, ainda que isso não signifique que a empreitada tenha sido “mamão com açúcar”. Dual, de novo…

Interferência alemã | Digam o que for, mas esse sangue tem poder. Solomun mudou-se muito jovem para Hamburgo. Alemanha tem dessas, estrelas nascem por lá, então quem sabe ele surfou nessa onda enérgica, se me permitem pirar um pouco. No mínimo, viveu de perto o efeito supernova que rolou quando aquele muro veio ao chão.

A veia empreendedora |O artista começou como boa parte dos meros mortais, ora, do começo e não demorou muito para ir atrás dos seus sonhos. Tentou ser jogador de futebol, mas acabou abrindo sua própria produtora e gravar curta-metragens, ainda adolescente. Anos depois, já famoso, decidiu ter um clubinho para chamar de seu.

Começou cedo | Seus primeiros passos com os discos foram aos 16 anos, no início dos anos 90, bem naquela efervescência europeia, o que nos leva a crer que ele caiu de cabeça. Aos 23, ele começaria a produzir suas primeiras músicas e aí você já sabe o resto. 

Acertou a mão em sequência | Em nossa análise aqui no Alataj, concluímos que ele teve uma sequência criativa que o conduziu ao topo, mesmo não tendo hinos autorais meteóricos. Há coisas muito boas e hoje temos um efeito “Toque de Midas”. Primeiro vem um grande sucesso, aí as portas parecem abrir com muito mais facilidade e tudo orna melhor.

Muitos prêmios em sua carreira | Prêmios são ótimas maneiras de chancelar um bom trabalho. E bom, titio Salomão tem alguns no currículo. Foram essas premiações que começaram a desenhar a trajetória e transformar ele em um artista famoso. 

Pode não ter um hino autoral, mas o remix mais bombado no mundo é dele | Em 2011, Solomun remixou Around, do Noir & Haze, e isso foi um fenômeno. A faixa foi elencada como Remix do Ano, pelo Resident Advisor. Essa música tocou, tocou, tocou e tocou e quem é visto é lembrado.

O timing perfeito para criar um império | Quando Solomun criou a Diynamic, em 2006, o progresso ainda era tímido, mas as parcerias fizeram a diferença Após cruzar com Hosh, outro nome em ascensão na época, as coisas entraram rapidamente no eixo. Os nomes de seu selo: Stimming, Thyladomid, David August, Adriatique, Karmon, etc. Acha pouco? O showcase deles na BPM FESTIVAL é uma amostragem boa do que quero dizer quando uso a palavra império.

Branding é tudo nessa vida | Solomun é POP! Talvez o mais Pop do underground. Estamos falando de uma marca e a banda toca diferente quando você consegue essa façanha. Além de todo o mérito pela capacidade criativa e empreendedora, existe o fator que o catapultou: ficou popular. Em 2012, a Mixmag coroou ele como o nome do ano na música eletrônica mundial. Preciso dizer mais?

Rei de Ibiza | Com a popularidade em alta, o nosso querido artista encabeçou uma noite semanal no lendário Pacha Ibiza, a emblemática festa Solomun+1. Aqui vemos ele operar grandes B2B com os maiores e mais diversos nomes do ramo e mostrar que é, sim, um p*** seletor e onde justifico o ponto alto da versatilidade. Ah, e não foi só o Pacha, teve o Destino e o Ushuaia também e uma vez bombado em Ibiza, você já sabe…

Seu estilo | O artista prosperou em uma fase muito marcante, o Deep House dançante do eixo 2012. Suas construções sempre permeavam esse estilo repaginado. Mas assim como a própria vertente, ele evoluiu e hoje temos sets mais progressivos e melódicos. Podemos dizer que ele não trocou de tribo, apenas atualizou o portfólio, com sutileza. Aquele som do passado funcionou muito, mas tudo evolui. Talvez essa seja uma razão plausível para justificar porque muitos fãs dele hoje já não são mais fãs. Nós também mudamos.

Onde Solomun AINDA não tocou? | Não é um feito exclusivamente dele, mas com certeza é um dos poucos caras que já carimbou o globo e aqui vamos desde as festas com camarotes e bebida que pisca, até festivais de Techno. Imagina esse passaporte de festas? Coisas de camaleão.

Solomun no Warung | O Warung parece ter alguns DJs quase como filhos. Nomes mundiais que atingem ali uma sinergia inigualável e com certeza esse é um caso. No auge da sua carreira, em 2012, tivemos três gigs do artista no mesmo ano dentro do clube, duas delas nas melhores datas: carnaval e aniversário do club. E nos anos seguintes ele veio muito também. Muitas pessoas falam dessas noites até hoje (eu mesma), não dá pra negar, foi algo único.

Porém, não nos subestime | Solomun recebeu algumas críticas ao longo dos anos aqui no Brasil, em função de uma queda visível no nível de suas apresentações e na escolha do repertório, que acabou ficando repetitivo em um certo momento – o que por exemplo, destoa muito do que ele faz na gringa. Inclusive, repetição de faixas no mesmo set e um combo de hits já esperados. Tem quem ache que não tem problema, mas tem um bocado de gente que torce o nariz para esse tipo de conduta. Afinal, é um comportamento que pega mal, daqueles que não precisa. Então não poderemos deixar de citar. 

Cuidado com a síndrome do Rock Star | O cara adora uma festinha e não teremos uma ou duas histórias sobre Solomun conduzindo o after. Isso já é quase um item em sua lista de exigências: se tiver um after ele estará lá e fará bonito ou só vai dar uma passadinha no ponto, como bom ser humano afterista que é. Aqui eu deixo em aberto pra vocês:

  1. deixa o homem pirar em paz, ele é gente como a gente
  2. ele é muito famoso, deveria ser mais cuidadoso com a imagem e o exemplo que passa

Business man e cheio dos contatinhos | Por último, mas não menos importante, apenas um reforço do que já mencionei nos itens anteriores. Seja conduzindo seu megalabel, ou fechando collabs gigantes, festas pelo mundo ou em um back to back despretensioso, esse cara sabe o que faz e faz bem feito. 

Ok, acho que cheguei no ponto conclusivo deste estudo. Não podemos negar, o cara é uma máquina, construiu um império e se tornou um dos nomes mais populares, fazendo um movimento que poucos conseguem. Talvez hoje esteja atravessando um período não tão frenético em termos de sucesso, como foi na onda do Deep House no começo da década. Pode ser que ele mesmo se reinvente a ponto de voltar ainda mais forte no futuro ou simplesmente tenha estabilizado, já que estamos beirando os 50 anos aqui. Solomun foi um dos artistas que menos deu às caras na era pandêmica, isso também representa algo. No mínimo, um descanso. Seja ele um festeiro que sabe viver ou um dos nomes mais versáteis do nicho, ainda é um ser humano e merece respeito e o devido mérito pelo papel fundamental que prestou e presta para o cenário. Fez a música eletrônica underground ser mais Pop e isso é bom para todos nós. 

E ele tem seu lema: Do It Yourself, que conhecemos bem como faça você mesmo, principalmente quando você quiser fazer bem feito. Errado não tá, é só ver onde ele chegou. Ninguém vai acertar todas. Logo, peguemos leve com essa grande estrela.

A música conecta.

Compartilhe