Quando se pensa sobre a região da tríplice fronteira, as primeiras imagens costumam estar associadas às Cataratas do Iguaçu, ao comércio de Ciudad del Este ou à possibilidade de atravessar três países em um mesmo dia. Essa leitura deixa de fora uma parte importante da vida cultural local. Entre Foz do Iguaçu, Paraguai e Argentina, a música eletrônica formou ao longo das últimas décadas um circuito de festas, espaços, artistas e frequentadores que atravessam pontes e estradas também para dançar.
A história da cena eletrônica da tríplice fronteira remonta ao menos ao caminhar dos anos 90, passando por diferentes fases, sonoridades, espaços e formas de organização. Reconstruir em detalhes essa trajetória exigiria muito mais do que algumas palavras, já que boa parte dela permanece dispersa entre memórias, registros pessoais e relatos de quem participou de cada período. Ainda assim, é possível destacar alguns dos momentos mais importantes dessa trajetória para compreender como a cena se consolidou ao longo do tempo.
Um dos marcos lembrados nessa trajetória é a Illusions Gathering. Realizada entre 2005 e 2011 por produtores de Foz do Iguaçu e Ciudad del Este, a rave teve cerca de 12 edições ao ar livre, com aproximadamente 15 horas de duração e programações que passavam pelo Progressive House, Trance e Psychedelic Trance. A Illusions participou de um período em que a cultura rave reuniu pessoas dos dois países em torno de um sentimento forte de comunidade e pertencimento.
Os valores ligados ao P.L.U.R. — paz, amor, união e respeito — estavam presentes na maneira como parte daquele público se relacionava com a pista e com as pessoas ao redor. Para quem continuou envolvido com música eletrônica na região, as experiências daquele período influenciaram o gosto musical, a convivência e a compreensão sobre como uma cena forte poderia se desenvolver.
Foz do Iguaçu
Com a passagem dos anos, House, Minimal, Tech House e Techno ganharam espaço e abriram caminho para outro período da cena. Em Foz, The Lab Underground e 0dB se tornaram duas referências importantes, enquanto projetos como Lucky Hours, Rádio Sala, Crew House, Invited, Kozy, Endless e Feelings participam de diferentes fases dessa movimentação.
Criada em 2015, a The Lab Underground ajudou a apresentar ao público local uma programação que dialogava com outros circuitos do Brasil, da Europa e da América do Sul. A festa itinerante realizou edições nos dois lados da Ponte da Amizade e recebeu nomes como Roman Flügel, Priku, DAVIS, L_cio e Cesare vs Disorder. Os longsets também se tornaram uma marca da história da label: em uma de suas edições, DAVIS conduziu a pista por sete horas consecutivas. Em outra edição, realizada em 2018, a festa reuniu o Fumê Jazz Trio e o trombonista Sergio Coelho antes da sequência de DJs, aproximando música ao vivo e brasilidades em uma mesma programação.
A 0dB, criada em 2016, também realizou edições nos dois países e passou a receber públicos de Foz, Ciudad del Este, Cascavel, Curitiba, São Paulo e Assunção. Rhadoo, Petre Inspirescu, Laurine & Cecilio, Barac, Praslesh, Francesco Del Garda, Akufen, Lamache e Onur Özer estão entre os convidados que passaram pela festa. Em sua primeira apresentação na fronteira, Lamache tocou por mais de 12 horas, acompanhando uma característica recorrente entre projetos da região: festas longas, lineups enxutos, com boa curadoria e um público disposto a atravessar diferentes momentos da pista.
A Lacuna, um projeto mais recente e mais intimista, passou a promover pesquisas musicais experimentais e grandes feiras de discos que reúnem colecionadores de diferentes pontos da tríplice fronteira. O projeto também organiza conversas com DJs ligados a gerações anteriores da cena, aproximando memória, troca de repertório e novas formas de contato com a música.
Além disso, a cidade também recebe eventos e artistas ligados a uma vertente de maior alcance comercial, com passagens do Warung Tour e apresentações de nomes como Vintage Culture e Hernan Cattaneo, mostrando a convivência entre programações de grande porte e uma produção independente voltada a diferentes pesquisas musicais e junção de públicos.
Ciudad del Este e o lado paraguaio
Em Ciudad del Este e nas cidades próximas, Pulse Club, Club Condesa, Concept, Stereo Sunset, Infinity Underground, Íntimo Sessions, Distrito, Fuzzion, Fuzz Cave, 8bits e Orbe Collective aparecem entre projetos que participaram de épocas distintas da cena paraguaia. Alguns tiveram vida breve; outros atravessaram períodos diferentes e acompanharam as mudanças de público e sonoridade.
O Pulse Club se destacou como uma casa dedicada à música eletrônica. Vera, Anthea, Gene On Earth, Varhat, Zendid, Laurine e Binh passaram por sua cabine, inserindo Ciudad del Este na rota de artistas ligados ao House, Minimal e Techno. A existência de um club com programação voltada ao gênero criou uma dinâmica diferente daquela encontrada nas festas itinerantes de Foz.
A Concept tomou outro caminho ao ocupar o La Wayaba, em Hernandarias, às margens do rio Acaray. O espaço aberto, os eventos de longa duração e o sistema da Void Acoustics participaram da experiência proposta pela festa. Antes dela, a Stereo Sunset havia realizado três edições no mesmo local, incluindo uma apresentação de Franco Cinelli, o que revela como determinados espaços também passam a fazer parte da memória da cena. Quinta Catedral, Recanto Balneário e Distrito também aparecem nos relatos como locais importantes para festas e encontros entre artistas, produtores, fotógrafos, agentes culturais e frequentadores.
Os hermanos da fronteira
Do lado argentino, Puerto Iguazú desenvolveu uma trajetória menor em escala, mas presente há anos. O Limbo e Club 132 são citados como espaços que movimentam artistas da região e convidados de fora, aproximando frequentadores de Misiones de produtores e DJs de Foz e do Paraguai.
Festas e clubs em Eldorado, Oberá, Puerto Rico e Posadas mostram que Misiones está conectada ao interesse argentino por House, Techno e Progressive House. Em Corrientes, projetos como o Red Falls também movimentam a economia criativa, recebendo grandes marcas como o Surreal Tour. Ainda assim, a troca com o lado brasileiro e paraguaio ocorre com menor frequência do que a relação já estabelecida entre Foz e Ciudad del Este.
Segundo Matías Weird, agitador e frequentador assíduo da cena, Brasil e Paraguai construíram uma conexão mais habitual, com públicos que frequentam festas dos dois lados e artistas que compartilham programações. A Argentina participa desses encontros, mas ainda existe algo a ser explorado para que haja uma aproximação mais frequente.
Cascavel e o Oeste do Paraná
Cascavel ocupa um lugar importante na história da música eletrônica do Oeste por ser o berço do Bielle Club, um dos espaços responsáveis por ampliar a presença do gênero na região e que permanece em atividade. A Sharp Movement deu continuidade a essa projeção ao aproximar o público de vertentes ligadas ao House, Minimal e Techno, chegando a reunir cerca de três mil pessoas em uma de suas edições. Ryan Elliott, Fred P, o duo The Ghost e Alec Falconer estão entre os artistas que passaram por sua programação. A festa também estimulou deslocamentos de frequentadores de Foz, Curitiba e outras cidades.
Projetos recentes ampliaram as possibilidades da região. A Tangerina, com atuação entre Cascavel, Maringá e Foz, recebeu nomes como Sibil e Que Sakamoto. Second Floor, em Medianeira, e Atchuca, em Santa Terezinha de Itaipu, também indicam que o público da música eletrônica não está restrito às maiores cidades do circuito.
Cada uma dessas regiões desenvolveu uma relação singular e especial com a música eletrônica, seja pela ideia de comunidade, pelas festas itinerantes, pela disposição de ocupar espaços improváveis para criar experiências coletivas, pela presença de clubs, pela garra de construir movimento em áreas fora do circuito central, formando público e projetos que ampliaram o alcance da cena e iniciativas persistentes que mantiveram viva a conexão da arte com a fronteira. Para muita gente, atravessar a Ponte da Amizade ou visitar os seus vizinhos para ouvir um DJ, encontrar amigos em uma festa do outro lado da fronteira ou passar horas na estrada para chegar a uma pista se tornou parte da própria experiência de viver nesse território.
O que torna essa história especial não é apenas a quantidade de festas realizadas ou os artistas que passaram pela região, mas a forma como diferentes comunidades aprenderam a se reconhecer ao longo do tempo. É bonito perceber como culturas distintas, mentes abertas, energia e calor humano se unem quando esses públicos se encontram na mesma pista. Cada região chega com suas referências, seus hábitos e sua maneira de viver a música, mas, durante algumas horas na pista, essas diferenças convivem lado a lado e criam uma experiência coletiva difícil de reproduzir em qualquer outro lugar.







