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A música conecta

Em 1975, Jorge Antunes lançou um LP chamado Música Eletrônica; conheça essa história

Por Marllon Eduardo Gauche em Notes 15.06.2026

O carioca Jorge Antunes é um dos nomes centrais na história da música eletrônica brasileira. Desde adolescente, ele construiu seus próprios equipamentos – theremin, geradores de ondas e reverberadores – e gravou em casa, em 1961, a obra eletroacústica Pequena Peça para Mi Bequadro e Harmônicos. No ano seguinte surgia Valsa Sideral, composição baseada em loops de fita e em um gerador dente‑de‑serra, considerada a primeira peça de música eletrônica escrita no Brasil. Com esses experimentos, Antunes fundou um pequeno estúdio de pesquisa na própria casa e levou a partir de 1966 para o Instituto Villa‑Lobos, onde ministrou o primeiro curso de música concreta e eletrônica do país.

O golpe de 1964 e a crescente repressão forçaram o compositor a deixar o Brasil entre 1968 e 1973. Durante o exílio, Antunes estudou no Centro Latino‑Americano de Altos Estudos Musicais do Instituto Torcuato Di Tella em Buenos Aires e no Instituto de Sonologia da Universidade de Utrecht. Na capital argentina, ele gravou faixas como Cinta Cita  e Auto‑Retrato Sobre Paisaje Porteño usando recursos profissionais, loops de discos de tango, sintetizadores e a própria voz, muitas vezes carregadas de críticas políticas.

Na volta ao país, Antunes reuniu gravações realizadas entre 1962 e 1970 e tentou convencer as grandes gravadoras a lançarem um LP de música eletrônica – após quinze negativas, apenas a Mangione Discos aceitou. Assim nasceu, em 1975, Música Eletrônica, primeiro álbum brasileiro inteiramente feito com sons eletrônicos. O disco, relançado décadas depois pela Guerssen, apresenta oscilações, ruído branco, feedbacks, loops, manipulação de fitas e vocais processados, colocando o compositor na mesma linhagem de pioneiros como Pierre Henry e Iannis Xenakis.

As cinco faixas do LP demonstram diferentes técnicas e abordagens. Valsa Sideral usa um loop de três notas e um gerador artesanal, com ecos e reverberações, que levou o musicólogo Claver Filho a afirmar que “o minimalismo nasceu no Brasil”. Contrapunctus contra Contrapunctus é construída a partir de cortes e montagens de fita. Cinta Cita combina ruídos filtrados e síntese aditiva em texturas pulsantes, enquanto Auto‑Retrato Sobre Paisaje Porteño utiliza um disco de tango como base, adicionando sons eletrônicos e uma colagem vocal censurada na edição original por criticar os generais das ditaduras. A obra final, Historia de un Pueblo por Nacer…, recorre a frequências graves e cita a Internacional, numa referência política igualmente expurgada na primeira prensagem.

Música Eletrônica vendeu cerca de 5 000 cópias em seu primeiro ano e repercutiu amplamente na imprensa brasileira daquele período. O álbum foi reeditado em 2000 pela Academia Brasileira de Música, em 2002 pela Pogus Productions sob o título Savage Songs e em 2016 pela Guerssen com as versões sem censura. Ao transferir experimentos acadêmicos para o suporte fonográfico, Antunes abriu caminho para a consolidação da eletrônica erudita no país e influenciou gerações de compositores e produtores.

Mais de meio século depois, seu disco permanece como marco seminal e continua inspirando tanto estudos acadêmicos quanto a cena eletrônica contemporânea brasileira.

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