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A música conecta

Adeus ao templo: qual legado o Warung deixa após 23 anos de história?

Por Jon Fachi em Artigos 03.06.2026

por Jonas Facchi

“O Warung é o templo da música eletrônica’’.

Foi com essa frase que Gustavo Conti selou o destino de um dos maiores clubs de todos os tempos. Ela foi cunhada pelo sócio-fundador em 2005, em um vídeo promocional que mostrava o club como uma joia escondida em meio a mata atlântica e que mesmo apenas com 3 anos de existência, já havia recebido alguns dos melhores DJs do planeta.

Sim, o Warung já iniciou grande, chamando atenção da mídia internacional. O que era aquele lugar em um canto do Brasil que tantos os DJs vinham comentando quando voltavam para Europa? “Paradise Found”, essa foi a capa da edição global da revista Mixmag, colocando o club como um dos 3 melhores do mundo naquele ano. 

Quantas gerações de clubbers passaram por essa pista ao longo de 2 décadas? Quantos que estiveram na primeira noite, estarão na última? Da inauguração em que o público se assustou com o balanço da pista de madeira e a festa sendo transferida para o térreo, até aquele balanço se transformar em uma das marcas registradas do club. Sim, só mais uma daquelas histórias inacreditáveis deste lugar tão especial. 

Diz a lenda que Conti e Leozinho (o eterno primeiro DJ residente e um dos precursores do progressive house nacional), estavam surfando na praia brava, em um momento de descanso, o Leo admirava aquela mata nativa do canto do morcego e em um momento de luz falou: “já pensou um club todo de madeira no meio da floresta e em frente a esse mar?’’ 

Warung em seus primórdios, ainda com estrada de chão

A semente da ideia estava plantada na cabeça do Conti. Suas viagens de surf para a Indonésia serviram para trazer a inspiração do conceito das “casas de madeira’’ também conhecidas como warungs no idioma balines. Tudo isso se completou por eles serem aficionados pelos álbuns em CD dos DJs ingleses, em especial um tal Northern Exposure, compilado por Sasha & John Digweed alguns anos antes. Era um som que não existia no Sul, tampouco no Brasil, nossa região era dominada pelas raves nos interiores de Porto Belo e Camboriú. 

Se esse texto é sobre legado, diria que um dos maiores foi introduzir e educar não uma, mas várias gerações para um estilo musical muito especial: é fato que o Warung Beach Club foi concebido para receber os maiores DJs de progressive house do mundo. A estréia com Timo Maas; o primeiro e segundo aniversário com Danny Howells; então Lee Burridge, Hernan Cattaneo, John Digweed, James Zabiela, Greg Vickers, Spitfire… todos esses nomes já haviam se apresentado nos 3 primeiros anos do club. 

Claro que DJs de techno e até psy (no garden) também tocavam: Anderson Noise, DJ Murphy, Chris Liberator, Dave The Drummer… porém a ideia era ir educando o público para o estilo que mais se encaixava com a famosa “magia do templo’’. Sons com profundidade, tribais, energia crescente e melodias, essa era a ideia e isso foi alcançado. Não preciso dizer sobre as últimas datas do The Final Journey que corroboram com essa estética sonora, reforçando e fechando um loop com retorno poético ao seu início. 

Hoje há toda uma geração de produtores de progressive brasileiros, agência dedicada ao gênero e eventos por todo país. Residentes do passado como o lendário Ricky Ryan, Leozinho e Rowan Blades, tocavam esse estilo. Residentes atuais como Zac, Edu Schwartz e BLANCAh tocam ou passeiam por esse estilo. 

A cultura de pista e os longsets: outro dos grandes legados que o Warung deixa é a cultura de sair para ouvir música eletrônica. Não apenas ir para “balada’’, não se trata de “sair para socializar’’, também pode ser, claro, mas em grande parte o famoso público fiel ao templo é formado por apaixonados por música, que frequentam religiosamente por anos e anos só para receber verdadeiras sessões imersivas de música conceitual. E é aí que entra a importância dos long sets. 

Um dos segredos do sucesso do club e da admiração por dezenas de DJs mundo afora, é a possibilidade de tocar por várias horas. Nos primeiros anos era sem hora para acabar, só dependia da disposição do artista e do público, um acordo não escrito que era sentido e definido ao longo das manhãs de sol. Isso sempre fez toda diferença na experiência e na percepção das pessoas sobre o que um DJ realmente pode entregar. Foram dezenas, centenas de horas de long sets históricos, até quatro da tarde, até meio dia, até às onze… noite e dia se entrelaçando através daquela vista para o mar que parece até uma miragem. 

Não preciso nem voltar ao passado para falar de long sets. Essas últimas datas tem sido emblemáticas o suficiente para servir de exemplo: Sasha & Digweed por 7 horas, Mano Le Tough por 7 horas, Deep Dish por 8 horas, Hernan & Patrice Baumel por 13 horas e meia, o recorde da casa, Laurent Garnier… uff, arrepia só de lembrar. Acredite, são poucos clubs no mundo que disponibilizam tanto tempo para um artista se expressar. Isso faz do público local um dos mais especialistas do mundo. 

A transformação da Praia Brava. De um canto isolado frequentado por surfistas, até se tornar uma das regiões mais valorizadas do país. “Coincidentemente” isso ocorreu durante a existência do Warung. O boom da Praia Brava com diversos bares, restaurantes e principalmente pela construção e lançamento de empreendimentos de alto valor. Tudo passa pelo fio condutor da procura por viver ou ter um apartamento perto do Warung e do movimento que ele criou ao longo dos anos. Vamos lembrar que por muito tempo o club abriu quinzenalmente, fazendo pessoas do interior do estado de Santa Catarina, do Paraná, do Rio Grande do Sul, dirigirem por horas só para vivenciar uma noite no club.

Por ironia do destino, a especulação imobiliária ficou tão forte que o fim do club está associado a isso, os terrenos do canto morcego se tornaram a última joia da coroa de um mercado bilionário, atraindo investidores de todo mundo. Afirmo, nada disso teria acontecido sem o Warung como pilar fundamental. 

No próximo final de semana o Templo se despede de sua casa com 3 noites que sem dúvidas serão históricas: Vintage Culture, Dixon, Hernan Cattaneo, os últimos seres a fazerem long sets no main room mais singular da história da dance music. O Warung não pertence ao Brasil, ele pertence ao mundo, sua despedida é ponto de inflexão na cena, mais um dos lendários deixa de existir.

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