O Desafio de Uma Geração | Parte 2: Como chegamos aqui?

O ponto em que nos encontramos agora, essencialmente, pode ser ilustrado numa metáfora um pouco mais rebuscada do que aquela inicial: estamos numa estrada desconhecida com visibilidade prejudicada num veículo cuja aceleração é constante e a carga é crescente, sendo que a única coisa da qual temos uma vaga noção é o destino a ser atingido. Parece o enunciado de um problema ético a ser elucidado, uma dessas simulações tão comuns em exercícios filosóficos, mas cada um de seus elementos aponta para uma questão presente a ser abordada, uma condição pretérita a ser considerada e um risco futuro a ser calculado.

Parte 1: Como viveremos juntos?

Entretanto, é nesse ponto que cabe olhar pelo retrovisor e procurar enxergar como viemos parar aqui. Afinal, por mais que este vislumbre do passado não necessariamente nos mostre os caminhos do futuro, ele pode nos apontar obstáculos e dificuldades recorrentes a serem evitadas e rumos diferentes que podem ser tomados ou evitados, num momento ou outro, por um motivo ou outro, nesse nosso intimidante trajeto em direção ao desconhecido. Portanto, a primeira coisa que cabe fazer é procurar responder a algumas perguntas pertinentes, consequentes e iminentes: onde estamos e como chegamos aqui?

Logo de saída, cabe definir o “aqui”. Então pensemos no momento exatamente anterior àquele em que vimos nossas vidas serem viradas do avesso e qualquer noção de vida pública ser praticamente suprimida em sua totalidade. Isto nos leva à primeira semana de março, na qual já conseguíamos antever um pouco do que nos aguardava graças à experiência italiana, mas que ainda carregava uma certa esperança (por mais que ingênua) de que tudo aquilo estivesse distante demais para nos atingir  e que, caso isto ocorresse, não seria tão severo. Ser brasileiro é, ao fim e ao cabo, é um exercício constante de auto-engano e otimismo.

O cenário, honestamente, era auspicioso apenas para quem vivia em isolamento socioeconômico nessa bolha tão confortável que “a cena” nos provê; ela mesma originada no escapismo das questões mundanas que foi uma de suas finalidades originais junto ao público. É inegável que, artisticamente, as iniciativas independentes da música eletrônica dançante viam uma bonança inédita que se expressava num número crescente de projetos e frentes de entretenimento proliferando-se pelo território brasileiro. Ainda assim, o mesmo ímpeto não encontrava de maneira uniforme um correlato na representatividade dos coletivos junto aos órgãos públicos, ou mesmo uma crescente formalização de postos de trabalho, ou sequer algum reconhecimento das diversas das camadas ocupacionais que preenchem todas as etapas envolvidas na criação dos bens culturais que circulamos.

A crescente precariedade laboral é um fenômeno global que se encaixa em praticamente todos os meandros da vida econômica, indo de processos mais capilares como a informalidade que pauta as relações trabalhistas de forma cada vez mais predominante, até outras transformações de maior magnitude e inserção institucional como a recente reforma da previdência. Mas essa precariedade sempre se mostrou prevalente nos mais diversos âmbitos de nossa indústria. Desde a produção e promoção de eventos até o trabalho realizado por artistas, nossa cena é perpassada pela flexibilidade contratual e pela consequente imprevisibilidade de transações.

Ademais, uma questão estrutural de qualquer cena artística periférica se manifestava de forma naturalmente mais intensa em meio à nossa, uma cuja dinâmica interna sempre fora influenciada diretamente por um cosmopolitismo bastante contraditório. Isto se expressava naquela velha conhecida dependência de nomes estrangeiros para viabilizar qualquer empreitada no mercado de entretenimento musical brasileiro e que o acompanha desde seus primórdios. A imposição de headliners como fator determinante do sucesso de qualquer projeto, fosse ele ao vivo ou gravado, é algo constituinte das relações não apenas do público com as fontes de seu deleite estético, mas também da imprensa com este e dela com o mundo criativo em geral. 

Este sistema reprodutor de desigualdades acompanha a criação e a circulação daqueles bens dentro e fora do território nacional desde os momentos seminais de consolidação da indústria cultural brasileira. Ele se expressa na literatura, nas artes plásticas, na arquitetura, no cinema e, naturalmente, na música, mas seus contornos se tornam ainda mais claros quando observamos seus efeitos no interior de espaços de produção independente, mais vulneráveis e propensos a serem atingidos de modo mais contundente por quaisquer mudanças bruscas no cenário mais amplo.

E aqui se coloca uma questão essencial para que entendamos o momento crítico que agora enfrentamos: no quê, exatamente, implica essa independência da cena? Sabemos que ela se dá em relação um mercado imenso que gera lucros gigantescos para aqueles que participam dele diretamente no topo, além de gordos proventos oriundos de direitos autorais para os poucos afortunados que se beneficiam dele, mas está longe de suprir algo da mesma magnitude em termos de emprego, dada sua característica de concentração de recursos e riquezas. Esta característica fundamental do mainstream já torna impossível que uma quantidade razoavelmente ampla de profissionais possa dele depender e, numa indústria que cresce exponencialmente através de novos aspirantes movidos por sonhos e projetos os mais variados, este contingente aumenta a cada minuto.

Então, aqui vemos que “ser independente” é um fenômeno que se sustenta muito mais na carência do que na abundância de alternativas que um campo profissional profundamente desequilibrado proporciona, já que não depender de algo inviável não se apresenta como uma questão de escolha, mas de sobrevivência. Também torna-se claro que esta incapacidade generalizada de absorção aponta para uma insustentabilidade estrutural desse mercado cuja real precariedade nos atinge agora de modo contundente. Assim, somos todos ao mesmo tempo dependentes e independentes: uma quimera ocupacional que se sustenta numa cena mal estruturada e elitista.

O câmbio desfavorável, a falta de perspectivas, a carestia de recursos, todos estes dilemas atuais são sintomas de um ecossistema cuja funcionalidade já era frágil desde muito antes de a COVID-19 chegar. Ela só desnudou de modo implacável o quão problemática já era a nossa normalidade, colocando à prova cada um de seus aspectos mais fundamentais. Um panorama mais detalhado pode ser visto aqui, ainda que não aponte de modo mais preciso para as causas de nossa atual situação catastrófica. 

A terceira e última parte de nossa série O Desafio de Uma Geração será lançada na próxima semana. Acompanhe.

A música conecta.