Editorial

Editorial | Quem mudou mais em 30 anos: House ou Techno?

Olá a todos e bem-vindos a mais um editorial com um alto potencial de polêmicas e discussões. Mas não, não estamos aqui para polarizar a parada, se você leu o título e se preparou para debates como qual estilo se vendeu mais? ou qual estilo foi mais colonizado pelos brancos?, bem, eu sinto muito em lhe dizer, mas nesse texto você e eu não teremos essa treta. Estamos aqui no dia de hoje para abordarmos os principais pilares da Dance Music moderna e seus desdobramentos, afinal de contas, a música é cem por cento tendência e tudo que é tendência, automaticamente é cíclico.

Eu sei que é difícil deixar o saudosismo de lado quando o retrospecto é o único caminho a ser seguido e eu falo por mim mesmo, o maior trovador de frases como mas a melhor fase deste artista é a primeira e os primeiros lançamentos desta gravadora são os melhores. Por isso, acredito que a melhor e mais neutra abordagem a ser seguida é a comparativa, através dela vamos ouvir, analisar e falar sobre o que mudou o que não mudou dentro da House Music e do Techno. Certo?

Mas isso não soa como Techno!

Se você é um entusiasta da club music há pouco tempo – e quando digo pouco tempo estou me referindo há no máximo dez anos -, com certeza você está habituado com uma sonoridade mais progressiva dentro da Techno Music, a exemplo Tale Of Us, uma dupla que se tornou referência num contexto geral se falando do som vindo de Detroit – e que não tem NADA a ver com o que Tale of Us faz. 

Mas nem sempre foi assim, e aí você vai pensar: mas eu sei disso, Techno de verdade é o que Victor Ruiz e ANNA tocam. Sim e não. Quando o Techno surgiu, lá em meados dos anos 80, ele não era muito diferente do Electro que estamos acostumados a ouvir em Planet Rock, de Afrika Bambaataa, onde samples e instrumentos eletrônicos fracassados em vendas como a TB-303 e TR-909 eram a mais nova sensação entre produtores musicais por conta do baixo custo.

Sharevari é considerada a primeira música Techno feita, num distante 1981 e agora que começa a treta. Há quem defenda que a Techno Music começou entre Frankfurt e Berlin no mesmo período, enquanto outros defendem que o Techno começou em Detroit. Eu? Não tenho dúvidas de que o Techno, assim como nós o conhecemos, começou em Detroit, o que rolava na Alemanha era uma coisa muito mais Kraftwerk do que UR.

Claro, não posso deixar de citar Cybotron nessa parte do texto que, também para alguns, foram os responsáveis pela primeira música Techno já criada, Alley of The Shadows, nitidamente inspirada – para não falar um rip off – em Kraftwerk.

Isso é Disco Music, não House Music! 

Enquanto Detroit tentava contato extraterrestre com sua sonoridade altamente sintética, a gélida Chicago queria saber de balanço, mas a era Disco Music havia sofrido um golpe fatal. Em 1979 rolou uma parada muito bizarra em Chicago chamada Disco Demolition Night, basicamente uma reunião movida por diversos preconceitos como homofobia e racismo, onde a intenção era acabar com a Disco Music que majoritariamente era composta por negros, latinos e homosexuais. A cereja do bolo fica por conta de uma pilha enorme de discos sendo destruída e queimada. Preciso falar o quebra pau que deu? 

Com esse duro ataque, uma lacuna da Dance Music fica em aberto, um prato cheio para a nova onda de artistas que estavam por vir e que ao invés de dependerem de músicos e grandes estúdios, podiam fazer suas músicas através de máquinas, como o pessoal de Detroit. 

Qual a primeira faixa de House Music já feita? Mais uma tretinha por aqui. É de senso comum apontar On and On, de Jesse Saunders, como a primeira House Music já feita, mas os mais questionadores como essa pessoa que vos escreve sabe muito bem que Jesse foi meio ligeiro e roubou a ideia de um outro artista chamado Mach. Aliás, não só a ideia foi copiada como o nome da música também. 

Mas Mach não é santo. Esse bass riff que gruda na mente e faz a gente querer dançar vem de um clássico do final da era Disco, Funkytown, de Lipps, Inc.

Fica fácil concluir as raízes das duas vertentes, né? A Techno Music vem do Electro, do Synth Pop, enquanto a House Music vem estritamente da Disco Music. Também é fácil de ver e ouvir que a timbragem de ambos são extremamente parecidos, o que muda mesmo é o mood que seus artistas tinham e a sonoridade que eles queriam chegar. 

Anos 90 – Dos Estados Unidos para o mundo

Caso você já tenha se perguntado por que o House e o Techno são sucessos até hoje, a resposta é simples: ritmos e batidas são compreendidos pelo ser humano independente da língua falada e, quando você adiciona repetições nessa receita, esse potencial de fala é ainda mais ampliado. Não demorou muito para que países como Inglaterra e Alemanha abraçassem essa Dance Music repaginada vinda dos Estados Unidos com os dois braços abertos.  

Artistas como DJ Pierre e Adonis foram responsáveis por transformar o Hi-NRG – o equivalente britânico para evolução da Disco Music – em algo que nunca mais deixaria de existir, a Acid House. Os samples vindo da Disco saiam de cena e um sintetizador em especial dominava a parte melódica, o TB-303. 

O ritmo repetitivo ganhava um ar tenso e obscuro, o som Rock’nRoll que a TB-303 é capaz de gerar caiu no gosto dos britânicos assim como o ecstasy, e convenhamos, a Acid House foi feita para o MDMA como o MDMA foi feito para a Acid House. 

Enquanto UK vivia um caso de amor com Chicago, a Alemanha dava em cima do pessoal de Detroit, a exemplo a recém-criada na época, Tresor, que pegou o pessoal da Motor City e levou para uma Berlin recém-liberta do regime dividido soviético. 

Fica fácil imaginar porque a Alemanha teve mais afinidade com Detroit, né? O país é lar de montadoras gigantescas como Volkswagen e Mercedez-Benz, situação parecida com a cidade americana que é lar da General Motors e Ford, tornando esse intercâmbio cultural muito mais fácil de ser feito. 

Enquanto os pioneiros do Techno e do House exploravam novos territórios, nos Estados Unidos nomes como Green Velvet, Joey Beltram, Josh Wink, DJ Sneak, Ron Trent e tantos outros davam seus primeiros passos para trilharem um caminho de sucesso.

Anos 2000 – Tudo novo, de novo 

A virada do milênio para a House Music e o Techno é marcada por uma renovação gigantesca. O que antes havia se originado nos Estados Unidos, agora tem a Europa como lar. Novas ramificações aparecem como o Tech House e o Schranz, ganhando uma infinidade de adeptos pelo mundo todo e, claro, talvez a maior mudança de todas, a música eletrônica passa a ser tratada como um produto, algo que veio pra ficar e que geraria rios de dinheiro. Sendo assim, o Techno e a House Music agora tem seu lado mainstream. 

O Tech House vem como uma alternativa para os amantes do Techno, mas que também buscam o groove que só a House Music tem, por isso do termo Tech-House, que simboliza a união entre os dois mundos. Essa magnífica fusão se deu início na Inglaterra pelas mãos de Eddie Richards. 

A gente sabe muito bem no que o Tech House se tornou e, recentemente, escrevi um editorial 100% dedicado à história dessa que hoje é uma vertente polêmica, por isso não me estenderei mais sobre esse movimento.

+++ Editorial | O que levou o Tech House a flertar com a Edm nos últimos anos?

Já na Alemanha, as coisas saíam de controle, mas por um bom motivo. O Schranz Movement era a mais nova sensação entre os DJs Techno como Dave Clarke e Adam Beyer. O Schranz vem do Hardcore, que no final dos anos 90 passou a ter uma sonoridade mais amena, fazendo que os adoradores das batidas mais rápidas reformulassem a parada.

A Inglaterra também teve sua versão de Techno acelerada e mais intensa através do Acid Techno, que flerta diretamente com o Schranz. Chris Liberator e D.A.V.E. The Drummer são os expoentes dessa pegada de Techno que aqui no Brasil reinou nos anos 2000. 

Os anos 2000 também recebeu uma injeção de música eletrônica vinda da França através do movimento French House, que basicamente leva a House Music à suas origens, explorando novos samples da era Disco além de também flertar com o Electro, que levaria a outra ramificação musical chamada Electroclash. 

Acho que fica impossível não citar Daft Punk como exemplo de French House, né?

O Electroclash, por sua vez, é a somatória de tudo que já havia rolado nos Estados Unidos e Europa, somados à roupagem Pop. Um dos principais propulsores desse movimento foi Larry Tee, que colocou no holofote nomes como Fischerspooner. 

Outros nomes como Junior Senior, Michael Gray, Superchumbo e Planet Funk se usaram da onda French House para alavancarem suas carreiras dentro do mercado mainstream. Hoje, algumas dessas músicas passaram a ter status cult, como Chase The Sun, e podem ser ouvidas tanto por DJs de mainstream quanto underground. 

Anos 2010 – Todo mundo é DJ

Com os avanços tecnológicos como computadores portáteis e internet, a cultura de pista se espalhou com uma velocidade jamais vista. O que antes era observado como cenas locais – como o Tech House e Schranz – passaram a existir através de fóruns de discussão e trocas de músicas. O vinil havia morrido com o surgimento do MP3 e sim, todo mundo podia tocar a mesma música, já que com o sistemas P2P todo mundo tinha acesso ao que antes era restrito aos DJs.

O Tech House toma a frente da House Music, sendo tocado em quase todas as pistas que tinha o estilo como mandatório. Sua característica mais hipnótica e subversiva acaba se perdendo nesse processo de popularização, dando-se aí o início das piadas e chacotas com o estilo.

O Progressive House também ganha força total após anos sendo mais Trance do que House e graças a sua fusão com o Techno, ou como nós hoje conhecemos como Techno Melódico, Junto ao Tech House, toma a frente dos estilos musicais que flertam tanto com o mainstream quanto com o Underground.

Aliás, vocês sabiam que o Tale Of Us, que hoje é referência máxima no Techno Melódico, começou fazendo o tal Tech House que todo mundo critica, né?

E sim meus amigos, precisamos falar sobre o EDM, essa febre momentânea que pegou a todos que queriam ingressar ao mundo da música eletrônica mas não sabiam por onde. Eu, sendo bem sincero com vocês, não conheço quase nada sobre o fenômeno EDM, mas sei que foi amado e odiado de forma muita intensa por todos. Artistas como Dimitri Vegas & Like Mike, Skrillex e Steve Aoki fazem parte dessa época que já foi esquecida apesar de recente.

No final dos anos 2010, um suspiro para aqueles que sentiam falta das raízes musicais dos anos 90. O Deep House ganha força total através do Lo-Fi House de Max Graef e Andy Hart, enquanto o Minimal de Rhadoo, Raresh e Petre Inspirescu mergulham fundo no Tech House do início dos anos 2000 de Eddie Richards, Silverlining e Pure Science.

Acabamos de entrar nos anos 2020 e as coisas seguem como em 2019, o Tech House está vestido de Minimal, o Deep House vestido de Lo-Fi, a House Music vive um momento de throwback onde a Disco Music se faz presente e o Techno desacelerou em comparação aos anos 2000, muito por causa da forte influência que o Progressive House trouxe, onde a hipnose é mais importante que a velocidade.

Depois desse monte de música, qual vertente musical mudou mais? Fica difícil responder essa pergunta, não é mesmo? Ambos se distanciaram e retornaram várias vezes para suas origens, além de nitidamente um influenciar um ao outro até o dia presente e assim seguirá. 

Mas algo que dá para dizer é que quem muda mesmo são as pessoas que as consomem, fazendo com que, a cada ciclo iniciado, alterações sejam feitas nas matrizes das vertentes para atingir o máximo de pessoas que aquela geração no comando das pistas está.

E você, quem você acha que mudou mais: O Techno, O House ou as pessoas que as consomem?

A música conecta. 

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