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A música conecta

Psytrance: do open air aos clubs

Por Marllon Eduardo Gauche em Notes 03.02.2026

O psytrance construiu sua história no Brasil longe dos centros urbanos. Desde o final dos anos 1990, o estilo se desenvolveu principalmente em praias, sítios, áreas rurais e festivais open air, onde a experiência ia além da pista: festas longas, contato com a natureza e uma lógica comunitária que moldou a identidade da cena. Grandes eventos como o Universo Paralello ajudaram a consolidar esse formato e se tornaram referência para diferentes gerações de artistas e público, estabelecendo uma relação quase indissociável entre psytrance e espaços abertos.

Ainda assim, a consolidação das raves no Brasil como eventos open air deve-se, primeiramente, a uma herança histórica direta de circuitos internacionais como Goa (Índia) e Bali (Indonésia). Este movimento teve diferentes marcos, mas um dos pontos centrais de partida foi em 1991, em Arraial D’Ajuda, na Bahia, sob o comando do DJ italiano Max Lanfranconi, que buscou replicar no litoral brasileiro a estética das festas que frequentara no exterior.

Outro catalisador histórico decisivo para a expansão desse modelo foi o eclipse solar total de 1994, no Chile; o fenômeno atraiu uma invasão de ravers estrangeiros que, após o evento, migraram para Trancoso para a chamada Festa do Fim do Mundo. Esse influxo de viajantes internacionais reforçou a tradição de celebrar em locais paradisíacos e isolados, estabelecendo a natureza como o cenário padrão para o nascimento da cena brasileira.

Historicamente, o formato ao ar livre no Brasil também se desenvolveu em oposição ao modelo europeu devido a diferenças de repressão e espaço. Enquanto no Reino Unido as raves eram frequentemente alocadas dentro de galpões abandonados ou prédios ocupados (as chamadas squat parties) para escapar de legislações restritivas — como a Lei de Justiça Criminal de 1994, que combatia reuniões com “batidas repetitivas” —, o Brasil adaptou o conceito com uma abordagem mais tropical. 

A vasta disponibilidade de áreas verdes e praias permitiu que, a partir de 1995, núcleos em São Paulo e arredores operassem em sítios e fazendas. Essa escolha logística possibilitou que as festas brasileiras mantivessem um caráter de celebração independente e fora do sistema, sem a necessidade do confinamento urbano típico das capitais europeias. Como em outros contextos musicais, cada cena se desenvolve a partir de um compilado cultural e geográfico de fatores até formatar seus padrões. 

Sob o aspecto conceitual, a escolha por ambientes fora da cidade sustentou a construção da rave como um novo tipo de ritual, que exigia o deslocamento físico para a criação de um ambiente ideal. Sair da metrópole simbolizava o desligamento da lógica urbana ordinária em favor de uma vibe coletiva, onde a experiência sensorial é regida por ciclos naturais em vez do relógio mecânico. 

Ao longo dos anos 2000, essa cultura se espalhou por diferentes regiões do país, especialmente pelo litoral baiano, pontos variados no interior do Brasil e cidades no Sul, criando assim circuitos próprios e uma base fiel de frequentadores. Mesmo assim, a presença do psytrance em clubes de música eletrônica propriamente dito sempre foi mais pontual, salvo algumas exceções.

Esse cenário começou a mudar de forma mais consistente após a pandemia. O período de pausa forçada e a retomada gradual dos eventos aceleraram transformações que já estavam em curso: artistas passaram a circular mais entre cenas, clubes buscaram diversificar suas curadorias e o psytrance deixou de ser visto apenas como uma linguagem restrita aos open airs. Aos poucos, nomes do estilo passaram a aparecer com mais frequência em programações urbanas, adaptando seus sets ao formato de club e dialogando com públicos diferentes.

Nesse contexto, o D-EDGE surge como um agente importante desse movimento. Historicamente, o club sempre foi conhecido por trazer ao Brasil alguns dos principais artistas do house e techno underground global, mantendo uma curadoria atenta às transformações da cena. A decisão de abrir espaço para o psytrance — com uma noite inteiramente dedicada ao gênero no D-EDGE Rio — marca um passo relevante. 

A apresentação de Blazy no dia 7 de fevereiro indica uma abertura para que o psytrance seja experimentado dentro de um ambiente tradicionalmente associado à atmosfera clubber. Vale lembrar que esse movimento não é totalmente inédito no D-EDGE: Blazy já havia se apresentado no club em São Paulo em novembro do ano passado, sinalizando que essa aproximação com o psytrance vinha sendo construída primeiro na matriz paulista.

Essa mudança já vinha sendo notada em outros clubs também. Nos últimos três anos, espaços como o Surreal Park vêm recebendo artistas de psytrance em sua programação, inserindo o gênero dentro de um complexo que transita entre festival e club. O Laroc, por sua vez, amplia ainda mais esse alcance ao levar o psytrance para um público acostumado a grandes produções e eventos de perfil mais mainstream, mostrando como o estilo começa a circular em contextos cada vez mais diversos. Há ainda outros exemplos como o CAOS, em Campinas, ou até mesmo o El Fortin, em Porto Belo, que em seus quase 20 anos sempre manteve o Psytrance como pilar principal na sua história.

Importante pontuar que nada disso significa o enfraquecimento dos open airs. As raves seguem sendo parte central da identidade do psytrance no Brasil e continuam desempenhando um papel fundamental na formação de público e na construção estética do gênero. O que se desenha agora é uma cena mais distribuída, onde o psytrance passa a coexistir entre diferentes formatos, da pista na natureza ao club mais urbano. Espaços que antes pareciam distantes da sua origem, agora estão sendo ocupados com mais naturalidade. Quando isso acontece de forma natural, vertente e público saem ganhando. 

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